Da época da prancha de surf com tampa de isopor até as maiores ondas do mundo. A trajetória do potiguar Italo Ferreira parece tirada da tela do cinema, mas é pura realidade. Prestes a fazer 27 anos, Italo vive o melhor momento na sua carreira, sendo um dos grandes destaques brasileiros durante o Circuito Mundial de surfe, nas oitavas de final da etapa de Narrabeen, em Sydney, na Austrália. Entre uma onda e outra, conversamos com Italo sobre as ondas na Austrália e Nazaré, a relação com Medina, o “Instituto Italo Ferreira” em Baía Formosa e os planos para o sonhado ouro olímpico em Tóquio.

Italo, quando surgiu essa familiaridade com o mar e a paixão pelo surf? Desde muito pequeno. Sempre estive perto do mar, meu pai é pescador. Então, me sentia muito bem ali naquele ambiente. Via meus primos e amigos surfar e tudo era uma brincadeira que eu levava muito a sério e nem sabia.

Quando olha pra trás e lembra da época em que surfava com tampa de isopor, que recordações e lições guarda dessa época? Eu sempre digo para as pessoas acreditarem na força de seus sonhos. Eu acreditei, batalhei, fui atrás e quando olho pra trás sou grato por tudo que passei, pela trajetória que estou construindo e pela vida.

Uma realidade bem diferente da realidade de hoje, surfando pelo mundo nos maiores campeonatos. Imaginava que você chegaria aonde chegou? Eu sempre sonhei com isso, desde novinho competindo, assistia aos campeonatos e falava que um dia iria estar ali… claro que não imaginava tudo, mas eu acreditei no meu sonho e mais que isso, eu batalhei para realizar o meu maior sonho que era ser campeão mundial.

Resumindo um pouco, como foi sua trajetória saindo do Rio Grande do Norte até rodar o mundo? Caramba, é muita coisa que vivi. E eu sempre volto pra BF (Baia Formosa). Mas vamos lá, vou começar lá em 2002 que foi quando comecei a surfar e enxergar no esporte muitas possibilidades de mudança de vida e de viver do que eu amo fazer, que é surfar e surfar. Em 2012, eu venci duas etapas do Mundial Júnior e foi muito especial, me motivou a ser campeão no ano seguinte na Quiksilver Roxy Pro Jr. Fui vice-campeão no mundial Jr em Portugal, em 2014, e nesse mesmo ano conquistei uma vaga no WCT (World Championship Tour). No ano seguinte, alcancei dois pódios em competições no Brasil e em Portugal, recebi o prêmio de estreante do ano no WCT, uma conquista e tanto. Nos anos seguintes, enfrentei algumas dificuldades com rompimento dos ligamentos do tornozelo direito em 2017, o que me fez perder etapas importantes do campeonato. Já recuperado, em 2018, tive 3 vitórias.

Em 2019, que foi um super ano pra mim, venci o primeiro evento do ano, na Gold Coast australiana. Também conquistei o troféu da abertura do Red Bull Airborne, campeonato de aéreos que rolou na sequência. Nesse mesmo ano, tive vitória em Peniche, Portugal, e finais em Jeffreys Bay, na África do Sul, e Hossegor, na França. Na etapa final, realizei meu maior sonho até aqui que era me tornar campeão mundial.

No ano passado muita coisa parou, o mundo parou com a pandemia, mas graças a Deus que BF foi fechada e pude surfar todos os dias, montei uma academia em casa para intensificar os treinos da musculatura. Depois, aproveitei a temporada de ondas gigantes e fui para Nazaré, em Portugal, onde surfei a maior onda da minha carreira, com mais de 20 metros. Nas Maldivas, consegui um feito inédito, dei um aéreo 540º, e foi demais. Agora estou na Austrália, em Narrabeen, depois de vencer a segunda etapa do CT. Tô em busca do bicampeonato e sonhando muito com o ouro olímpico, sonhando e me preparando para a competição inédita do surf.

Em 2019, aos 25 anos, você foi o grande campeão do WSL, o maior campeonato do Surf mundial, onde venceu a grande final, em Pipeline, no Hawaii. Como foi essa emoção? Se surpreendeu com você mesmo? Não consigo descrever a emoção, foi incrível. Eu sempre sonhei com isso e me dediquei muito para conquistar o troféu de campeão, sou muito grato por isso.

Nos últimos 12 meses, você competiu seis finais consecutivas da WSL e venceu quatro. A que se deve isso? Como você se avalia para ter conquistado essas vitórias? Eu sou apaixonado pelo que faço, sou o primeiro e último a sair do mar, surfar é a minha vida, faço com dedicação e muita paixão, e claro me divertindo sempre.

Você e Medina estão pau a pau no pódio. Como é a relação de vocês? Dentro e fora do mar. É uma relação muito tranquila, de respeito.

Recentemente você venceu a segunda etapa da Austrália. Como está seu foco e dedicação para as próximas etapas? Foi um começo incrível e que me colocou no topo do ranking. Agora estou aqui focado na próxima etapa, depois de Narrabeen onde as coisas não aconteceram como esperava, mas sigo firme.

Às vésperas da conquista do ouro olímpico, em Tóquio. Imaginamos que a expectativa e a cobrança seja grande. Qual sua rotina de preparação? Sim, altíssima, só se fala nisso… vai ser a estreia do surf na competição e não teria como não ter essa expectativa, que até gera um misto de ansiedade e felicidade, sabe? Eu vou dar o meu melhor pra trazer a medalha pro nosso país, estou treinando, me preparando pra isso, vou lá fazer o que eu amo, me divertir e ir atrás da vitória.

Em novembro, você aproveitou a temporada de ondas gigantes e foi para Nazaré, em Portugal, onde surfou a maior onda de sua carreira, com cerca de 20 metros. Numa hora dessa a adrenalina supera o medo. Como você dosa isso? É um pouco dos dois. Vou te falar… mas é uma sensação inexplicável conseguir surfar uma onda dessas. E você está cercada por pessoas ali pra te dar o suporte necessário pra você se sentir seguro, e vai com medo mesmo, (risos).  E eu adoro desafios e pegar ondas diferentes me traz outro olhar para o surf, gosto de testar novos desafios.

Qual e onde foi sua onda inesquecível? Foi em Nazaré, quando surfei a maior onda.

Existe algum lugar no mundo onde você ainda não pegou onda e sonha conhecer? Mentawaii ainda é um sonho de criança.

Entre uma competição e outra, pausa para relaxar. Como é pra você isso? O que se permite? Eu sempre volto pra BF, me reúno com meus amigos e minha família, ali é meu porto seguro, é onde busco a minha conexão e é onde eu recarrego minhas energias me divertindo e, claro, surfando, eu sempre estou surfando… O “Parque do Italo”, meu programa no Off mostra um pouco dessa vibe.

Como é sua rotina de treino e dieta? Muito treino físico, diversão e muito surf.

Italo, muita praia, sol e água salgada. Como cuida de pele e cabelo? Tem algum cuidado específico? Eu sinto que preciso cuidar um pouco mais de mim, acho que me preocupo mais com minha performance na água do que qualquer outra coisa. Mas obrigado por me lembrar (risos).

Com essas viagens e visibilidade o assédio deve aumentar muito. Como costuma lidar com isso? Eu curto muito o carinho das pessoas, as mensagens que recebo, não é assédio, não encaro dessa forma, é uma vibe boa, que me traz energia e me faz muito bem. Existe muito respeito nessa troca com a galera.

O que suas conquistas te levaram a ter que você sempre desejou? Conforto pra minha família, sem dúvidas. Além de poder realizar desejos antigos, como fundar o “Instituto Italo Ferreira” em Baia Formosa, que visa fomentar o esporte – tendo o surfe como pilar -, a sustentabilidade e a prática de atividades extracurriculares ligadas à educação ambiental, direcionadas principalmente às crianças, jovens e adolescentes em estado de vulnerabilidade. É a realização de um sonho.

O que o mar representa para você? Minha vida. Meu lugar no mundo. 

Foto Sergio Bochart (@sergio_bochart)

Styling GabrielFernandes & JuliaMoraes (@gajustyling)

Make Otavio Henrique (@euotavioh)

Produção executiva Evva Comunicação (@evvacomunicacao)