O sonho da pequena Cinnara Leal aos 5 anos era ser bailarina quando crescesse. Mas a vida tinha reservado outros caminhos para Cinnara. O tempo passou, e por ele muita ralação até a conquista de seu lugar ao sol. Hoje Cinnara tem nas mãos um importante papel na novela “Nos Tempos do Imperador”, a Justina. Personagem forte, que traz a garra e luta dos negros da época do império para os dias de hoje. Pronta para encarar qualquer desafio, Cinnara vem investindo no futuro, deixando seu legado e transformando realidades através da sua arte.

Cinnara, que baita papel esse de Justina heim?! Forte e emocionante. Como tem te tocado? Na sinopse era: “Justina confidente da condessa de Barral”. Eu sabia que era muito mais. Que era minha missão honrar meu povo. Construí cada detalhe. Tudo. Abri a minha vida, meu corpo, minha alma para ela nascer, renascer por que a Justina é a história que a história não conta. 

Como surgiu o convite e como foi sua preparação até chegar no tom certo? Eu pedi para fazer o teste, fiz e passei. Eu li muitos autores negros, fiz 4 vezes o tour da pequena África, o percurso dos escravizados no centro do Rio de Janeiro. Fiz o curso de filosofia africana com a Aza Njeri e Katiuscia Ribeiro, nesse curso conheci os Adinkras. Que são ideogramas, símbolos que trazem mensagem, representam conceitos e cada um tem um significado. E levei para Justina um colar que mandei fazer com o Adinkra Sankofa que é representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás, que significa retornar ao passado para resignificar e construir um novo futuro. E junto com a expressão que a Rosane Borges usa “descolonização do olhar”. Sabia que Justina seria um mergulho em mim e para além de mim, que era mais que um personagem, era uma missão. 

Você e Justina têm algo em comum? O que emprestou de seu para ela e o que pegou dela para você? Ela me ensina o tempo todo e vai ensinar a todos. Sou só um veículo para dar voz a minha ancestralidade que foram silenciadas, apagadas e as sequelas que vivemos até hoje dessa desumanização que é a escravidão. Ou seja, temos tudo em comum. Não só eu, mas todo o Brasil. Porque essa é a história do nosso país. O que tentei deixar vivo e latente na Justina é o reconhecimento, onde todos que olhassem pra ela tivessem a sensação, a certeza que já conheceu ou conhece uma Justina. Uma personagem que resiste para existir, a temporal que vive em nós. 

Como foi começar a gravar, parar por conta da pandemia e retomar as gravações meses depois? Como foi reencarnar a Justina tempos depois? Foi muito difícil. Não tem como estar bem quando o mundo vai mal. Muito desafiador mas todo o tempo eu me dediquei a ela. Então, estudei mais, pesquisei mais ainda, para trazer mais para ela além de manter vivo o que já tinha construído.

Alias, como foi (e está sendo) passar por esta pandemia? O que tem observado? Acha que iremos aprender algo com tudo isso? Ou não? Estamos todos aqui para aprender e passar por uma pandemia é um chamado para o quanto temos, e precisamos aprender em relação ao tempo e principalmente a sermos coletivo. “Eu sou porque nós somos” uma expressão da filosofia Ubuntu fala isso, você não é nem está sozinho. 

Voltando a “Nos Tempos do Imperador”, a novela debate temas sérios e bem atuais como o racismo, corrupção, política e saúde pública. Como você enxerga isso? São temas urgentes que precisam ser abordados enquanto estivermos vivos e quando possível abordar com mais profundidade sim. A novela tem a função de entreter mas principalmente informar, alertar, conscientizar e sim transformar. Por isso a extrema importância da arte nos questionar como sociedade, mostrar o quanto resistimos pra chegarmos até aqui e o quanto reproduzimos modelos antigos de desvalorização e exclusão do negro. É sobre conscientizar para transformar. Estamos contando histórias. História pode derrubar mas também pode, também reerguer.

É triste observar que de uma forma velada o racismo ainda existe e que o brasileiro ainda é muito racista. Você vê melhoras? Mudanças de pensamento? Como vamos combater isso? O que vejo e sinto é que cada vez mais tomamos consciência e valor de quem somos, digo isso porque não nascemos negros, nos tornamos negros. Isso sim já mudou e será a partir de nós para além de nós. O racismo é estrutural. Racismo estrutural é o termo usado para reforçar o fato de que existem sociedades estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das outras. Vivemos as sequelas que um país colonizado, escravocrata que está entranhado no brasileiro. O racismo é a manutenção do poder, do privilégio. Ele opera como elemento de manutenção desses privilégios e do poder de uma determinada raça. A falta de política de inserção dos negros em todos os aspectos, social, cultura e econômico se mantém até hoje. A mudança é um processo e a luta é constante. E ela não é só minha, é nossa. 

Hoje a mulher negra está assumindo mais suas raízes, valoriza o cabelo crespo, tem orgulho da sua cor. Acredita que isso é um diferencial nessa mudança de mentalidade e também uma forma de combater o racismo? Sim, muito. Nossa identidade nos foi tirada, inviabilizada, apagada e quando fazem isso é por que sabem o poder que é se olhar e se reconhecer. É pertencer, é ter um chão com história, ter raiz que te dá força, que te constitui como ser humano.

Você é uma mulher bonita, charmosa e muuuuito talentosa. Aos olhos do público isso é o que deve ser importante e falado. Na sua trajetória de atriz até aqui, sente este reconhecimento? Muito obrigada. Sinto sim. Li o livro da Michelle Obama que fala do orgulho e valor que temos ter da nossa jornada, eu sinto muito orgulho do que estou construindo a base de muita luta, persistência, amor, e claro, apoio da minha família. E o público é muito inteligente. Ele reconhece e sente. Receber esse amor que dou é uma resposta linda e que me alimenta a continuar. Por isso muito obrigada a todos. 

Falando em trajetória, conta um pouco como tudo começou. Soubemos que tudo começou por conta do ballet… Sim amo a dança. Fui criada no Conjunto Habitacional da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro e quando tinha 5 anos pedi para minha mãe para ser bailarina, ela me levou até a escola de dança do Teatro Municipal, pois era e é a única escola de dança pública do Rio de Janeiro. Lá fiz o teste e ouvi que não tinha passado porque não tinha biotipo, eu não sabia nem o que era biotipo. A criança de apenas 5 anos saiu de lá chorando e querendo a mesma coisa que a levou ali, realizar o seu sonho, ser bailarina. Minha mãe criando 3 filhos sozinha (realidade de muitas mulheres brasileiras) sem condições financeiras para pagar uma escola de dança particular então pediu a escola que tinha próximo da nossa casa – Escola de Dança Valéria Moreira – uma bolsa de estudo para mim e esse SIM mudou minha vida.

O teatro entrou na minha vida quando fui morar na zona sul do Rio, aonde tive mais acesso à cultura, infelizmente ainda é assim até hoje. Era meu sonho ser bailarina, fiz alguns testes para o Balé do Faustão mas não passei! Depois das investidas e negativas, eu encontrei na atuação uma nova paixão. E lá fui me especializar. Para pagar a faculdade de teatro, trabalhei distribuindo panfletos em eventos. Também prestei serviço a um bufê que a dona me humilhou dizendo que eu não ia chegar a lugar nenhum por ter dado um bolinho da empresa para uma pessoa da limpeza. Eu servi café em uma comemoração de aniversário da Rede Globo e falei que só voltava lá para realizar o meu sonho. E hoje estou como atriz, com a Justina no vídeo comemoração de 70 anos de novelas da mesma Rede Globo. Nossa, um caminho persistente de muita resiliência.

Um marco na sua carreira foi o filme “Cidade dos Homens”. Como foi isso para você? Eu li no jornal na época que estava tendo teste, estava no começo da faculdade, liguei para o jornal, consegui o telefone da produtora, peguei o endereço e fui até lá pedir para fazer o teste, fiz o teste na hora mesmo (era uma improvisação) e a noite me ligaram chamando para o trabalho. Meu primeiro trabalho como atriz. Marcou minha vida.

O quanto Zezé Motta e Glória Pires te inspiram? “Sou Zezé, sou Leci, Mercedes Baptista, Ednanci Aída, Ciata, Quelé, Mãe Beata e Aracy. Pele preta nessa terra é bandeira de guerra porque eu vi. Se é Conceição ou Dandara pra matar preconceito, eu renasci.” Essa música da querida Marina Iris diz o tanto de referências e inspiração que nós temos. Mas foi vendo Zezé e Glória Pires que sentia vontade de atuar, como se eu já soubesse fazer aquilo. Isso que é inspirar, ascender à luz do outro e dizer para ele “sim você também pode”.

Onde recarrega suas energias? Na minha família e na minha religião de matriz africana. 

Falando de futuro… Quais os próximos passos que pode compartilhar conosco? O que vem por aí? Um lindo filme, uma série e o nascimento da minha produtora sócio cultural onde todos os projetos culturais serão realizados a base de oficinais para moradores de comunidades e favelas por onde os projetos passarem. Ou seja, investindo no futuro, deixando legado e transformando realidades.

Foto Giselle Dias (@gigdias)

Stylist Paulo Zelenka (@paulozelenka)

Make e cabelo Tito Vidal (@tittovidal)