Com a pandemia, muitos de nós tivemos que nos adaptar, mudar nossa maneira de trabalhar e entre tantos profissionais, muitos fotógrafos também tiveram que lidar com o período de quarentena de um jeito diferente em 2020. Desde que o isolamento começou, nossas vidas mudaram. Nossa rotina, nossos hábitos e nossas prioridades nunca mais foram as mesmas. A distância virou regra. Agora imagine para os fotógrafos que sempre tiveram por necessidade do seu ofício, um contato frequente com as pessoas, seja o/a modelo ou a equipe? A arte sempre foi de resistência e eles seguiram resistindo a esse isolamento necessário sem perder a sensibilidade do olhar, aproveitando tudo o que a tecnologia e a vontade de inovar podem trazer –  a liberdade de poder criar, além dos limites. Sair do lugar comum e se desconstruir a modelo a ser fotografada, por exemplo, foi o que pudemos conferir no projeto “Ô, lá em casa!”, do fotógrafo pernambucano Carlos Cajueiro. Para ele, um desafio novo que ele não sabia até então, qual seria o resultado. Resultado –esse é o trabalho que você aqui confere, nessa seleção, das fotos feitas na casa deste fotógrafo de forma bem descontraída, mas não menos inspirada e inspiradora.

Como surgiu a ideia do projeto “Ô lá em casa!”? A ideia surgiu pelo fato de eu estar parado em casa em plena pandemia. Tinha acabado de voltar de uma viagem de moto para a Argentina, e estava sem poder fazer nada por estar nesse período de isolamento, sem trabalho, sem nada. Parado mesmo, mas ao mesmo tempo, vendo vários fotografando com iPad, remotamente. Foi bem complicado entender esse processo novo. E uma das coisas que eu mais amo, ao fotografar, é a parte de direção, e principalmente, direção de luz. Então, é muito complicado você produzir uma foto remota da forma que eu estou acostumado a fazer. Foi quando André, editor da MENSCH, sugeriu que que eu fizesse algo, tipo “Ei, inventa alguma coisa, te vira!”. E isso me deu esse gás, aí pensei no “Ô lá em casa!”. No período em que eu estava só em casa, passei a receber pessoas com as medidas protetivas, de álcool em gel, máscaras e tal, não ter muito contato com as pessoas. Teve esse cuidado todo aí. O primeiro passo foi esse – a ajuda de um amigo que disse que eu precisava fazer algo nesse período, precisava me mostrar. Afinal, quem não é visto não é lembrado. Dormi com isso na cabeça e acordei com o “Ô lá em casa!”. Daí, comecei a fazer o convite para as pessoas a serem fotografadas e foi muito bacana o resultado.

Como foi acontecendo a seleção das modelos? E como foi a aceitação? Foi bem simples e prático – eu usei o Instagram para fazer esse “recrutamento” e foi muito rápido. Teve pessoas que eu nem tive como receber porque tinham datas específicas, horários – por dia, eu só recebia no máximo duas pessoas, até porque eu tinha que fazer a higienização da casa quando essa pessoa saía. No início foi para homens e mulheres, comecei fazendo o projeto com um grande amigo meu, Ricardinho Bacelar, mas depois não teve continuidade porque é muito difícil – o homem é muito mais travado que a mulher, principalmente aqui no nordeste. Como consequência, não consegui ter aceitação masculina nesse projeto. Então, o projeto “Ô lá em casa!” teve 99% de mulheres. A ideia não era ser só modelos, era ter mulheres “normais”. Mas claro, por eu ter contato com modelos, isso resultou que a maioria fosse de mulheres, digamos 80%. Muitas não puderam participar por conta de agenda mesmo, mas a aceitação foi muito bacana e teve muita gente especial nesse projeto.

De onde veio a inspiração nesse momento? Eu me inspirei numa história, não adianta só uma beleza, como já dizia Vinícius de Moraes “de que adianta uma mulher bonita, que não tem uma cicatriz para contar história?!”. Todas elas têm histórias engraçadas, uma história sofrida, uma cicatriz…etc. Então, o mais legal disso foi o papo enquanto fotografava. Queira ou não, a pessoa amadurece. Eu amadureci muito com as histórias delas.

Qual a ideia e como era o processo? A ideia era fotografar a pessoa. Ela quem faria tudo praticamente, entendeu? Eu colocava uma iluminação, às vezes eu mudava um pouco de acordo com a posição dela, do que ela queria fazer, do que ela queria mostrar, né?! E foi algo muito livre, e muito bacana. Cada mulher tinha sua forma de agir e sua forma de se mostrar. E eu as fotografava mais ou menos com uns 5m de distância e às vezes, no máximo, 7m. O mais próximo era uns 2m, sempre com fundo preto, dentro de uma sala.

Trabalhar com moda deixou seu olhar mais atento para o lado estético das fotos? De que forma? A estética do projeto foi muito complicada pra mim por eu estar acostumado não só em dirigir a modelo e colocar uma boa fotografia em termos de luz e composição. E a parte da composição, meio que mexeu com minha cabeça, como a ideia acontecia lá em casa, eu tinha que mostrar que era uma casa. Então, eu escolhi um fundo infinito, pequeno, bem restrito, preto, na qual mostrava toda a parafernália ao redor e mostrava um pouco da minha casa. Então você vê que é uma casa, uma coisa desconstruída, você vê que é uma coisa assim meio que não feita de qualquer jeito, proposital. Uma forma que eu nunca faria (risos). Então, foi uma desconstrução realmente ter essas fotos mais distantes, ter essas fotos mais abertas. Tanto é que eu nem consegui me conter. Muitas das fotos eu fiz com um clooser que trouxe uma atmosfera de um estúdio fotográfico top. Na realidade, era uma simples sala da minha casa. Mas essa desconstrução foi boa porque fugiu um pouco da minha rotina. Acho que essa foi uma das coisas mais fortes nesse projeto pra mim. Foi a desconstrução na minha cabeça mesmo, da questão estética. De mostrar reparos, de mostrar fundo rasgado, mostrar piso, mostrar teto, mostrar televisão atrás. Mostra o background de uma casa né? Coisa que talvez eu nunca mostrasse. Então esse foi o grande diferencial do projeto.Alguma particularidade dessas modelos fotografadas? Algo curioso? Várias. Muita coisa bacana. Teve meninas que travaram na hora, outras que nunca tinham sido fotografadas e na hora se soltaram. Fui patrocinado por uma marca de cerveja, Estrada. Então, durante esse tempo pessoas que gostavam tinha cerveja artesanal, tinham paletas Degusta (marca de sorvete pernambucana). Quem não tomava cerveja, tomava paleta, e quem tomava paleta e cerveja. Dependendo do horário eu fazia almoço, fazia janta, por conta dos horários delas. Eu tive mais essa parada de conversar. E assim como todo mundo que fotografa, todas se abriram muito comigo, contaram várias histórias e tal. Isso foi muito bacana. No final, fiquei surpreso pela forma como elas se entregaram para as fotos.