ESTRELA: KÊNIA BÁRBARAENTRE SENSIBILIDADE E INTENSIDADE

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Com uma trajetória construída entre o teatro, a televisão, o cinema, os musicais e as plataformas de streaming, Kênia Bárbara vive um dos momentos mais expressivos de sua carreira. Dona de personagens marcantes e de uma atuação pautada pela intensidade e sensibilidade, a atriz tem conquistado espaço em grandes produções ao dar vida a mulheres fortes, complexas e profundamente humanas. Nesta entrevista à MENSCH, Kênia fala sobre sua formação artística e acadêmica, relembra os desafios enfrentados até o reconhecimento nacional, analisa a construção de personagens como Joana, de Os Outros, e Haydée, de Êta Mundo Melhor!, além de refletir sobre representatividade, arte e os novos desafios que impulsionam sua carreira. Uma conversa franca com uma artista que faz da autenticidade sua maior marca.

Você começou no teatro aos oito anos e construiu uma trajetória consistente até chegar aos grandes projetos da televisão e do streaming. Quando olha para esse caminho, quais momentos considera decisivos para a atriz que é hoje? Acredito que os momentos mais decisivos são os que fazem a gente cogitar desistir. Os muitos “nãos” ou a falta de convites e testes que fazem a gente questionar nossa própria capacidade, talento, dedicação, suficiência, anos de estudos… Mas, passar por todas as dificuldades, sem romantizá-las, me ensinou muito e só confirma que eu estava e estou no caminho certo. Nem tudo depende só de mim.

Sua formação passa tanto pela atuação quanto pela Psicologia. De que maneira o conhecimento sobre o comportamento humano influencia a construção das suas personagens? A observação do comportamento humano, que também é uma habilidade e técnica muito usada por nós, atrizes e atores, contribui fundamentalmente na construção da personagem. E a prática analítica, os conhecimentos sobre a psique humana que adquiri durante os anos de faculdade ajudam muito para uma pesquisa mais profunda na hora de criar e complexificar a personagem.

Em Os Outros, Joana conquistou espaço a ponto de se tornar protagonista. Como foi acompanhar a evolução dessa personagem e o que ela ainda tem para revelar ao público? Foi lindo acompanhar o amadurecimento de Joana, uma mulher que cansou do silêncio, do abuso, da tensão o tempo todo, da vida em risco, das ameaças, das violências, do medo e passou a se escolher. Acho que ela ainda revela o quanto ela é resiliente e nem sabia.

Depois de interpretar personagens tão intensas como Joana e Lucília, o que mais desperta seu interesse na hora de aceitar um novo papel: o desafio emocional, a relevância da história ou a possibilidade de se reinventar? As 3 opções. Estou gravando a série “DH – DELEGACIA DE HOMICÍDIOS”, da Disney+ com a AfroReggae e dando vida a uma perita criminal, Tatiana Menescal. É um universo completamente distante da minha realidade e tem sido absolutamente instigante conhecer e me aprofundar no trabalho da Polícia Civil.

Em Êta Mundo Melhor!, você chega ao universo de uma novela muito querida pelo público. O que pode adiantar sobre Haydée e como foi entrar em uma produção com uma base de fãs tão consolidada? Haydée já mostrou que tem muita inteligência, honra e bom caráter. Que não é de abaixar a cabeça, pelo contrário, ela está sempre com ela bem erguida, é uma personagem muito digna, de uma postura admirável. Vejo a Haydée como um exemplo de mulher que se defende sem medo, mesmo tendo pessoas ao seu lado e aceitando a ajuda delas, ela não espera pelo outro.

“Êta Mundo Bom” foi uma novela muito querida pelo público. Cheia de personagens carismáticos, com uma história leve, otimista, com humor, que conquistou a audiência. E com “Êta Mundo Melhor” não seria diferente. Tínhamos a fórmula perfeita: texto, direção, personagens, atores e atrizes excelentes e muito amor, dedicação e respeito por esse legado.

Essa novela representa tanta coisa. Minha primeira novela com Walcyr Carrasco e Mauro Wilson e com a Amora Mautner. Uma personagem linda, cheia de camadas, à frente do seu tempo e contou uma história tão forte, com tanta profundidade. Haydée é, sem dúvida, um ganho pessoal e profissional pra mim. Aprendi muito com ela sobre autoestima, sobre se manter fiel a sua própria verdade e suas convicções, sobre não desistir, sobre não deixar que os outros digam por você, sobre ter orgulho da própria história, sobre saber se defender, sobre elegância, inteligência, honra e bom caráter. Foi um trabalho que me transformou por dentro.

Sua carreira transita com naturalidade entre teatro, cinema, televisão, streaming e musicais. O que cada linguagem desperta em você como artista e quais desafios elas exigem? O teatro é a minha base, o meu berço, a casa para onde eu sempre volto e pra sempre vou voltar. Mas me vejo privilegiada de poder atuar em todas essas linguagens. Todas elas despertam a paixão pelo meu ofício e todas elas exigem muito estudo e dedicação.

Além da atuação, você também é cantora, compositora, fotógrafa e poeta. Como essas diferentes formas de expressão dialogam entre si e enriquecem seu trabalho como atriz? É o meu repertório. Meu repertório de vida, de processos, de curiosidade, de descobertas, de pensamentos, medos, angústias, alegrias, dúvidas… A vontade de expressar naturalmente, seja por qual via ou sentido o que está aqui dentro querendo sair, escolher. Tudo influencia na criatividade para meu trabalho como atriz.

Antes do reconhecimento nacional, você conciliou a carreira artística com trabalhos como vendedora e animadora de festas. O que esse período ensinou sobre persistência e valorização das oportunidades? Ensinou muito sobre vaidade, dignidade e responsabilidade. Um antigo professor de TV já debochou em sala de aula de alunos que estavam trabalhando como vendedores de loja para se bancarem e conseguirem pagar o curso, que era bem caro, como se aquilo fosse humilhante e como se todos tivessem as mesmas 24 horas e privilégios para se dedicarem apenas a estudar teatro. Bem, eu não faço parte dessa bolha e sou bem feliz por isso, por ter experiências que não me fazem olhar só de um ponto de vista ou só para o meu umbigo.

Você faz questão de falar abertamente sobre temas ligados à sua identidade, espiritualidade e diversidade. Qual a importância da representatividade e da autenticidade na sua trajetória artística e pessoal? É uma forma de me afirmar e nos afirmar coletivamente. Mostrando a nossa verdade sem disfarces. A arte tem o poder de ampliar perspectivas e criar identificação. E depois de tantos avanços, que não são necessariamente suficientes, não vou abrir mão daquilo que sou para caber em expectativas vindas de quem não se importa com a nossa existência, nossa subjetividade, ancestralidade, nossa humanidade. Não tenho e não temos que nos esconder para sermos aceitos.

Vivendo uma fase de grande projeção, com novos trabalhos na TV e no streaming, quais são os próximos desafios que você ainda sonha em realizar e como imagina os próximos capítulos da sua carreira? Quero muito protagonizar uma novela. Me imagino voando bem alto e sendo muito feliz e realizada na minha profissão.

Fotos @marciofariasfoto

Styling @moraesde

Beleza @tittovidal