Caminhos espessos, traços que se contorcem entre ângulos retos, milhões de placas em tamanhos variados explodem a cada avanço, sinaleiros piscam em compassos sincronizados que variam entre a fosforescência da tríade colorida, concretos armados tramam formatos ousados e brincam com as possibilidades de atingir o céu, que, por acaso, é visualizado entre frestas e configurações geométricas. Na circularidade visual os luminosos gritam, chamando a atenção. O chão desgastado do asfalto tem traços que sempre tentam educar o transeunte desatento. São Paulo, tenta incansavelmente comunicar. Numa linguagem compensatória dos tempos passados por essa grande dama, a cidade, que a cada ponto, rua, avenida e viela tem um tempo fixado numa fachada, numa casa, ainda, reservada e esquecida até a próxima demolição. Algumas frestas de passado, convivem com a composição e vertentes das correntes arquitetônicas que invadem o passante desse ambiente, carinhosamente chamado, “Sampa”.

Numa quebrada, numa escapada a esquerda, olhar a frente pode ser um sinal que se traduz numa cruz que imerge num pináculo, ou em uma gárgula que majestosamente o espreita das laterais dos edifícios neogóticos, dando uma sensação soturna, um pressentimento melancólico que invadem as janelas com suas venezianas empoeiradas. No desce e sobe das ruas, na invisibilidade que está na multidão, se encontrar com um abraço ofertado, por uma frase descrita sobre um desenho, idealizado do Cristo fixado na parede pichada, pode ser o único motivo de enfrentar a vida.

Do alto, o tom acinzentado do firmamento, sobre uma garoa intermitente, o frio isolado em busca dos papelões e agasalhos que na madrugada rolam ao vento sobre uma ventania que precede o temporal. São Paulo do Anhangabaú, dos manifestos, comícios e eventos, está sobre o sopro dos ventos que rodeiam o Chá, a Santa Efigênia. No Bom Retiro, a estação da Luz, do projeto simples a construção neoclássica do famoso arquiteto inglês, Guilherme Gaensly, rompe o dia com suas linhas coloridas, azul, verde, vermelha, amarela, lilás, que permite o colorido fugaz de seus passageiros, sobre o insólito ar austero das paredes desse gigante.

Das largas avenidas e ruas que cruzam sobre várias direções, siga a Rua Brigadeiro Tobias. Numa virada à esquerda, pegue a Avenida Prestes Maia, curve a Tiradentes, e se encaminhe à rampa de acesso ao Mercado Municipal e pare. Os frontões Art Deco e ecléticos o draga para um movimento e passeio vigiado pelos aromas e palatos universais. O cromo toma tonalidades de diversos lugares aqui embarcados, nesse recinto. São Paulo descreve sua legítima identidade, numa linguagem escrita pelos sabores que a tingiram. A fome, exatamente aqui, tem um contexto literal, da fome pela materialidade do insumo, traçado de cozimentos e técnicas de variadas línguas. Os vitrais vindos da Alemanha sobre temas do trabalho cotidiano da terra, traz saudosismo de uma época que cultivar era apenas alimentar e subsistir, mesmo que já numa régia colonialista e intenções adversas. A Rua Cantareira que aos sons dos milhares que aqui trafegam com suas mentes condicionadas ao enfado do dia a dia.

ENTRE O CONCRETO E A NATUREZA

Continue a perseguir o trajeto, olhe sempre para cima e terás um respiro sobre os formatos dos andares das casas que crescem as vistas, uma égide de fé, sobre alguma sacada ou pico de um arranha céu, e estará lá, uma presença enigmática e apelativa que remete o credo. Sampa, sobre sons de buzinas e pregues dos carros, transita, ágil e fremente, construindo vultuosos contextos pautados em detalhes velados.

Do Sítio do Capão do passado ao contrastante bairro da Bela Vista se visualiza o morro dos Ingleses e o loteamento dos imigrantes italianos, atual Bixiga, que a varíola (praga de anos outrora) batizou, nessa grafia, para configurar como se fala mesmo. Sobre uma corrente de afetividade vá caminhando e se encontre com a casa de Dona Yayá, e mesmo que escute o som dos acordes musicais do atual centro cultural, não se esqueça de fazer uma pesquisa sobre dona Sebastiana de Melo Freire, antiga proprietária desse recinto. Desça as escadarias do Bixiga e encontre um casario alegre e cheio de vida, com os museus do Óculos, o da Memória Italiana e o Teatro Ruth Escobar com sua resistência política e cultural impregnadas em cada vidraça e parede.  

No Bixiga, a atmosfera é bucólica. As árvores, mesmo em tempos outonais, têm um ar anárquico e vibrante. Um local que traz muito da cultura da Calábria, região italiana, e em épocas festeiras comemora a santa Achiropita, com a fome sendo saciada pela focaccia, mozarela, muitos quilos de macarrão e litros de molho de tomate, sobre as espias da procissão e do tapete de serragem que enfeitam a rua São Vicente. Mas observe, tenha tempo para ter um real encontro com a vila Itororó, e ali respire um pouco da resolução da depredação de um complexo rico, de um legado único, um conjunto habitacional com áureas europeias em terras tupiniquins. Ali, entre a lógica surreal e inimaginável, obras de arte explodem nas paredes descascadas pela intemperança do tempo, rostos das Cariátides. Já transfigurados, clamam e esperam por uma nova “dança entre as nogueiras com suas cestas de juntos em terras do Peloponeso”. Patrimônios e vestígios encobertos pelos prédios de aço e vidros que ostentam um gélido tom de austeridade.

Prossiga. Na Rua Rui Barbosa, siga até as Ruas João Passalaqua e Laerte Ramos de Carvalho, indo até a zona leste e Parque D. Pedro II. Sim, deixo claro que esse mapeamento não tem a ver com lógicas assertivas e frenéticas sobre aspectos quilométricos, mas a uma particular sensação afetiva e de lembranças remotas de minha memória juvenil. Avante, entre no Viaduto Júlio de Mesquita Filho, à frente, o Jacequai, continue no complexo viário Evaristo Comollati, pegue a esquerda em direção a Penha/Ipiranga, continue pela rua Glicério, enfim Liberdade… e lá está o Arco Torii vermelho, do bairro da Pólvora, da Forca, o local do cemitério e do Largo da Liberdade, que ainda com certeza estão eternizados sobre os ventos soltos de gritos do passado, a favor dos dois soldados presos por atos de melhores reivindicações salariais, Chaquinhas e Cotindiba. Coisas da terra da Garoa. 

A IDENTIDADE DO PALADAR

Dos porões das casas dessas bandas, no século XIX, os suportes para habitat dos orientais leivas, onde viviam de um forma cruel e amontoada, mas que tornaram aqueles obscuros cômodos, em lugares de esperança, com odores de tofu (queijo de soja) e manju (doce japonês), essências que os remetiam às suas origens. Vale ainda, dá uma passada na Livraria Taiyodo (Sol) com suas múltiplas titularidades sobre a língua pátria. Os Templos estão lá, mas o que mais instiga é o vai e vem, a linguagem pertinente dos muitos descendentes do oriente que não abandonaram seus dialetos, trazendo um universo particular, permitindo perceber que ali, o âmbito entre a transposição do contemplativo mundo tradicional e contemporâneo se transformaram na miscelânea cultura asiática/brasileira. São Paulo aqui, tem olhos monolídos, movimentos corporais compassados, hábitos comensais que vão de insumos e proteínas cruas e fritas, contextos visto sobre demais uma bolha, um mundo particular, onde se não nos atermos, serão vagas percepções, ante a ânsia do ritmo do business. Ali também, há a sensação de isolamento e solidão, andam com as mesmas euforias das barracas de Sushi, Yakisoba e as lojas de Ramen. Mas o que me atém de fato, nesse instante, são os balões brancos dos postes da rua…

Agora viaje, da Rua do Lavapés, à Rua dos Espíritos, pelos nomes vá mudando as concepções, pegue a BR-50 e vá até à Rua Jacofer, mas será necessário compreender que nesse longo trajeto irás te ater a muitas histórias e multiplicidade cultural entremeia essa cidade, sobre acordes caipiras, sobre sangue indígena, pretos e gotas e transfusões do além atlântico, pacífico e Índico. Nesse caminho, irás compreender o acesso de um espaço sobre um êxodo de mão de obra barata, de refugiados da seca impositiva, sobre o sonho dos aspectos salariais e vida próspera. Esse espaço chamado Centro de Tradições Nordestinas, o cheiro exala a coentro, charque (carne seca), farinha de mandioca, carne de sol, rapadura. Nesse recanto, a solidão transpassa a aglutinação e a multidão. Descendentes do norte e nordeste entram e saem sob o som dos triângulos, zabumbas e pífanos, na busca da saudade lascada, condita na fé de um dia voltar. Aqui, os signos e símbolos estão nas fitas do Senhor do Bonfim, na imagem vestida de uma túnica negra do Padre Cícero, nas imagens devocionais de Nossa Senhora da Conceição, que remete a Frei Damião.

Stop. São Paulo, taciturno, existe e se subscreve no repique da engrenagem de roldanas e combustível fóssil, sob uma fumaça cinza e nuvens negras das chaminés do passado. Vá à zona leste. Talvez isso te traga uma sensação de ativismo político e revolucionário. A região foi palco desse tipo de movimento devido ser um centro industrial com suas grandes explosões demográficas e gargalos populacionais. Mas também, recinto da Moóca, um lugar de moradia, com perfume de cantinas, confeitarias e pizzarias com ares da Lombardia e Piemonte. A fé aqui está no Juventus e nas lembranças impregnadas nas paredes do Museu da Imigração. Nessa pequena São Paulo, San Genaro é louvado e, sobre o pioneiro da Academia de Letras, Arthur de Azevedo. O teatro segue majestoso com sua arquitetura modernista, a Le Corbusier. Talvez, os atentos escutem os acordes de chorinho do Clube que ele abriga. A dama, provavelmente, nessas bandas, sentaria r contemplativa e distraída, o vácuo que norteia esses lugares.

 A ILUSTRE DAMA

São Paulo segue, numa outra composição, setor oeste. Hoje ante o medo e o pavor da sindemia, o Brasil ativa sua visão ao emblemático bairro do Butantã, sobre a ordem da ciência e saber, os gatilhos do negacionismo e da flâmula conservadorista, a fresta do caminho de uma nova possibilidade de vida, um sobro de esperança, que está ali diante das paredes num estilo de construção Sezession, que mantém simbolicamente duas serpentes, sinais da luta do bem contra o mal, o Instituto Butantã! Sinais previsíveis de tempos vindouros. A sesmaria de tempos atrás, a trilha de bandeirantes e indígenas, floresce cercado de verde esperança, mas mesmo assim, sobre a mesma signatura e efeitos imagéticos de lugares sombrios, de vales que se convertem a zonas de conflitos e se mantém via à via com o destino já traçado. Rodeados de casarões, de prédios, concreto que se refazem como larvas, São Paulo cresce, se espalha.

Talvez na Rua Ipiranga ao cruzar a esquina com a Avenida São João, essa ilustre senhora, dama por excelência, continue insólita, com seus letreiros luminosos a explodir embaçados por um temporal qualquer, ela ainda, a mim é uma desconhecida, sempre vertendo um véu sobre seu olhar lânguido. Seus amores e seus desejos sempre estarão na Rua Augusta. Seus boêmios morarão na Frei Caneca, suas janelas sempre a mim serão indiscretas, trazendo um frio na costela, ao pensar no enigmático ser que me fita do prédio da frente. São Paulo é uma terra fértil e árida, parindo sempre nossos anseios. Sua velocidade, atravessa cortante aos seus que caminham alheios à fome e à fé. Sua ordem é desenvolvimentista, mas seu desejo é pleno de paz, de ter um chão. Sua vida não tem descanso, seu andar é intrépido com ares progressista, seus desejos são serenos e descansam nas viagens de longas distâncias entre o mar e as montanhas que a rodeia, sonhos que permeiam uma vida mais contemplativa. Essa senhora de 467 anos anda em vias sombrias, mas descansa almejando raios solares, numas réstias que, às vezes, entremeiam as frestas de algumas janelas.