
O ator brasileiro-americano Haysam Ali (@haysamali), natural de São Paulo, hoje morando e fazendo sucesso em Hollywood, percorreu um longo percurso até conquistar seu lugar ao sol. Ele, que foi convidado para integrar o elenco do reality show “A Fazenda”, na Record, em 2012, bateu um papo exclusivo com a MENSCH e contou detalhes de como foi iniciar a carreira artística fora do Brasil.
Radicado nos Estados Unidos há dez anos, agora em março, Ali deu um salto importante em sua carreira, estreando nos palcos americanos como o serial killer Marcelo Costa de Andrade, em “Vampiro do Rio”, peça na qual interpreta o Vampiro de Niterói e o psiquiatra. O roteiro do show solo foi escrito pelo autor de novelas, Tiago Santiago, e marca o início de novos projetos do ator.
Haysam, o que saiu de bom dessa mistura entre Líbano e Brasil? Conta pra gente o resultado dessa mistura… Olha, essa mistura de Líbano e Brasil, com um toque de Itália por parte da minha mãe, é tipo um presente que eu nem sabia que precisava. Crescer com essas culturas tão ricas me deu uma lente diferente pra olhar o mundo, sabe? Do Líbano, vem aquele calor humano, a comida que abraça — tipo quibe e esfiha que eu não vivo sem —, e uma resiliência que me inspira. Do Brasil, eu levo essa energia leve, o jeito de improvisar e acolher todo mundo. E da Itália, bom, tem a paixão, o gesticular com as mãos pra explicar tudo (risos), e um amor por histórias bem contadas.
Eu amo essa diversidade porque ela me ensinou a ver as coisas por ângulos diferentes. Como ator, isso é ouro: entender pessoas, sentir o que elas sentem, trazer verdade para cada papel. Acho que o mundo tá precisando de mais compaixão, de se colocar no lugar do outro, e essas raízes me ajudam a não esquecer disso. Saber que cada cultura tem seu jeito único de viver me faz querer evoluir, ser uma pessoa melhor — e, quem sabe, levar um pouco disso pras telas. No fim, é tudo sobre conectar, né? Seja com um prato de homus, uma risada brasileira ou um drama italiano bem intenso.


No início de sua vida profissional você foi publicitário e promovia grandes eventos. O que guarda de bom dessa fase? Algo desse período te impulsionou para a carreira artística? Foi uma escola e tanto. Uma fase de bastante aprendizado e encontros incríveis. Trabalhei com pessoas que me abriram a cabeça, desde organizar a vinda da Samantha Ronson pro Brasil — que, na época, era a namorada de Lindsay Lohan e trouxe um agito danado — até entender os bastidores de RP, como fazer um evento funcionar e conectar as pessoas certas. Foi um período intenso, mas rico.
E, sim, isso me impulsionou para carreira artística, que sempre foi meu norte. Esse tempo me deu um olhar mais amplo, hoje, ser ator vai além de atuar: tem que entender o mercado, saber se posicionar, traçar estratégias para sua carreira. A experiência que eu trouxe dos eventos me ajuda a navegar melhor nesse meio, a enxergar oportunidades e a valorizar as conexões. Acho que, no fundo, tudo aquilo foi um ensaio pra subir no palco da vida artística com mais segurança.
A participação no programa “Fazenda de Verão” foi o que faltava para a transição para a dramaturgia? Na realidade, não. Claro que me colocou dentro de um cenário que fazia parte dos meus planos futuros, mas a participação no programa foi mais uma experiência de vida que levo comigo e que faz parte da minha história.


Falando nisso, diria que a participação nesse reality foi um “há mal que vem para um bem”? Como foi isso? Hoje, sim, risos. Nunca imaginei que o ‘sufoco’ que passei lá dentro fosse me abrir portas em Hollywood, onde eu utilizaria essa experiência para interpretar um personagem que sofreu bullying a vida toda.
O bullying sofrido durante sua participação no programa te levou a terapia e por consequência a um autoconhecimento maior. Se sentiu mais fortalecido depois desse período ao ponto de hoje tirar de letra esse tipo de situação? Acho que nunca vamos conseguir lidar com esse tipo de situação de maneira tranquila, ou que deveríamos aceitá-la como algo comum. Passei por bons bocados para entender tudo na época, principalmente porque não existia o cuidado que se tem hoje em relação a isso. Se fosse hoje em dia, acho que eu teria recebido um amparo melhor. Se me arrependo? Não, não me arrependo. Fico triste e abalado? Já fiquei bastante, mas não mais. Hoje encaro como um momento que vivi e que uso para me educar e educar as pessoas sobre a gravidade dessas situações e suas consequências.
Deixando isso tudo para trás você se mudou para os EUA onde foi estudar na escola de teatro Stella Adler Studio of Acting, em Los Angeles. Um grande passo na sua carreira. Como foi esse processo de mudança, adaptação e formação em uma referência em ensino para atores? Antes de mudar para Los Angeles, vivi durante 9 anos em Nova York. Lá, me desconectei totalmente do mundo do showbiz, tirei um tempo para mim e trabalhei no mercado corporativo pela maior parte do tempo. Foi recentemente que me senti seguro comigo mesmo e decidi buscar o que sempre quis. Enxergo isso como uma pausa, e não como um período desperdiçado; essa ‘pausa’ me enriqueceu muito como ser humano e me beneficia até hoje. A Stella Adler foi incrível; foi lá que posso afirmar que me desenvolvi como ator, foi lá que aprendi muito mais sobre mim, além das técnicas de atuação. Foi lá que fortaleci minha espiritualidade. Largar a vida confortável que eu havia conquistado em Nova York para recomeçar do zero foi muito difícil, e ainda tem sido difícil, mas tem sido válido cada esforço, cada sacrifício… Sou determinado e sei onde quero chegar.



Seu primeiro grande trabalho nessa nova fase foi o curta-metragem “Play” que ganhou destaque em festivais internacionais ao dar vida ao personagem Henry Costa. Como foi participar desse projeto e que desafios te trouxe? Como se diz em inglês: foi ‘breathtaking‘. Não sou o tipo que mistura o português com inglês não viu, é que adoro esse termo (risos). Essa oportunidade me trouxe a sensação de que eu mereço estar aqui e, com isso, me abriu diversas portas para continuar no meu caminho.
E em março passado você estreou em Los Angeles a peça “Vampiro do Rio”, interpretando o serial killer, Marcelo Costa de Andrade. Um personagem complexo com temas bem pesados. Como foi sua preparação para encarar o personagem? Foi a preparação mais difícil que vivenciei até agora. Tive acesso aos autos do processo contra ele, estudei tudo, pesquisei muito e entrevistei várias pessoas, inclusive psiquiatras que trabalhavam no hospital onde ele continua internado. E vou dizer: encarnar um personagem em que você precisa ser neutro e não julgar, viver o que ele viveu, se comportar como ele se comportava, é complexo e, às vezes, desesperador. Passei várias noites em claro, tive pesadelos, mas no final amei o resultado e, quem sabe, em breve poderei mostrar esse material em solo brasileiro.
A peça aborda a visão distorcida do crime em meio a temas envolvendo abusos, religiosidade, prostituição e análise clínica. O que foi, ou é mais difícil de encarar nisso tudo? A mistura de tudo — entender como o abuso pode ter uma parcela de culpa no desenvolvimento de um ser humano, como a religião, às vezes, pode fazer com que pessoas em um estado de vulnerabilidade como esse tenham interpretações diferentes do que realmente é certo e errado, além da prostituição. Imagine você trabalhar nessa área quando tiver 10 anos de idade? A peça não tem o objetivo de explicar e/ou defender os crimes dele, mas sim de nos fazer refletir sobre alguns pontos como sociedade, usando a história do Marcelo como narrativa.
Já tem previsão de quando estreia no Brasil? Qual sua expectativa? Espero que em breve, vamos ver. Na torcida, gostaria muito de levar ao Brasil.


Haysam, quais suas maiores vaidades (como homem e artista)? Do que não abre mão? Eu diria que minha vaidade é não deixar a peteca cair comigo mesmo. Gosto de estar de boa com quem eu sou — isso vai desde o jeito que me apresento ao mundo até o esforço pra não me perder no caminho. Não ligo tanto pra coisas materiais, claro que eu tenho meus momentos e trabalho bastante para ter uma vida mais confortável, mas confesso que curto um bom visual, nada melhor do que me olhar no espelho e gostar do que vejo. E tem a questão da saúde: eu invisto mesmo nisso.
Cuido do corpo, da cabeça, e sim, tenho minha rotina de produtinhos pra pele — não vivo sem. É menos sobre vaidade pura e mais sobre não me deixar largado. Como artista, o buraco é outro. Minha vaidade está em botar a cara no trabalho, em fazer algo que não seja só mais um na pilha. Quero que o que eu faço carregue um peso, que tenha a minha marca, minhas vivências. Não abro mão de ser autêntico — na atuação, na preparação, na hora de contar uma história. E de fuçar, aprender mais, eu também não largo, sou curioso. Cada oportunidade, cada trabalho, cada perrengue, me empurra pra frente, e eu amo isso!
Onde recarrega as baterias? O que curte para relaxar? Na natureza com um bom livro, em viagens, ou quando posso estar próximo da minha família e dos meus amigos — eles são minha maior fonte de inspiração, principalmente a minha mãe. Não tem nada mais valioso do que estar perto das pessoas que amamos.
Para conquistar Haysam basta… Pergunta difícil. Não sei muito bem como responder, mas acho que se a pessoa for inteligente, engraçada, batalhadora e me inspirar, já é um bom começo. Ah, e gostar de comer, eu como um bom taurino amo comer bem (risos).

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Fotos: Django Sebastian @hullisbeautiful
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