Uma das maiores características de Jéssica Ellen que você vai perceber ao longo desta entrevista é sua força, garra e claro, talento. Como a própria fala aqui, ela veio do morro da Rocinha, onde morou e estudou em escola pública, se dedicou à sua arte e com garra agarrou suas oportunidades e criou outras tantas. Não são só suas personagens Rita, Lucélia e Camila que trazem no sangue essa força e o desejo de mudar o que está errado. Jéssica é isso na vida real. Foi também com talento que ela chegou onde chegou, seja atuando ou cantando, Jéssica quer impactar, causar reflexões e provocar o espectador através da sua arte. E é justamente isso que ela traz nesta entrevista que nos encanta mais ainda.

Jéssica, você estreou na TV em Malhação, em 2012, com a personagem Rita. Mas parece que foi a partir de Rose, sua personagem na série Justiça, que sua carreira tomou um outro gás, te elevou a um outro patamar. Você realmente marcava sua carreira com aquela personagem que antes de tudo falava de racismo e preconceito social. Para você foi um divisor de águas? Que impacto a Rose teve em sua carreira? Todos os personagens são especiais e me fazem crescer, a me aprofundar em meu trabalho. Mas, Acredito que sim, Rose foi uma virada na carreira, pois tive a chance de apresentar uma construção maior, uma vez que tinha mais cenas e era mais exigida como atriz. Eu tinha 23 anos e foi um grande desafio encarar minha primeira protagonista, tão novinha.

Desde então você tem encarado personagens fortes, que trazem à tona discursos marcantes, políticos e sociais. Como isso tem impactado você como artista e cidadã? Acho muito bonito quando um personagem levanta reflexões pra toda a sociedade e pode impactar na vida das pessoas. Acho que essa é a função da arte – impactar, causar reflexões, provocar o espectador.

Em 2017 e 2019 você fez Filhos da Pátria que era uma clara critica político-social, um retrato do Brasil. Conseguiu através da personagem Lucélia dizer algumas verdades que o público precisava ouvir? Lucélia foi um personagem delicioso de fazer. Gostava da ousadia dela e da sua altivez. Me Divertia dando vida àquela personagem. E os temas abordados eram e continuam sendo pertinentes no Brasil, né? Infelizmente e impressionante, mas é tudo muito atual.

Vindo para o trabalho mais recente, Camila dos Santos, a filha adotiva de Dona Lurdes em Amor de Mãe. Nesse trabalho teve de tudo um pouco, de discurso sobre escolas públicas, adoção, racismo e preconceito social. Um prato cheio para um ator. Conta como isso tudo te tocou. O que ficou de Camila em você e o quanto de Jéssica você deu pra ela? Sempre que termina um trabalho, eu me despeço do personagem. Acredito que não tenha ficado nada dela em mim. Camila tem uma história muito diferente da minha. O que achava mais bonito na personagem era a pluralidade que ela apresentava e vivenciava. Tinha sua relação com os alunos, era diferente com a família, e também distinta com seu parceiro de vida. E ainda tinha tempo de ir na roda de samba com as amigas. (risos) A Camila era um “personagem – real”, acredito que essa característica dela foi responsável para a identificação tão grande do público.

Percebemos ao longo de sua carreira, com personagens fortes, que você foi ficando cada vez mais engajada em questões sociais. Acha que sim, é preciso usar sua visibilidade para dar voz as essas questões? Eu sou uma pessoa ligada às questões sociais muito antes de ser atriz e trabalhar na TV Globo. Fiz muitos cursos gratuitos na adolescência, fui aluna de diversas ONGS que se preocupavam com a inclusão de jovens no mercado de trabalho. Sou cria da Rocinha, estudei a vida toda em Escola pública… então tudo isso já faz parte da minha trajetória, da minha vida. Artista com visibilidade, só ampliou esse lado já existente em mim.

Você já declarou que no início da sua carreira questionavam sua capacidade como artista. Quais foram as barreiras iniciais e como lidou com isso? Os “não” são muitos, né? Todo início de carreira é assim…mas, isso, de certa forma, foi meu combustível pra não desistir. Gosto muito de desafios. E toda vez que sou subestimada, dou o meu melhor pra dar a volta por cima e provar justamente o contrário.

Falar em preconceito racial é algo cada vez mais necessário e primordial para  que as pessoas comecem a mudar. Como isso já te tocou e qual é sua luta? vou pedir uma licença aqui para fazer a mesma pergunta no singular, mas para todos que leem essa entrevista. Qual sua luta? Qual a sua parcela na luta contra o racismo? O que você tem feito para ser antirracista? Sabe porque devolvi com uma pergunta? Porque as pessoas precisam começar a se questionar, principalmente, as pessoas que não são negras. Afinal, nós somos os que sofrem com o racismo, as vítimas desse crime. E também porque a sociedade é feita por muitas pessoas e de diversas cores, não é mesmo? Não é uma parcela da população que tem que se responsabilizar por isso. A construção tem que ser coletiva.

Momento de pandemia e isolamento social, momento de aprendizado e reflexão também. Como foi ou tem sido isso para você? A pandemia tem sido, pois infelizmente não acabou, um tempo de crescimento e amadurecimento. Mas, especialmente, tem sido um tempo de reafirmar a importância do coletivo.

Você imaginava que as pessoas iriam, de certa forma, mudar ou evoluir com o passar dessa pandemia mundial? Infelizmente, e apesar de muitas pessoas agirem como negacionistas, como se não houvesse um vírus matando quase 2000 pessoas por dia, estamos na pandemia, né? Cada pessoa está lidando de um jeito. Sem dúvidas, falaremos muito sobre isso ainda e o impacto que essa pandemia causou em todos nós.

A música foi, de certa forma, um refúgio no meio disso tudo? A Música é uma das manifestações artísticas mais potentes dentro da arte. Acho lindo a maneira como a música atravessa as pessoas. Pude fazer algumas lives musicais, lancei um álbum, cantei na TV homenageando um dos maiores nomes da MPB, recentemente cantei num prêmio sobre igualdade racial, então sim. Foi um desses refúgios.

Como ela (a música) chegou até você e como ela te completa como artista? Difícil tentar lembrar “o momento”, sabia? A música faz parte da minha vida desde criança. A música está no nosso cotidiano sempre… Arrumando casa, fazendo comida, malhando, estudando, indo e voltando do trabalho e em alguns casos, como no meu, também no trabalho (risos). Ela faz parte de quem eu sou.

Ser ativa nas redes sociais. O quanto isso é relevante para você? Como selecionar o que é para o feed e o que é para poucos? Uso as redes sociais como extensão de meu trabalho. Meu trabalho é público, está lá, exposto. Também é uma ferramenta pra mostrar novos talentos, para protestar contra o que está errado… O que eu julgo ser mais íntimo, se mantém na esfera da intimidade.

Em suas postagens você geralmente inclui algum textos que provocam reflexões. Como é o feedback dos seguidores sobre estas questões levantadas?  Gosto muito também de interagir com o público, fazer aquelas enquetes, caixinhas de perguntas… dá pra ser divertido também! Meu Instagram é muito diverso, tem de tudo um pouco. Tem gente que se identifica, outros não. Eu tenho um público bem diverso.

De tranças, morena, agora loira… Como a vaidade te toca? Como lida com o espelho? Eu gosto muito de mudar de cabelo. Já usei ele loiro, natural, mais curto, maior, de lace, de trança. Pra mim, o cabelo é acessório (risos). Mudar de cabelo é uma grande brincadeira e eu me divirto!

Seu sorriso já virou marca registrada. O que te coloca um sorriso no rosto e te tira o humor? Acordar, respirar, olhar o sol, estar em contato com a natureza, trabalhar com o que eu gosto, estar com a minha família, com meus amigos, tudo isso me traz o sorriso no rosto!

Na hora de relaxar, o que faz sua cabeça? Onde recarrega as energias? Meditar, descansar, fazer massagens! (Eu AMO massagem) desacelerar! O trabalho é sempre muito corrido, então, aprender a desacelerar é essencial!

Para encerrar… Para agradar Jéssica basta… Pra me agradar é muito simples, sabia? Tem que ter honestidade e bom humor!

Foto / Vídeo @guilhermelima / Assist. Foto @leticia_lavatori / Edit. Vídeo @cervofilmes / Makeup @lurechmakeup / Assist @sambajuliama / Hair @_suelenpaiva  @brunodantte / Edição de Moda @aledupratoficial / Prod moda @kadununnes07 / Assessoria @trigopress / Locação @hiltoncopacabana

Jéssica veste: assessórios acervo pessoal, bota Morena Rosa, macacão Oh, Boy, tênis Ellus, vestido INTI, sandália Schutz, scarpin Vizzano