Cria do cinema, o ator Michel Gomes ganhou notoriedade quando estreou no premiado “Cidade de Deus” com apenas 12 anos. Até que aos 18 anos, surgiu a oportunidade de estrelar seu primeiro grande filme, “Última Parada 174”, que ganhou o mundo e muitos prêmios. Daí em diante a vida daquele garoto que veio do projeto Talentos da Vila Vintém não parou mais. Em breve ele volta às telonas com novo filme, “O Novelo”. Mas enquanto isso estamos tendo o prazer de assistir Michel na pele de Jorge de Sá Rocha e Samuel dos Anjos deNos Tempos do Imperador”, atual novela das 18h na Globo. Entre uma gravação e outra conversamos com Michel para conhecer um pouco mais de sua jornada até aqui.

Michel, você é fruto de um belo projeto Talentos da Vila Vintém, que trata de formar e inserir no mercado talentos que muitas vezes passam despercebidos pela sociedade. Sabemos de seu talento hoje, mas o quanto esse projeto foi importante para sua formação? Sou fruto do TVV. Assim como muitos atletas também saem de comunidades, a gente precisa ter mais projetos como esses. São projetos assim que, acima de qualquer coisa, ajudam a formar cidadãos e isso também é muito importante. Lá foi meu primeiro contato, foi onde eu me apaixonei, onde tive meu primeiro amor pela arte, a partir dali, comecei a sonhar.

Você acredita que o cenário está mudando após campanhas e projetos como esse se tornarem mais populares e caírem na mídia? O cenário não muda de uma hora pra outra, só com muito trabalho, suor, muito investimento – muda com pessoas que sonham junto. Tenho muita gratidão por ter feito parte disso. Hoje vemos muitos projetos em comunidades com diversos atores muito talentosos. Na quebrada, sempre tem talento de todos os lados.

O que ainda é a grande dificuldade? Barreira social, racial ou oportunidades? Todas são dificuldades, nada é fácil. Faltam oportunidades, possibilidades. Fazia teatro numa comunidade e era difícil saber como abrir portas para poder iniciar. A consequência disso é muito esforço, muito trabalho, trabalhar dobrado, literalmente. Minha ideia sempre foi conseguir viver da minha profissão e a televisão foi consequência – as coisas foram acontecendo. Mas é muito difícil, principalmente pra alguém que vem de onde venho.

Que lições você traz do TVV que levou para a vida? Eu trago amor, aprendizado, amigos, fé, luta, força, esperança. Eu realmente tenho muito amor pelo TVV, foi onde minha vida mudou. Fui como uma criança pra brincar, conhecer, entender e acabei encontrando minha profissão de uma forma inesperada. 

Sua estreia foi marcante. Seu primeiro trabalho foi logo no premiado longa Cidade de Deus. Esperava aquele sucesso todo? Como foi esse início para você? Quando eu estava no TVV foi a época em que o Fernando Meireles estava procurando atores desconhecidos para o filme Cidade de Deus e que, provavelmente, tivessem uma realidade próxima da trama. Tive meu primeiro contato com cinema aos 12 anos, com esse filme. Em Cidade de Deus tive a oportunidade de, na minha opinião, fazer um dos maiores filmes do cinema brasileiro, que sem dúvida nenhuma abriu portas que não se fecharam até hoje. Mesmo tendo pouquíssima experiência, fui muito feliz fazendo esse trabalho e foi onde descobri meu dom e o que eu queria levar pra vida. Me fez ter amor à primeira vista pelo audiovisual.

Na sequência, ainda no cinema você fez Última Parada 174, baseado na história real de Sandro Barbosa do Nascimento, seu personagem. Uma história forte e comovente que deu muito o que falar. Como você chegou até esse personagem e quais os momentos mais difíceis? O que ficou dessa época? Depois de Cidade de Deus a batalha continuou, continuei fazendo filmes e séries e Última Parada 174 foi meu primeiro grande trabalho de destaque. Aquele trabalho que, de alguma forma, carimba a trajetória. Foi um filme que mudou minha vida pra melhor. Trabalhei muito, foquei muito, era um filme complexo e difícil de ser feito. O Bruno Barreto confiou 100% na gente, foi uma experiência única, um filme pesadíssimo e eu estava no auge dos meus 18 anos. Tenho um amor enorme, pra sempre, por esse filme.

Ainda falando em cinema, seu filme mais recente é O Novelo, que estreia este ano. O que pode nos adiantar sobre esse trabalho? O Novelo foi incrível, filme muito delicado, com orçamento baixo, poucos dias de gravação. É lindo, é a história da família brasileira e essa galera do bem que tanto luta, passa por dificuldades. Filme emocionante! Adorei fazer.

E falando em trabalho, claro, não poderíamos deixar de citar seus personagens Jorge de Sá Rocha e Samuel dos Anjos de Nos Tempos do Imperador. Por sinal, como é se dividir entre eles? Explica para quem não está ligado ainda. Nos Tempos do Imperador realmente é um sonho que eu venho realizando. Uma novela linda, um elenco que gosto e admiro demais. Fazer essa novela, contar essa história é sensacional. Precisava muito fazer uma novela, um personagem como esse. São personagens que andam fazendo parte da minha vida há bastante tempo. Intensidade, paixão, amor, carinho, verdade, sofrimento, é o que vivo com eles.

Como surgiu o convite para um papel de destaque na trama? Como se preparou? Estou realizando um sonho de contar a história do Brasil. Levo para as cenas esse sentimento forte que sempre esteve em minha vida. Todas as dores e sofrimentos já vividos na minha realidade como negro, estão em cena na vida de Jorge / Samuel. Estou contando a minha história também. Eu me inspirei nos próprios brasileiros. Negros que sofrem nas periferias do Brasil. Não precisei olhar muito para trás, bastou olhar para o lado para ver diversas histórias parecidas com a do Samuel. De pessoas que passam por isso até hoje.

Ter um negro como um dos protagonistas de uma história como esse é, de certa forma, uma grande conquista? Acha que ainda faltam papeis de destaque para atores negros hoje em dia? O mercado é difícil e vai continuar sendo. Acho que quem vai usufruir de nossa luta diária vai ser a próxima geração, devido a muito trabalho, a realmente fazermos isso com tanta dignidade, amor e talento. A gente vem conquistando nosso espaço, sabendo que ainda falta muito a fazer. Estamos construindo tijolo por tijolo, abrindo portas e conquistando os objetivos, mesmo sabendo que ainda é muito pouco.

Muito se tem falado de preconceito racial e de cor. Algo que infelizmente acontece a todo instante. Como combater isso? O que cada um pode fazer para mudar esse pensamento atrasado? Muito se fala, muito acontece, a todo tempo, racismo no Brasil existe desde que o Brasil é Brasil. Cadeia, acho que isso é o que combate. Caráter não tem como mudar, é da pessoa, então tem que ser levado muito a sério. Ainda assim, para o futuro sou otimista, acredito no coração bom. 

Michel, analisando toda a sua trajetória até aqui… Quais as barreiras mais difíceis que você enfrentou? Minha trajetória até aqui tem sido como a de muitos brasileiros. Muita luta, perseverança e fé. A gente não sabe como ter acesso, como se aproximar, parece que é mais distante do que a gente imagina. Então lutar, lutar, lutar, acreditar, e ir atrás de nossos sonhos. Apareceram alguns anjos na minha vida, me indicando pra testes, mas era difícil, muito difícil. Eu venho de uma favela do Rio de Janeiro, todo mundo sabe que o preconceito é sempre maior na quebrada. Passei por muita coisa lá – é difícil o governo entrar e já olhar pra sua cara como se você fosse um marginal, alguém que não tem esperança nem futuro na vida. Mas pelo contrário, tive uma base familiar, tenho uma estrutura muito forte, pessoas guerreiras que sempre acreditam, são meus exemplos.

Pra relaxar entre um trabalho e outro o que curte? Onde recarrega as baterias? Gosto de estar perto da minha família, das pessoas que amo, próximo à natureza. Gosto de ficar em casa também, comigo mesmo, relaxando. Com a mente boa e o coração leve.

O que curte ler, ver e ouvir? Minha raiz sempre foi funk, pagode e samba. Mas sou bem eclético hoje em dia, gosto de MPB também. Resumindo – música boa.

Já tem planos para depois da novela? O que vem por aí? No momento estou envolvido só com a novela, que consome muito tempo, a rotina é bem puxada. Trabalho nas gravações e quando chego em casa, tenho muito texto pra decorar. Mas dia 26 de setembro estreou no HBO e HBO Max a minissérie O Hóspede Americano,sobre a visita de Theodore Roosevelt ao Brasil, e estou no elenco. E tem também o filme O Novelo, que foi exibido em agosto no Festival de Cinema de Gramado e foi eleito o melhor filme pelo júri popular, e deve estrear em breve no cinema.

Fotos Márcio Farias

Styling Samantha Szczerb

Agradecimentos Le Chateaux Joá

Michel usa: Eduardo Guinle, Foxton, Segheto, Amil Confecções, Raphael Steffens