Que o mar é o solo da alma portuguesa não é novidade. Desde as aventuras e desventuras marítimas narradas por Camões, até ao atravessar do oceano cantado no álbum “Guia” de António Zambujo, passando por Fernando Pessoa e seu mar salgado, ou pelo próprio hino nacional português que exalta os heróis navegantes, a imensidão salgada é provavelmente o maior elo que fez e faz ponte entre Portugal e o mundo. E entre o mundo e Portugal, como no recente álbum de Zeca Baleiro, Canções d’Além-mar, em que interpreta obras de variados artistas portugueses, numa recriação poética e musical rica e plural, como é Zeca, como é o Brasil, como é Portugal, e como somos todos.

Foi sobrevoando este imenso mar que cheguei a Portugal, já há alguns bons anos, trazido pela língua que temos em comum. Idioma este que, apesar de suas diversidades, une-nos num sentimento que Pessoa chamou de pátria. E se a pátria de Pessoa e seus heterônimos é a língua portuguesa, a minha apresentou-se no plural – o meu chão são as línguas portuguesas, sejam elas da Europa, da África, da Ásia ou do meu solo americano tão vermelho-brasa, que queima no peito e explode na boca, em palavras como Saudade, com S maiúsculo. O mesmo S de sal. O mesmo S de sim!

Mudar-me para Portugal, minha morada presente, fez-me descobrir mais quem eu sou –  tanto pelo reconhecimento da voz de minha avó paterna na pronúncia de algumas palavras, ou pelo vocabulário ainda usado por alguns tios mais velhos deste meu lado da família, quanto pela oposição em relação à minha família materna, com seus olhos nativos ou suas bocas negras, tão parecidos aos retratados por Jean Baptiste Debret. Após comentar sobre a minha primeira ida a Lisboa, há anos, com meu professor de Literatura Portuguesa Contemporânea na Universidade de Évora, e expressar o sentimento de parecer revisitar o que nunca havia visitado, ele perguntou se poderia resumir a minha sensação àquela da visita a uma tia distante, da qual tanto já se ouviu falar, faz parte do seu sangue, mas só agora era possível tocar, ver, sentir presencialmente. Ele estava certo, Portugal é-me um tio distante, do qual agora mais me aproximo, e tento continuar a mesclar com meus olhos de Pindorama e meu coração que bate em ritmo de tambor africano – através da língua portuguesa como canoa, desembarquei profundamente dentro de mim mesmo.  

*Alexandre Rodrigues Sobrinho é escritor, pesquisador e doutorando em Literatura Contemporânea na Universidade de Évora. @alex.rod.s