Silvero Pereira é o que podemos chamar de artista com todas as letras. Guerreiro e batalhador, deixou sua terra natal Mombaça, no Ceará, aos 13 anos levando sonhos, desejos e muita saudade da família para se encontrar como ator. Cria do teatro, Silvero foi seguindo seu coração com a certeza que o destino era ele quem iria traçar. Vieram peças, filmes…até que um tal Nonato, ou melhor dizer, Elis, ou melhor ainda, as duas personagens surgirem na sua vida pelas mãos talentosas de Glória Perez em sua novela “A Força do Querer”, de 2017 mas que voltou ao ar agora no horário nobre. Foi com esse trabalho que o grande público descobriu o talento de Silvero, um talento que se sobrepõe a qualquer barreira ou preconceito que pudesse existir. Premiado recentemente pelo seu trabalho em “Bacurau”, Silvero é a prova de que você é o senhor do seu destino. Um artista em eterna evolução e constante mutação. É o cara da nova era!

Como começou sua história na arte? Desde pequeno já me sentia diferente dos meus amigos, sempre goste mais de atividades artísticas, imitar personagens de filmes, participar de atividades escolares temáticas. Entretanto, foi somente com 17 anos, no Ensino Médio, que tive contato com o Teatro e me encantei com o fazer e com a profissionalização.

Atualmente sua família vive em sua cidade natal, Mombaça, no Ceará, como é sua relação com eles? Eu sai de casa com 13 anos, logo, com laços afetivos ainda em construção. Hoje, eu revejo minhas ações e como posso fazer para ter mais tempo com meus familiares. Meus pais abriram mão de muitos sonhos para educação dos filhos e tenho eles como grande exemplo e gratidão. 

Uma quarentena imposta para conter uma pandemia mundial da Covid-19, causou um verdadeiro baque para quem vive de arte. Como foi e como está sendo isso para você? Tem sido desafiador. Mas sei do meu lugar de artista privilegiado, mesmo com uma demanda baixa, em nenhum momento deixei de trabalhar. Entretanto, sou muito ligado aos meus colegas de trabalho, principalmente os de teatro, e não tem sido nada fácil para muitos deles. No meio disso tudo consegui fazer trabalhos remotos (filme “Fluxos”, de André Pellenz), algumas peças publicitárias, adaptei um espetáculo para plataformas digitais (Metrópole) e criei um peça toda pensada para o formato digital (“Bixa Viado Frango”). Além disso sigo com contratação pela HBO numa série brasileira que parou em março e retorna em janeiro de 2021. Também fiz uma participação no novo filme de Halder Gomes (“Bem Vindo a Quixeramobim”) e agora em novembro sigo para o Rio onde filmo com a Cleo Pires.   

Como aproveitou esse tempo de pandemia para cuidar do Silvero pessoa física? Eu aprendi coisas importantes em casa como meditar, cozinhar, treinar, dar mais atenção aos meus pets e cuidar de plantas.

Recentemente você recebeu o troféu de Melhor Ator no Prêmio do Cinema Brasileiro por sua atuação como o justiceiro Lunga no filme “Bacurau”. Fala da importância desse troféu para você? Primeiro que eu não esperava, de forma alguma, ganhar esse prêmio. Segundo, ele representa muito, não apenas pra mim, mas para tantos outros de classe social pobre, estudante de escola pública, do interior de um estado do Nordeste e que ouviu a vida inteira que “a vida é isso mesmo e não vai mudar”. Eu, particularmente, nunca acreditei em destino traçado, fui educado a ser estudioso, dedicado e responsável. Esse prêmio é uma demonstração física de um esforço e história de luta/vida como nordeste, arte, lgbtqia+.

Como foi para você trabalhar com dois dos maiores diretores do cinema brasileiro? Kleber Mendonça e Juliano são fantásticos! Eu aprendi muito com eles, não apenas sobre criar personagem ou sobre planos de cinema. Mmas, especialmente, sobre cumplicidade, respeito e trabalho coletivo. Uma grande honra fazer parte deste projeto.

“A Força do Querer” foi um marco na sua vida profissional, como foi para você receber o convite da própria Gloria Perez para fazer essa novela? A minha novela favorita é “Barriga de Aluguel”, minha série preferida é “Hilda Furacão”, ambas escritas por Glória Perez. Então, me vi sendo convidado pela própria para estrear na televisão. Isso foi emocionante desde a possibilidade, a concretização do convite e durante o processo. Glória é uma pessoa muito generosa, cuidadosa, atenciosa. Tenho muito a agradecer e espero um dia voltarmos a trabalhar juntos. 

“A Força do Querer” foi seu primeiro papel na TV, depois de anos se dedicando ao teatro. Qual a importância dessa novela em sua carreira? Ela me mostrou para o Brasil. Um número incalculável de pessoas passou a saber quem era o Silvero, seus desejos, sua história, seu trabalho e, principalmente, na minha cidade Mombaça, onde tantas pessoas e crianças passaram a me enxergar como exemplo de luta e superação. 

O que sentiu quando soube que “A Força do Querer” seria exibida novamente? Uma grande alegria! Não esperava rever Elis/Nonato tão brevemente e eles vieram num momento importante que é esse momento de isolamento e trazer um pouco de informação e alegria para as casas das pessoas.

Que são suas maiores referências artísticas? Meu primeiro professor de teatro Paulo Ess, que me ensinou absolutamente toda a base sobre respeito ao seu ofício. Ser professor não é fácil nesse país e é preciso reconhecer a importância desses profissionais.

Quem é você na Nova Era Silvero? Eu sou uma pessoa maior do que fui! Não me considero melhor que antes, mas acredito que acumulei conhecimento para traçar caminhos com responsabilidade e afetos. Hoje, sou ainda mais atrevido que antes, ou seja, não tenho medo de desafios, nem de erros. Gosto muito de me lançar na ideias e aprender com sucesso ou fracasso, mas nunca com arrependimento.