Conseguir um horário na agenda disputada do Dr. Fábio Casanova, oftalmologista à frente do Memorial Oftalmo, localizado no sétimo andar do edifício garagem do Hospital Memorial São José, no Recife, não foi das tarefas mais fáceis. Entre uma cirurgia e outra, participação em congressos e palestras, o cirurgião recebeu a equipe da Revista MENSCH, em sua casa, na Reserva do Paiva, região metropolitana de Recife, para um bate papo que mostrou a paixão que o move na profissão e o olhar apurado de um empreendedor nato.

A clínica, que começou com quatro funcionários e hoje conta com 32 colaboradores, é uma referência em cirurgia refrativa e de catarata no Brasil. “Dos quatro funcionários iniciais, dois estão comigo até hoje. Uma era recepcionista e hoje é o meu braço-direito na coordenação cirúrgica; a outra era serviços gerais e agora me auxilia com o laser. Somos uma família”, revela. Atendendo pacientes de todo o Brasil, e também de 12 países, Dr. Fábio acumula histórias e experiências com os pacientes que faz questão de atender desde a triagem até o pós-operatório. “Esse é um dos motivos do sucesso do Memorial Oftalmo. Tenho uma equipe espetacular que me auxilia, que se preocupa com a qualidade. Sempre prezei por fazer o melhor serviço, com a melhor qualidade possível. Não dá para, com a experiência que adquiri, oferecer algo mediano para meus pacientes. Por isso, faço questão de atendê-los do início ao fim do tratamento”, diz ele, que realiza, sozinho, 250 cirurgias refrativas e 100 de catarata, por mês.

O mais velho de três irmãos, Fábio foi o único que seguiu a profissão do pai, o também oftalmologista Rui Casanova. “Meu pai sempre foi uma referência, foi quem me apresentou ao universo e a médicos reconhecidos”, diz ele, que é formado pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1997. Casanova mudou-se para São Paulo onde concluiu a residência médica, na Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP – EPM), com especialização em catarata e cirurgia refrativa, além do doutorado em catarata, em 2003, pela mesma instituição. Em 2004, se mudou para Boston, nos EUA, onde cursou o pós-doutorado em Harvard, e é convidado a proferir palestras e apresentar os resultados de seus trabalhos científicos e técnicas cirúrgicas em todo o Brasil e no exterior.

“Durante a faculdade me encantei com a pediatria, pois achava muito nobre o trabalho de salvar crianças, chegava em casa empolgado. Cheguei até a ficar perdido nessa época. Mas, nos últimos anos na universidade voltei a ter contato com à oftalmologia, mesmo a Universidade Federal de Pernambuco não oferecendo a melhor estrutura para esta subespecialidade”. Conta ele que, para tentar minimizar a deficiência de conteúdo que a faculdade apresentava, começou a acompanhar o médico e amigo de seu pai, Dr. João Eudes, em cirurgias oftalmológicas no serviço privado.

“Ainda na faculdade, fui passar férias em São Paulo e aproveitei para conhecer a UNIFESP. Nessa época, havia mandado um e-mail para o professor Rubens Belfort, então chefe do departamento de oftalmologia, pedindo a permissão para passar uma semana acompanhando o setor da universidade, e me desculpando pela intromissão. Ele me respondeu dizendo que nunca deveria pedir desculpas por querer aprender e avançar na vida. E autorizou minha ida”, lembra emocionado. Durante esta semana, num auditório para mais de 400 pessoas, teve a sorte de sentar ao lado desse professor e poder agradecer pessoalmente. “Entre tantas coisas, falei que estava acompanhando um médico no Recife. Ele me interrompeu na hora e me deu o melhor conselho que recebi: ‘você tem um ano e oito meses (tempo que faltava para formatura) para estudar medicina em sua totalidade. Esqueça oftalmologia no momento, pois depois terás 40 anos para se dedicar a ela, e entre na melhor residência possível”, conta. “E foi o que fiz! Agradeci ao Dr. João Eudes e me dediquei aos estudos. Fui, junto com um amigo de turma, os primeiros do Nordeste a entrar na residência de Oftalmologia da UNIFESP”, comemora.

Conheceu Márcia, sua esposa, nesse período, em São Paulo, com quem tem dois filhos, Júlia, 10, e Gustavo, 7. Lá, atendia na UNIFESP gratuitamente, pelo SUS, era orientador de residentes, mas não tinha retorno financeiro, pois todo o trabalho na universidade era voluntário, o que lhe garantiu prêmios e reconhecimento. “Em 1999 recebi o prêmio de melhor residente da UNIFESP – EPM”, comemora. Em paralelo, mantinha uma rotina de atendimentos e cirurgias em clínicas particulares em São Paulo.

Quando retornou dos EUA, Casanova tinha a ideia de montar sua clínica no Recife, algo inovador, que fosse o diferencial, mesmo ainda morando em São Paulo. “Não queria ter apenas um consultório, o objetivo era montar um centro de referência, num grande hospital, assim como na Europa, nos EUA e São Paulo. Depois de muito pesquisar, consegui agendar uma reunião com Dr. José Aécio Fernandes Vieira, médico e fundador do Hospital Memorial São José, que comprou a ideia e embarcou comigo na empreitada”, recorda.

Queria que fosse um projeto inovador, pensado em todos os detalhes para a melhor prática da medicina oftalmológica. Para isso, trouxe um arquiteto especialista em hospitais e clínicas de Goiana, Marcos Queiroz, que montou o espaço pensando em todos os detalhes do atendimento. “Sabia muito sobre oftalmologia, mas nada sobre obra, então dedicamos três anos de pesquisa e planejamento para um projeto que girava em torno de um milhão de dólares, o qual seríamos, José Aécio e eu, sócios. Saí da reunião no Memorial São José com meu pai e ele me perguntou: ‘Você é maluco?’ Só respondi que ia trabalhar para conseguir e que iria dar certo”, lembra ele entre risos, pois sabia que tinha muitas ideias, mas quase nenhum dinheiro para executá-las.

Mas nem tudo foi só flores. Faltando três meses para começar a obra, que teve início em maio de 2008, o conselho do hospital entrou em contato com Casanova, que estava com viagem marcada para os EUA, para informar que eles estavam saindo da sociedade, pois não acreditavam que o projeto daria certo. “Mas eu continuei, não sei como consegui, mas trabalhei muito para isso. Sofri muitas críticas de pessoas que não acreditavam. Quantas vezes nos abraçamos, minha esposa e eu, chorando com a situação em que estávamos, com as contas no vermelho, e eu sempre dizia que, na pior das hipóteses, voltaríamos para São Paulo, pois lá tinha pacientes”, lembra emocionado.

Inaugurou a clínica no dia 25 de novembro de 2008, com a transmissão ao vivo de uma cirurgia pela internet. O andar, com 500 m² de área, funciona como um pequeno hospital, realizando consultas, exames clínicos e cirurgias. “Desde a inauguração até maio de 2010, o Memorial Oftalmo ainda era muito deficitário, realizando dois atendimentos por mês. Em 2011, passou a ter fila de pacientes de até dois meses. Em 2012 chegou a ter o maior volume de cirurgia a laser do Brasil, chegando a ter fila de espera de mais de um ano”, relata, rindo hoje da situação que vivia com a família, sem poder usufruir de uma vida social ativa por conta da situação financeira.

Aos 44 anos, Fábio Casanova é membro vitalício do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, e das sociedades American Academy of Ophthalmology (AAO), American Society of Cataract and Refractive Surgery (ASCRS), International Society of Refractive Surgery (ISRS), Sociedade Brasileira de Cirurgia Refrativa (SBCR), Sociedade Brasileira de Catarata e Implantes Intraoculares (SBCII). Foi presidente da Sociedade Brasileira de Laser e Cirurgia em Oftalmologia, de 2004 a 2007, e se prepara para mais um novo projeto em 2018, em fase de planejamento com o arquiteto Marcos Queiroz.