Em 18 de junho deste ano, celebramos 114 anos da imigração japonesa em nosso país. Uma imigração que em muito acrescentou a nossa própria cultura e contribuiu para essa mistura tão peculiar da qual somos feitos. Conversamos com vários descendentes de pessoas desse país insular do Oceano Pacífico para entender mais sobre essa miscigenação e como ela afeta os brasileiros, cujas raízes estão lá do outro lado.

O MARCO

Enquanto o Japão sofria com a alta densidade demográfica (pós- modernização do país, com desenvolvimento educacional e industrial), o Brasil vinha diminuindo a mão de obra escrava responsável pela manutenção agrária da época. Com a lavoura cafeeira em expansão e a falta de agricultores para a lida, a imigração se mostrou uma solução para os dois países. Em 1907, mais precisamente em 6 de novembro, assinou-se um acordo entre a Companhia Imperial de Emigração, com Ryo Mizuno à frente e o governo paulista, representados por Jorge Tibiriçá, presidente do Estado de São Paulo e o então secretário da agricultura Carlos Botelho. Em 28 de abril de 1908, 781 imigrantes japoneses se lançaram ao mar em uma viagem de 52 dias a bordo do navio Kasato Maru. Na mala, sonhos, expectativas e o novo em perspectiva. O desembarque se deu no porto de Santos, em 18 de junho. Assim, começa a história do Japão no Brasil. E também dos nossos entrevistados: Alícia Abe, Camila Kishimoto, Celso Ieiri, Karina Lumi, Kasuo Miyake, Lucas Kendi Pessanha Ieiri, Mateus Augusto Zafanella e Tania Mineko Matsui Oka.

A ADAPTAÇÃO

O acordo de imigração beneficiava tanto o Brasil, necessitado de mão de obra, quanto o Japão. Contudo, nem tudo foram flores de cerejeira. O Brasil buscava famílias compostas por, pelo menos, 3 pessoas em idade e condição de trabalho nos cafezais. Mais ainda, gente com interesse de fincar os pés no país. Nesse sentido, os chamados dekasseguis não eram desejados. Pois, esse grupo tinha como objetivo trabalhar, juntar dinheiro e voltar para o Japão. 

Cultura e línguas tão diferentes foram um impacto para os imigrantes, alguns não conseguiram passar mais de 2 meses em algumas fazendas. Apesar de cada grupo ser acompanhado por um tradutor, tudo era muito diferente no Brasil. Dos 793 japoneses, restavam apenas 191 em setembro de 1909.

No outro ano, outro navio, novos japoneses, mesmos problemas de adaptação. Com o tempo, os conflitos de cultura e língua foram dando espaço a um convívio mais harmônico. Vale lembrar, muitas das famílias desembarcadas nesse período, sequer eram de fato agricultores. Não foi uma chegada fácil.

AS CONQUISTAS

Em meados de 1911, foi criado um projeto de colonização permitindo o assentamento de famílias japonesas em lotes de terras doados pelo Governo Federal. Cinco famílias, após o término de seus contratos, iniciaram suas plantações de algodão nos lotes junto à Estação Cerqueira César, da Estrada de Ferro Sorocabana.

Mais famílias continuaram chegando do Japão, mais famílias iam adquirindo seus lotes e o Brasil foi se firmando como lar para essas pessoas vindas de tão longe e com tantos desejos de fazer daqui, seu novo lar. Muitas dessas famílias, seguem com as novas gerações, vivendo dos frutos da terra, seja no plantio ou na agropecuária, como é o caso de alguns familiares do fotógrafo e filmmaker Lucas Ieiri, de 28 anos.

INTERCÂMBIO CULTURAL

As famílias japonesas foram crescendo, crianças já começavam a nascer no Brasil e escolas voltadas para seus estudos foram sendo criadas. Formaram-se as primeiras professoras e também o primeiro dentista de origem japonesa no ano de 1923. A presença desses japonesas em universidades brasileiras, foi gerando troca de conhecimento e cultura. Ao longo do tempo, essas trocas foram moldando os descendentes de hoje.

Apesar de fazer parte de uma família oriental tradicional e ter frequentado na infância e adolescência espaços voltados para descendentes japoneses, Karina Lumi, 38 anos, diz ser a brasilidade e a mistura de etnias o seu encantamento, se vendo mais voltada para a cultura ocidental, ao invés da oriental.

Tania Oko, 56 anos, tem uma influência japonesa muito forte, seja nos hábitos alimentares como em relação a comemorações, amizades e lazer. Além de falar a língua, Tania já esteve no Japão e costuma assistir a programas locais, mas é na cobrança aos filhos de atitudes com resiliência, empenho e competitividade, onde enxerga o legado japonês.

Fazer o melhor (がんばて – gan ba te) é a herança japonesa herdada por Kasuo Miyake, de 54 anos. O cirurgião vascular traz da medicina oriental o capricho, a dedicação máxima, o perfeccionismo e a humanização da prática médica, ouvindo com carinho e atenção seus pacientes. Além de estudar a língua, já foi ao Japão e se exercita online com uma professora direto da terra do sol.

Conhecer o país de origem familiar pode ser uma experiência transformadora. Alice Abe, de 36 anos, esteve por lá por 4 meses aumentando o amor pela terra de seus ascendentes. “Foi um choque estar sozinha em uma sociedade tão retrofuturista como a japonesa. Lembro de tudo ser muito limpo, educado, neon, esteticamente agradável e perceber que, em 2007, as pessoas já usavam pagamento por celular de aproximação para entrar no metrô. Mas ao mesmo tempo, convivi com templos antigos preservados, comi comida de rua, visitei o templo budista de Kamakura e voltei chorando pro Brasil, de tanto que tinha gostado”.

Camila Kishimoto, 41 anos, reconhece a cultura japonesa enraizada nela. Adora a culinária e a moda, mas não deixa isso influenciar seu trabalho de Personal Stylist, pois deve atender à demanda do cliente. Porém, o perfeccionismo japonês ela leva para onde vai.

Aliás, se tem uma coisa em comum, além da ancestralidade entre todos eles, é o comprometimento em fazer tudo bem feito, o respeito ao outro e a busca pelo equilíbrio. Celso Ieiri, 50 anos, reforça a espiritualidade e a serenidade como traços orientais de sua personalidade.  Diferentemente da maioria, ele não teve muito contato direto com a cultura japonesa. Seus avós faleceram ainda na sua adolescência. Era sua mãe, descendente de alemães, quem lhe contava histórias e falava da cultura aprendida com o marido, seu pai, filho de japoneses.

Mateus Zafanella, 34 anos, também não teve muito acesso a sua ascendência japonesa. Com a separação dos avós, não chegou a conhecer o avô, filho de japoneses, mas guarda o respeito ao próximo, a dedicação e o comprometimento como herança oriental.

GUERRA E PÓS-GUERRA

Se por um lado a crescente presença de orientais no Brasil gerava mão de obra para as lavouras, por outro, havia quem não gostasse da forma como iam se espalhando e integrando sua cultura à nossa. Com o advento da 2ª Guerra o preconceitos e os conflitos foram tomando proporções maiores e os imigrantes (nessa época, já havia alemães e italianos também), foram sofrendo duras restrições, inclusive de confisco de bens.

Desse período, o preconceito ainda figura em alguns casos. Tania Oka lembra que, durante a infância, os coleguinhas rirem do formato de seus olhos ou do fato de comerem peixe cru. Na adolescência, ouviu de professores “Para passar no vestibular, os ocidentais precisavam eliminar um oriental”. Celso Ieiri conta que, em uma discussão de adolescentes, ouviu um “cala boca japonês” e ser preterido em uma seleção por “haver muitos orientais”. Já Camila Kishimoto, tinha somente 14 anos quando ouviu de uma cliente “só podia ser japonesa mesmo”, ao tentar passar um cartão na ausência da caixa da loja.

Felizmente, nem só de preconceito vive essa relação. Por vezes, são justamente as raízes orientais a imprimirem mais respeito aos descendentes. Lucas Ieire, conta sobre a descendência japonesa trazer pra ele credibilidade e confiança. Ele diz que isso é ótimo, para atividades como a produção de eventos, onde prazo e entrega costumam ser os principais problemas relatados pelos clientes.

Passada a guerra, com a paz sendo reestabelecida, em 1948, São Paulo tem o primeiro nikkey (descendente de japonês nascido fora do Japão ou japonês vivendo regularmente no exterior) para a câmara municipal, o vereador eleito Yukishige Tamura. No ano seguinte, Brasil e Japão firmam acordo comercial bilateral. Na sequência, bens confiscados foram devolvidos e em 1951, mais 5 mil famílias de imigrantes chegaram ao Brasil. Estimuladas pelo acordo comercial, as primeiras empresas japonesas aportam no Brasil em 1953.

Para além do aporte das empresas, ainda na década de 50, muito da arte japonesa influencia a arte de filhos e netos nascidos em terras brasileiras. Artista visual multimídia, Alice Abe diz ter seu trabalho bastante influenciado por mangas e animes. As cores vibrantes, o tempo dilatado e as estéticas futurísticas estão sempre presentes. Não há mais volta. Brasil e Japão vivem sua simbiose em cada descendente desses primeiros imigrantes. Sejam nisseis (filhos de japoneses), sanseis (netos) ou Yonseis (bisnetos).

“O resgate e valorização da cultura Japonesa é muito importante, pois o Brasil ficou contra o Japão, Alemanha e Itália. Todas as escolas japonesas foram fechadas e os nomes japoneses, alemães e italianos apagados. Essa postura do Brasil ceifou a cultura dessas três nações. É um fato triste da nossa história”. – Kasuo Miyake

QUEM VEM DE LÁ Assim, 114 anos após os primeiros japoneses desembarcarem no Brasil, já há gerações deles nascidas em solo brasileiro. Gente carregando em seus genes histórias ancestrais de um país onde tradição e modernidade se fundem e se complementam. Cada personagem dessa história vive a ascendência como uma experiência única e bastante pessoal.