Da infância tranquila em Setúbal, sua cidade natal em Portugal, aos holofotes da fama, hoje em dia existe uma longa trajetória que levou Paulo Rocha ao estrelato. Cria do teatro, fez sua estreia no icônico Teatro Nacional, em Lisboa, e de lá partiu para novos desafios. Onde o maior deles foi atravessar o oceano e se mudar para o Brasil aos 33 anos para começar a carreira em novas terras. Hoje aos 44 anos, Paulo virou figurinha fácil em novelas e séries na TV Globo, perdeu o sotaque, achou o amor da sua vida e teve um filho. Mais carioca que muito nativo, o Paulo de hoje se divide entre os dois países onde recentemente fez uma novela e uma séria em Portugal, e se prepara para novos projetos no Brasil. Ano passado, em meio a pandemia, a MENSCH conversou com Paulo, que tinha suspendido todos os compromissos de trabalho e foi com a família para Portugal. Agora renovado e cheio de planos, conversamos novamente com ele para saber um pouco de tudo lá de trás, de hoje e do que vem por aí.

Paulo, ano passado conversamos sobre os novos rumos de sua carreira. Você teve um projeto na Globo adiado e iria para Portugal para um novo trabalho em sua terra natal. Como foi participar desse projeto (Amor, Amor)? Foi muito legal, mas eu não queria individualizar o projeto Amor, Amor porque na verdade eu terminei fazendo dois projetos, o Amor, Amor e o Rainha Bastarda que é um seriado que deve estrear em Portugal e no qual eu fui protagonista, que deve estrear agora em dezembro, seriado medieval. Enfim, esses dois projetos foram bem interessantes por razões diferentes, por destinos diferentes, mas foi divertido.

E agora que as coisas normalizaram mais, como anda os projetos aqui no Brasil? Algo que possa nos adiantar? Nesse momento, eu estou me preparando para participar de uma serie para streaming, dirigido pela Vera Egito, para a Star Plus. Um personagem bastante interessante e é isso, nesse momento preciso, que a gente pode conversar sobre.

Como foi voltar a trabalhar em Portugal? Que novas alegrias e desafios te trouxe? Ah foi muito interessante, sobretudo para rever pessoas com as quais trabalhava, eu já não via há muito tempo. Algumas delas, que eram pessoas que estavam começando quando eu sai e agora são atores considerados. E ver essa trajetória e como isso mudou, é muito interessante. Foi muito legal.  

Indo para suas origens, que recordações guarda da infância em Setúbal? As recordações que eu guardo da infância é que a coisa mais interessante era realmente a liberdade com que eu me movimentava. Hoje em dia, isso se tornou mais complicado. Setúbal é uma cidade considerada calma, pacífica. Eu ia para a escola aos seis anos, caminhando, e voltava, brincava de noite na rua. Então eram essas coisas de uma cidade não muito cosmopolita, essas liberdades. Acho que isso, são as coisas mais felizes que eu guardo.

Seu ponto de partida como ator foi na Escola Profissional de Teatro de Cascais, de 1994 a 1996, onde por sinal, você fez sua grande estreia como ator profissional na peça Crime da Aldeia Velha, de Bernardo Santareno, no Teatro Nacional D. Maria II. Essa estreia te marcou de que forma? Olha, essa estreia pra mim, foi edificante. Em primeiro lugar, porque foi no Teatro Nacional. Enfim, o teatro de referência do país. Com um diretor, Carlos Aveles, que era meu professor na época também. E essa esteia me marcou porque eu lembro que já tinha assistido algumas peças, alguns espetáculos na sala do Teatro nacional, e sempre tive a vontade, e ambição de estrear lá. E isso acabou acontecendo e eu lembro que no primeiro ensaio, eu fui o primeiro a chegar. Foi a primeira vez que eu tive a perspectiva de olhar para a plateia, ou seja, a perspectiva da sala do palco. Eu caminhei para o centro da sala, estava sozinho, o palco estava aberto, vazio, as cadeiras do ensaio estavam na lateral e durante uns dois ou três minutos, eu consegui ter o Teatro Nacional só pra mim. Literalmente, porque não tinha mais ninguém nem na plateia e nem no proscênio. Aí, foi uma sensação muito legal.

Aliás, o teatro é o responsável por sua formação como ator. Que benefícios e ensinamentos o teatro te trouxe que você tem aplicado ao longo de sua carreira? Na verdade, eu me formei na escola de teatro, né? E eu acho que em relação aos benefícios e ensinamentos, eu tive a oportunidade de trabalhar com grande atores do teatro português que me foram passando uma série de perspectivas e visões sobre a profissão, o senso de disciplina, dedicação. Todas essas coisas acabaram transpirando para todos os trabalhos que eu faço como ator, independentemente de ser teatro, TV ou cinema. Enfim, acho que os princípios básicos foram passados através do teatro, sim.

Existe diferença entre fazer sucesso em Portugal e sucesso no Brasil? O que cada lugar acrescentou a você? São países de dimensões diferentes, de relações com a ficção diferentes e a própria profissão do ator, diferentes né? Mas julgo que como o Brasil é um país com uma dimensão continental e com uma influência, uma presença muito forte dos atores nacionais, por conta da TV Globo e outras produções, e de um histórico maior, mais longo né? A ficção portuguesa é um fenômeno com 30 anos. Recorrentemente, no imaginário do público brasileiro, os atores ocupam talvez um lugar de maior presença, do que em Portugal, mas fazer sucesso de um lado e do outro é incrível porque cada lugar acrescentou em mim… Portugal foi minha casa até os 33 anos, e o Brasil tem sido minha casa nessa última década. Acho que o Brasil muito claramente, deu um colorido a minha vida. O Brasil trouxe uma perspectiva maior, diferente do que eu tinha em Portugal. E Portugal foi o lugar onde eu cresci artística e profissionalmente, rodeado de grandes profissionais.

Ainda falando em trabalho, desde o ano passado você não sai da TV. Agora está com o personagem Orville, na novela Império. Tem se assistido dessa vez? Como está sendo revê-lo? Pois é, (risos) tem sido… essas reprises têm me mantido bastante presente na memória do telespectador brasileiro. É verdade, agora estou com o Orville da novela Império, que está terminando também. Tenho me assistido um pouco, é interessante, isso aconteceu ano passado com o Guaracy, com o Avilez e com o Dino. Que à medida que a gente vai se distanciando dos personagens, o envolvimento afetivo, que às vezes é moldado por uma expectativa. Então, quando há um distanciamento, a gente consegue analisar, consegue ser menos crítico. Talvez porque agora não seja o momento de se fazer grandes críticas. Então, a gente consegue uma análise, talvez, mais isenta. E gosto mais do resultado final do Orville agora, do que gostei quando terminei a novela. Mas isso são os atores, nós somos todos um pouco assim.

Ao fixar residência no Rio, o que você trouxe dos costumes portugueses para se manter fiel às suas origens? Quando vim para o Brasil, eu não tinha pensado em me fixar aqui, mas quando isso mudou, eu julgo que não me preocupei muito com os costumes portugueses para me manter fiel. Porque na verdade, eu encaro muito isso como o processo, é o processo da mudança do sotaque, o processo de me ajustar, me adaptar. Então, acho que é mais interessante eu procurar e conhecer, interiorizar alguns costumes brasileiro e dessa forma também ficar mais próximo, para poder me comunicar melhor, ficar mais próximo do público brasileiro.

A culinária portuguesa é rica e os doces são divinos. Você chega a se arriscar na cozinha? Me arrisco na cozinha, sim. Mas na verdade eu não me arrisco tanto em doces, apesar de gostar de alguns doces. Ai eu faço as coisas mais tradicionais, o tradicional bacalhau. Cozinho algumas coisas quando tenho tempo, como um peixe ao sal grosso. Enfim, tem algumas coisas que eu gosto de fazer, sim. Eu acho que, alimentar alguém, quando digo alimentar é no sentido de parar e preparar uma refeição, para receber alguém em sua casa, é um dos gestos de amor mais calorosos que existe.

Paulo, você parece ter um estilo mais discreto e básico. É um cara vaidoso? Do que não abre mão? Eu acho que sim, acho que concordo. (risos) Acabo por concordar. Acredito que sim, que sou um cara vaidoso, que tenho uma dose saudável de vaidade. Talvez um acréscimo de cuidado por conta da minha profissão, né? Do que não abro mão, bem não sei…eu não abro mão de tomar banho! (risos)

Passado o pior dessa pandemia, o que mais sentiu saudades que pôde fazer? Do que mais senti falta que agora é possível fazer, é estar com as pessoas que eu gosto, que eu amo. Tive muita sorte de ter ficado muito próximo da minha família. Primeiro, aqui no confinamento. Depois, quando fui para Portugal. Consegui ver um pouco o meu pai, poder estar com as pessoas livremente. Se bem que agora, talvez, a gente não consiga fazer isso, mas gradativamente, buscar estar de novo com as pessoas. Sentir esse calor humano que é fundamental. É isso.

E para relaxar, o que faz sua cabeça? Acho que o que faz minha cabeça, é direcionar o meu olhar para minha mulher, para meu filho e perceber como a vida é tão simples. Talvez a gente precise de muito menos do que a gente acha que precisa. E talvez, a gente tenha muito mais do que aquilo que gente acha que não tem. E olhar para eles e perceber como eu sou um homem de sorte.

Fotos Márcio Farias

Styling Samantha Szczerb

Beleza Daianne Martins

Agradecimentos Rio Othon Hotel (locação)

Paulo usou Edu Bogosian, Eduardo Guinle, Reserva, Amil Confecções