ESTRELAS: ALINE DIAS & DANDARA ALBUQUERQUE

Dose dupla de beleza e talento na nossa capa com essas duas mulheres incríveis. Aline Dias, que recentemente esteve na novela “Salve-se Quem Puder”, e Dandara Albuquerque, que deu o que falar com sua personagem em “Gênesis”. Ambas de volta à MENSCH e num ensaio que realça ainda mais a beleza negra. Conversamos um pouco com as duas juntas e separadas para saber um pouco mais desse momento atual e perspectiva de futuro.

Vocês já chegaram a trabalhar juntas? Onde e quando se conheceram? Nos conhecemos na época em que trabalhávamos como modelo. Nos encontramos muitas vezes na fila de espera de testes de publicidade e começamos a torcer uma pela outra. Ainda não tivemos a oportunidade de atuar juntas, mas seria um enorme prazer, pois além do carinho e admiração recíprocos, temos o mesmo compromisso com a Arte e sabemos da importância de mulheres negras se apoiarem. 

O que procuram como atriz? Qual o barato dessa profissão? O ator precisa estar sempre em movimento, estudando novos métodos e se descobrindo. O barato dessa profissão é viver novos desafios a cada trabalho, saber se reinventar, conciliar a responsabilidade da profissão e ao mesmo tempo conseguir se divertir com o que faz. Acreditamos também na função social da Arte. Nosso ofício nos dá a oportunidade de provocar reflexões importantes sobre temas que precisam ser discutidos pela sociedade. Ser agente de transformação e ter nosso trabalho como instrumento de mudança também, é nossa missão.

Mais glórias ou ilusões ao longo da trajetória de vocês até aqui? Que momentos destacariam? DANDARA – Eu diria “glórias”, mas não porque deu tudo certo no meu caminho até aqui, mas porque acredito que até o que deu errado me serviu de aprendizado e me fortaleceu ainda mais, para continuar minha jornada. Acho que o grande desafio é manter os pés no chão sempre. Não se iludir com a fama nem desistir após as derrotas. Eu comecei a minha carreira relativamente tarde. Abandonei o Direito e somente em 2016 retomei meu sonho de estudar Artes Cênicas. Em 2018, consegui meu primeiro papel na novela Espelho da Vida, e considero essa uma grande vitória, pois foi a confirmação de que eu tinha feito a escolha certa, ao mudar de profissão. Em 2020, eu estava escalada para um novo projeto que infelizmente não aconteceu por conta da pandemia. Mas neste ano, recebi o convite para viver a Neferíades na novela Gênesis, papel de destaque e com grande responsabilidade. Isso tudo só me fez reafirmar ainda mais o meu amor por minha profissão. E quando amamos o que fazemos, nosso compromisso é sempre seguir em frente. 

ALINE – Acredito que nossa profissão nos leva para os lugares que deveríamos estar naquele momento. O que é pra ser, será! Claro que muitas coisas dependem da sua dedicação, de seu comprometimento. Mas outras, simplesmente não eram pra ser. Já fiz muitos testes onde não tive a reposta positiva pra aquele papel específico, mas ao mesmo tempo, me fez ficar livre pra buscar outros que aconteceram. O que é seu chega até você! O momento que eu destaco foi quando recebi a resposta pra protagonizar Malhação como a Joana!  Tive uma resposta de Deus naquele momento, depois de uma fase difícil como artista.

Tudo vale a pena por uma personagem? Existe algum limite ou tabu? Nosso ofício exige entrega e dedicação. Interpretar uma personagem é sempre uma aventura e superar os desafios, nosso objetivo. Mas como em qualquer outra profissão, é preciso estabelecer limites. Profissionalismo e respeito são premissas essenciais. E também é importante criar uma relação de confiança com toda a equipe envolvida, para que um trabalho flua bem. Tivemos a sorte de encontrar profissionais competentes, responsáveis e comprometidos com a Arte ao longo do caminho e somos gratas, por essas oportunidades.

Hoje se fala muito do empoderamento feminino negro. Como vocês enxergam isso e como toca vocês? É fundamental falar sobre esse assunto já que mulheres negras são atravessadas não só pelo machismo, mas também pelo racismo existente em nossa sociedade. Algo que eu e Aline compartilhamos em nossa história de vida, é o resgate de nossas raízes. Uma das formas em que o racismo estrutural afeta pessoas negras é através do processo de embranquecimento e apagamento nossas origens e identidades. Crescemos ouvindo coisas do tipo “Vocês não são tão negras assim. Vocês são morena jambo, mulata da cor do pecado. Vocês têm traços finos e beleza exótica.” E aqui também é importante pontuar que além de racistas, essas afirmações ignoram a discussão sobre “colorismo”. 

Depois do nosso processo de conscientização racial e reafirmação de nossa negritude, ambas passamos pela transição capilar. Conseguir enxergar a beleza de nosso cachos e experimentar se amar ao natural, é libertador. É importante sabermos de onde viemos, para conquistar o mundo sem medo. Uma mulher preta que honra sua ancestralidade, nunca mais estará sozinha. Somos um elo, as ancestrais do amanhã. Encontramos na sororidade, fonte de força e assim nos tornamos potentes para alcançar poder econômico, social e também receber afeto. Como cita Angela Davis “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.

O que os homens precisam aprender com as mulheres ainda hoje? Os homens precisam entender que combater o machismo é uma luta da qual também devem fazer parte, pois a masculinidade tóxica não afeta somente as mulheres. Desconstruir esse modelo de sociedade pautado no patriarcado e na misoginia é urgente, já que essa estrutura é nociva para todos nós. 

E o que inspira vocês? Ver outros artistas negros conquistando espaços e alcançando lugares de destaque na profissão e na sociedade, é algo que nos inspira, nos faz vibrar e nos incentiva a continuar acreditando na realização de nossos sonhos. 

Qual o limite da vaidade (como atriz e mulher)? Como atrizes, acreditamos ser fundamental trabalhar o desapego do ego e da vaidade. Precisamos estar disponíveis para contar boas histórias. Nossa aparência está a serviço do universo de cada personagem e poder se transformar. A cada trabalho, é uma experiência maravilhosa. Como mulheres, acreditamos que os limites da vaidade são individuais, mas nunca devem ultrapassar a fronteira do que é saudável. Durante muito tempo, sofremos com a pressão de ter que alcançar um padrão estético opressor de beleza, de corpo perfeito. E isso nos adoeceu. Autoamor e autocuidado são um processos de cura. Reconhecemos que a beleza está, justamente, na diversidade e na riqueza de ter orgulho de ser quem se é.

PARA ALINE

Aline, seu trabalho mais recente foi em Salve-se Quem Puder, com a personagem Úrsula. Que começou meio vilãzinha e foi se redimindo. Como foi a experiência? Úrsula foi um personagem muito necessário nos tempos de hoje pra falarmos da dependência química, de ansiolíticos. Cheguei à conclusão que ela não era uma má pessoa! Estava descontrolada com a perda do namorado e da única família que a acolhia. Foi uma papel que me fez olhar com mais afeto para todas as pessoas que sofrem com depressão e ansiedade! Recebia tantas mensagens, tantos depoimentos! De fato, foi uma experiência inesquecível pra minha vida.

A personagem trazia alguns temas a serem debatidos, como a dependência de remédios e o descontrole emocional. Como isso te tocou? Alguma preparação para encarar essas particularidades da personagem? Completando a primeira pergunta – me tocou muito sim! Conheci pessoas ao longo dessa novela que passavam pelas mesmas coisas que a Úrsula. Li muito sobre o tema, trocava informações! Nada melhor do que você trocar informações com quem realmente vive esse mal do século.

Como foi começar a gravar, parar por conta da pandemia e retomar depois? Um trabalho bem mais longo e fora do convencional. Como foi para você essa parada e retorno? A gente estava no auge da gravação, todo mundo super empolgado, iniciando mais um trabalho. Foi um choque muito grande, porém necessário naquele momento. Ninguém sabia o que estava acontecendo no mundo. Foi uma felicidade única quando retornamos à gravação, parecia que estávamos anos sem gravar. Mas sempre atentos ao outro, aos protocolos e com um nervosinho. Era tudo novo! Não tínhamos mais uma equipe enorme! Era uma equipe reduzida. A gente que se caracterizava para o personagem! Foi muito estranho no início não ter contatos, não entrar no camarim fazendo festa, (risos). Mas era admirável cada cuidado com cada funcionário ali dentro. O suporte foi imprescindível!

Depois de uma sequência de trabalhos na TV você deu uma parada por conta da gravidez. O quanto essa parada foi importante para você? Sentiu dificuldade para voltar à rotina de gravação? Gravei Malhação até o meu quarto mês de gravidez. Depois realmente fiquei curtindo e esperando meu bebê chegar! Tudo tem o seu tempo e não pensei em trabalhos, na época. Mas assim que ele nasceu e completou 4 meses, eu já queria voltar a minha rotina logo e foi onde fiz O Tempo não Para. Estava com muita saudade. E não senti dificuldade nenhuma em voltar a gravar. Tive uma rede de apoio maravilhosa pra cuidar de meu filho, enquanto eu estava trabalhando! 

Com o fim da novela algum projeto futuro? Acabei de gravar uma série que foi o pilar da minha carreira, sobre feminicídio! Estou em êxtase até agora. Ano que vem, estará no ar e espero que curtam, porque é um projeto necessário, forte e muito emocionante.

PARA DANDARA

Dandara, você acabou de participar da novela Gênesis com um papel bem marcante. Como foi para você dar vida a Neferíades? Foi um processo intenso que me exigiu maturidade profissional e emocional para lidar com inúmeros desafios. Desde uma rotina puxada de gravações, até ter que lidar com a reação do público que acompanhou cada passo dessa personagem na trama. Para dar vida a Neferíades precisei fazer uma vasta investigação sobre a psique humana e também um mergulho profundo em autoconhecimento. Quando entendi sua complexidade, sua dimensão na história e a responsabilidade que teria de assumir para desempenhar esse papel, senti um misto de alegria e ansiedade. Acho que a expressão “rindo de nervoso” me define muito bem durante todo esse processo. Foram meses de dedicação integral e estudos que acredito terem valido muito a pena. Sou muito grata por essa oportunidade e por todo aprendizado que ela me trouxe.    

Por sinal a personagem aprontou todas e teve uma morte trágica. Como avalia a trajetória dela? Tinha como defender essa personagem tão cheia de defeitos? Embora eu não concorde com algumas atitudes da Neferiades, meu trabalho como atriz é justamente defender o ponto de vista da minha personagem e contar sua história com entrega e verdade. Fiz o exercício de buscar construir uma vilã com defeitos, mas também com qualidades, vulnerabilidades e fragilidades. Para assim, enriquecer minha interpretação e conseguir provocar diversas sensações no público. Neferíades é uma mulher intensa cujo objetivo é se sentir amada, acolhida e desejada. Seus maiores medos são a solidão, abandono e rejeição. Ao mesmo tempo em que ela usa de seu poder, status social e da sedução para conseguir o que quer; também enfrenta a carência afetiva, o vazio existencial, a insatisfação com seu casamento, a frustração por não ter suas necessidades emocionais e sexuais atendidas, entre outras feridas.
E ao se deparar com essa dolorosa realidade, chega até as últimas consequências.

Sobre sua trajetória, embora a trama esteja inserida em um contexto histórico, precisamos refletir sobre o fato de que mulheres condenadas por adultério podiam receber castigos, como mutilação ou execução, a mando do marido traído. Infelizmente ainda nos dias atuais, mulheres seguem sendo vitimas de violência doméstica e feminicídio em diversos lugares do mundo, o que é inaceitável e fruto de uma sociedade que precisa urgentemente combater o machismo e patriarcado. Estou feliz por conseguir através do meu trabalho levantar reflexões importantes que estão sendo bem recebidas pelo público. Tudo isso fez a experiência de interpretar essa complexa personagem ser marcante em minha trajetória.

Você teve alguma oficina para compor a Neferíades? Qual o desafio nisso tudo? Foi um trabalho coletivo. Em meu processo de pesquisa, me inspirei nas mulheres dos filmes: “Medéia” com Kirsten Olesen, “Cleópatra” com Elizabeth Taylor, “O Diabo veste Prada” com Meryl streep, “Assédio Sexual” com Demi Moore, entre outras. Para me aprofundar na história da personagem, estudei com a coaching Marina Rigueira. Como gosto de dançar, aproveitei as aulas de Stiletto com Andrey Fellipy para explorar minha sensualidade e trabalhar postura corporal. E durante as gravações, fui acompanhada por alguns dos preparadores da emissora. Compor uma personagem é um processo árduo e realizar um trabalho durante a pandemia tornou tudo ainda mais desafiador. Estou feliz que tenha dado tudo certo e satisfeita com o resultado.

Agora com mais tempo livre, o que curte para relaxar? Depois da maratona de gravações, senti muita necessidade de descansar e investir em autocuidado. A natureza segue sendo meu refúgio preferido e nada melhor do que um mergulho no mar ou um banho de cachoeira, para renovar as energias. Para relaxar, tenho gostado de assistir filmes, séries, ler e continuo acompanhando a novela no ar.  Acordar, tomar um café gostoso ouvindo uma boa música também têm sido uma prática constante em minha rotina. Além de passar mais tempo com meus amigos e família, já que quase não os vi durante o tempo em que estive focada no trabalho. 

Depois desse trabalho, como andam os projetos futuros? Alguma novidade que possa nos adiantar? Por enquanto. Ainda não tenho um novo projeto em vista. Estou aproveitando esse intervalo para assimilar todo aprendizado adquirido com essa experiência. Pretendo estudar para aprimorar minha interpretação e me aperfeiçoar ainda mais. Quando o próximo desafio chegar, será muito bem-vindo.

Fotos Priscila Nicheli

Styling Samantha Szczerb

Beleza Tito Vidal

Agradecimentos Lybethras, Poema Hit, 613, Segheto, Gucci e Cecconello