Imagine encontrar um dos diretores gerais do empreendimento mais icônico do Brasil e ter alguns minutos de conversa sem a complexidade por trás do cargo. Esse é o perfil de Wellington Melo, que integra a equipe de líderes do luxuoso Hotel Unique, em São Paulo, há mais de um semestre. O jeito acessível e comunicativo tem vários motivos – a base familiar humilde associada à paixão pela hotelaria, tão capazes de empurrar sua trajetória de garçom até o mais alto cargo na empresa.

Aos 36 anos, Wellington pode dizer que já viveu muito mais do que a própria idade entrega. É filho de pais nordestinos que trabalhavam no ramo hoteleiro, assim como suas tias. Universo que, naturalmente, foi sendo incorporado à sua rotina, tanto que, ainda na adolescência, uma meta já estava traçada em sua vida – “Chegar aos 30 como gerente na área de Alimentos e Bebidas”, disse firme, em uma aula de apresentação dos alunos de uma faculdade de Hotelaria. Antes disso, passou pela formação técnica em Nutrição, durante o ensino médio. 

O primeiro estágio aconteceu no Hotel Transamérica, onde foi possível confirmar toda sua vocação para o setor, atuando na parte de Controle de Qualidade. “Naquela época já me vinha a vontade de entender mais sobre a área de cozinha e vinhos, aumentando o desejo de trabalhar na parte de eventos, por conseguir noção de logística, estrutura e planejamento”, analisa. 

A chegada ao Unique aconteceu em 2002, junto com a equipe de estreia do hotel. Esse era o primeiro ano de funcionamento do lugar, que já prometia ser um dos endereços mais importantes do Brasil. A expectativa estava junto com os novos colaboradores. “Entrei como ajudante de garçom. Todo o material era importado, e eles falaram que, depois de seis meses, o hotel já atenderia 120 pessoas por noite”. Nesse contexto grandioso, um problema estava estabelecido – a quantidade de objetos quebrados em tão pouco tempo. “Vi ali uma oportunidade. Mapeei todas as áreas para saber como se quebrava tantos objetos. Criei um time com cozinheiros, garçons e bartenders. Foi quando começamos um projeto e, depois de seis meses, reduzimos em 60% o número de quebras. Eu me vi ajudante de garçom, dentro de uma sala, fazendo uma apresentação para diretores”, lembra Wellington, que, naquele momento, conseguiu ter os olhos voltados diretamente para o seu trabalho.


TRAJETÓRIA 

Aos 18 anos, ele já identificava situações que pudessem ser resolvidas. Auxiliou na parte de Controle de Qualidade e Nutrição, tornou-se Garçom, depois Maître, formou-se Sommelier e, assim, seguiu ampliando o olhar para os diferentes setores do hotel. Tudo isso, sem esquecer a base familiar que o levou até ali. “Uma coisa que bato na tecla, é que vim da periferia de São Paulo, e caí no luxo sem ter aquilo em minha vida. Eu ia jantar fora com os meus pais, em um modelo completamente diferente, e que também era legal. Então, eu não tinha ideia do que era chegar em um lugar e pedir foie gras, por exemplo. Eu tive muita sorte em relação às empresas onde caí desde o início. De fazer o desenvolvimento das pessoas. De experimentar coisas novas para ter propriedade de vendê-las”, completa.

Os desafios diários, logo se tornaram lições. Para chegar ao trabalho, era preciso duas horas de condução. Em época de prova, o cansaço era inevitável. Mas, tudo isso, sempre fez sentido. A vontade de aprender, fez o atual diretor lidar com a palavra pluralidade. Seja ela em termos de aprendizado ou mesmo na convivência de uma equipe diversa. O time do Hotel Unique sempre uniu diferentes raças, gêneros, idades e estilos. Todos no mesmo ambiente, com a mesma oportunidade em mãos. 

Entender o outro acabou sendo a premissa na gestão de Wellington, que também atuou como gerente e diretor de operações. “Eu trago muito esse olhar de como o luxo, em sua maioria, é entendido pela periferia. Quando eles saem daquele ambiente, eles colocam o calçado deles e colocam o pé no chão, literalmente. E hoje, nessa posição, sei o quanto é importante a profissionalização”, aponta. 

Esse é um verdadeiro movimento de empatia dentro do empreendimento. Não à toa, ele criou um departamento batizado de Desenvolvimento Humano, onde mapeia e alia as lideranças iniciais, desenvolvendo todas as competências para saber o que pode ser feito de novo. Dessa forma, a antiga relação vertical abre espaço para um contexto mais horizontal, tendo em vista que, certas decisões, nem sempre precisam vir de um superior, mas de quem está na rotina atento à visão estratégica. “O curioso é que comecei a ser procurado para dar palestras sobre um cenário mais motivador que inclui a minha própria vida. Já estudei na Inglaterra, na França, mas sempre gosto de contar essas histórias pelo começo, porque muita gente tem um história parecida com a minha. Às vezes, alguém chega para mim e diz ‘eu também sou do Grajaú ou vim da zona periférica de São Paulo’. E acho isso incrível”, celebra. 

POR TRÁS DO EXECUTIVO

Além de uma história incomum, Wellington Melo tem um estilo de vida longe do estereótipo de diretor geral. Fora das oito horas de trabalho intenso, está um homem casado que se aventura a andar de skate, não deixa de ir à academia ao longo de toda a semana e sabe da importância da prática regular de atividades físicas ao ar livre. “Fora isso, dedico pelo menos 30 minutos do meu dia para ler o que preciso, de forma on-line mesmo”, destaca. Com uma rotina tão bem definida assim, engana-se quem acha não existir férias no seu vocabulário. Seu pai é do Rio Grande do Norte e a mãe da Bahia – pretexto de sobra para visitar a região. “Além disso, minha avó mora a três horas de Natal, perto de Mossoró. Fora isso, em tempos longe de pandemia, faço pelo menos duas viagens por ano, sendo a maioria para a Europa, onde consigo alinhar lazer com mais aprendizado”, diz, com o passaporte já carimbado para lugares como Itália França, Escócia, Inglaterra, Bélgica, Áustria, República Tcheca e Chile.