Como bem sabemos, essa pandemia que já dura longos meses tem afetado as pessoas de diversas formas. E uma delas é bem visível, a obesidade. Mais tempo em casa, mais sedentarismo e falta de limites na hora de se alimentar e consumir álcool. E se pararmos para pensar, a obesidade é uma doença séria, e mata muita gente. É preciso ter cuidado e não entrar nessa ideia de que existe algo milagroso que vá resolver. O que resolve mesmo é uma dieta bem equilibrada, mudanças no estilo de vida e, claro, uma boa ajuda profissional que vai ser sempre uma ótima saída.

Mas hoje vamos falar de questões hormonais relacionadas à obesidade, mais especificamente sobre a testosterona. Primeiro, é importante pararmos de relacionar a testosterona apenas com questões ligadas à parte sexual e à massa muscular. Ela influencia sim nesses aspectos, mas é um hormônio essencial para uma série de outros pontos da nossa saúde, interferindo na nossa disposição, humor, capacidade cognitiva, densidade óssea e bem-estar. A gente sabe que os níveis hormonais tendem a se reduzir com o passar dos anos, com o processo de envelhecimento, e com a testosterona não é diferente. E tem mais… temos visto essa queda ocorrer cada vez mais cedo, já a partir dos 30-35 anos em alguns casos, muito provavelmente devido à tanta ansiedade, estresse, ao nosso comportamento atual mesmo.

QUESTÃO HORMONAL

A gente sabe que a obesidade impacta negativamente na qualidade de vida e facilita o aparecimento de comorbidades como aterosclerose, síndrome metabólica e diabetes tipo 2, mas é muito comum observar desequilíbrios hormonais na obesidade também. Através de alguns mecanismos fisiopatológicos em comum, é frequente aparecer nos homens obesos o que se chama de hipogonadismo secundário. Traduzindo – seria uma deficiência na produção do hormônio testosterona, decorrente da obesidade.

Existe um ciclo metabólico quase vicioso que envolve a baixa produção de testosterona pelas células de Leydig (que fica nos testículos), o aumento na gordura visceral e seus produtos inflamatórios tóxicos, a alteração no sono, a resistência à insulina, queda da leptina e o descontrole do eixo hipófise-hipotálamo – que controla a produção hormonal a nível central.

Hoje já se sabe que não se trata de uma simples coincidência, e detectar essas deficiências hormonais nas pessoas com obesidade e sobrepeso passou a ser importante. Inclusive, são frequentes as queixas relacionadas à queda da testosterona – da qual já falamos aqui que não são apenas relacionadas à massa muscular e à libido.

Um estudo da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na Bahia, observou também essa relação. Reunindo 3,5 mil pacientes do sexo masculino, entre 45-64 anos foi relatado que a obesidade esteve fortemente associada à queda dos níveis de testosterona, e o pior, em qualquer faixa etária estudada. O estudo sugere que homens obesos, com cintura abdominal maior que 110 cm, têm cinco vezes mais chance de ter essa deficiência de testosterona do que homens magros, com percentual de gordura e medida da cintura abdominal preservados.

A célula de gordura, sobretudo aquela encontrada na gordura abdominal em excesso, funciona em parte como se fosse uma glândula. Ela estimula a conversão periférica de testosterona em estrogênio. Além disso, termina influenciando também no funcionamento da própria glândula hipófise, que participa da coordenação de produção hormonal no nosso corpo.

A OBESIDADE EM QUALQUER IDADE

Isso acontece com adolescentes e adultos jovens também. Afinal de contas, a obesidade atualmente não tem poupado faixa etária, basta a gente observar como andam os números da obesidade infantil. Imaginem que isso termina virando meio que uma bola de neve. Aparece o sobrepeso, excesso de gordura abdominal, conversão periférica e consequente queda de testosterona… com essa queda aparecem as queixas clínicas da deficiência hormonal, como por exemplo fadiga, indisposição, ansiedade, variabilidade de humor… isso vai gerando mudanças para pior no estilo de vida, que terminam favorecendo mais acúmulo de gordura e obesidade, e se não estivermos atentos e tentarmos alguma abordagem de tratamento dessa obesidade, isso tende a se perpetuar, esse ciclo vicioso, como se houvesse um looping no processo.

É bom chamar atenção sobre a questão hormonal, a deficiência, sobretudo de testosterona nos homens com obesidade. Isso precisa ser encarado como mais um dos problemas causados pela doença da obesidade. Essa alteração em relação à testosterona parece ser menos significativa nas mulheres com sobrepeso e obesidade, mas a gente sabe que, de alguma forma, também acontece. Até mesmo porque o desequilíbrio não se restringe apenas à testosterona. Os hormônios do nosso corpo costumam trabalhar em equilíbrio, em sinergia. A desorganização de um vai levando, mesmo que lentamente, à desorganização de outros. Termina mexendo em todo o sistema.

O QUE FAZER, POR ONDE TENTAR RESOLVER?

Como sempre, o ideal é abordar a causa e não apenas os sinais e sintomas das doenças. Precisa é tratar essa obesidade. Fazer exames, avaliar a questão metabólica e urgentemente mudar o que for preciso em relação ao estilo de vida, exercícios, sono e, principalmente, a questão alimentar. Buscar mesmo uma equipe multidisciplinar para ajudar nesse processo de entendimento e mudança.

Quanto à parte do distúrbio hormonal, cada caso deve ser avaliado individualmente. Antes, se achava que tratando a obesidade essa questão hormonal se resolveria de forma tranquila, mas na prática não é bem assim e os estudos recentes mostram que esse hipogonadismo precisa de abordagem terapêutica. Tratar a obesidade e não tentar interferir de alguma forma direta nos níveis de testosterona, parece não ser o caminho ideal. Claro que essa abordagem deve ser decidida por um médico que acompanhe o paciente e sempre, avaliando a situação de forma muito individual. O tratamento pode ser iniciar alguma terapia de reposição hormonal, mas existem linhas que defendem estímulo da produção endógena de testosterona, lá nos testículos.

Para finalizar, lembrar mais uma vez que obesidade é uma doença, que precisa de tratamento, assim como suas consequências precisam ser abordadas, e que não se trata de uma questão estética. A estética vai ser um benefício extra do tratamento da obesidade. O que não pode é continuarmos a achar que o tratamento da obesidade pode esperar.