Vinda de uma família tradicionalmente de campeões no Jiu-Jitsu, Kyra Gracie não tem como negar suas raízes. Porém a tradição de que só os homens poderiam competir e ser campeões foi uma das barreiras que Kyra teve que enfrentar no início da sua trajetória como atleta. “Fui a primeira mulher da família que seguiu esse caminho de forma profissional. Até então, o Jiu-Jitsu não era o lugar de mulher”, comenta ela. Pois é, quem disse que esse esporte não é para mulheres também? Ela veio, se impôs e venceu, não só no tatame, mas no preconceito. Casada com o ator Malvino Salvador, que super a apoia, Kyra se vê plenamente realizada ao lado de suas filhas e suas vitórias pelo mundo, ela é pentacampeã mundial de Jiu-Jitsu, tricampeã do ADCC, atua também como comentarista esportiva e apresentadora em canais de esporte. Aqui na MENSCH a bela posou no Hotel Sheraton Grand Rio Hotel & Resort e mostrou que é fera também nas fotos.

Kyra, ser lutadora de Jiu-Jitsu foi uma consequência ou um objetivo por conta da tradição familiar? Acredito que foi uma escolha muito natural. O esporte sempre esteve na minha vida e, desde cedo, eu me apaixonei pelo Jiu-Jitsu. E acabou que se tornou o meu foco profissional. É claro que existe uma influência familiar de certa forma, porque o Jiu-Jitsu faz parte da nossa história, do nosso dia a dia mas as mulheres não podiam lutar quando eu comecei. Eu fui a primeira da família a conquistar a faixa preta.

Como e quando percebeu que o esporte era o que você queria para a vida? Sofreu preconceito por ser mulher? Desde muito cedo eu percebi que queria seguir esse caminho, lembro que aos 14,15 anos eu já tinha o sonho de viver do esporte. E sim, sofri preconceito. Dentro e fora da família. As pessoas acham que eu tive todo o apoio familiar, mas não. Tínhamos uma tradição de homens no esporte. Fui a primeira mulher da família que seguiu esse caminho de forma profissional. Até então, o Jiu-Jitsu não era o lugar de mulher. E existia muito preconceito. Ainda existe. Muitos campeonatos em que eu participei, as mulheres não lutavam no tatame principal. Era um tatame que ficava no canto, sem visibilidade. A premiação para mulheres era infinitamente menor do que a dos homens. Eu tenho muita história. Cada dificuldade eu trouxe como um incentivo para seguir em frente e hoje conto em minhas palestras.

O sobrenome traz um peso maior no seu caso? Onde já ajudou e onde já atrapalhou? Olha, eu acho que hoje ele tenha uma peso maior. Lá atrás, talvez criasse uma expectativa nos outros. Como eu disse, meu caminho não foi mais fácil por causa da minha família, ninguém ganha campeonatos pelo sobrenome. Eu tive que provar o meu valor para eles, provar que uma mulher poderia ser vencedora no esporte. Hoje eles têm o maior orgulho. E eu fico feliz por isso, mas não tive facilidades.

Que ensinamentos familiares você leva pra vida e pro esporte? Todos os ensinamentos. É uma escola de valores. Aprendi muito com a minha família. E aprendi muito com o esporte, dentro e fora dos tatames. E, às vezes, esses ensinamentos se misturam, porque esporte e família é algo muito próximo no meu caso. Aprendi a respeitar o próximo, a ser disciplinada, a ter foco, a ter um convívio social legal com as pessoas próximas, ser humilde e persistente. E isso veio tanto da família quanto do esporte.

Dizer que mulher é sexo frágil já é algo ultrapassado faz tempo. E no seu caso então… Mas existe algo que a mulher leve desvantagem fisicamente? Se sim, como contornar isso? Mulher é muito forte. Muito mesmo. Somos capazes de fazer tudo o que desejamos, temos que acreditar no nosso poder. Fisicamente existe uma desvantagem nos esportes em geral mas podemos compensar com a técnica.

Já teve que dá algum corretivo em algum homem no dia a dia? Já, claro! Uma vez, quando mais nova, numa balada. Dei um corte na hora. É muito importante saber se defender, saber o seu espaço, não podemos controlar as atitudes das pessoas e infelizmente existem muitas agressivas e sem controle emocional, por isso não podemos ficar vulneráveis. Faço palestras e dou aulas em que falo sobre autodefesa para mulheres. Ajudo a identificar situações de risco, a se defenderem. Aliás, esse é um trabalho que eu amo.

Você e Malvino “brigam” muito? Como a luta une vocês? Não mesmo. Não somos de brigar. A gente resolve tudo no diálogo, na conversa. E tem uma coisa, nós somos muito parecidos. Temos uma forma de pensar semelhante demais. Agora, a gente treina Jiu-Jitsu junto. Ele também pratica Jiu-Jitsu, temos uma escola juntos, um projeto nosso. A luta, o esporte, é algo que faz parte do nosso dia a dia. Temos um projeto de vida em comum e nossas filhas amam Jiu-Jitsu.

Como ser delicada sem ser frágil e como ser forte sem ser rude? Eu acho muito ruim dizer para as pessoas como elas têm que ser, sabe?! Acho que você pode ser delicada e ser frágil também. Não tem problema. Cada um pode ser o que quiser. Só rude é que não precisa (risos). Fragilidade é do ser humano. A gente vai amadurecendo ao longo da vida, descobrindo nossos pontos fortes, nossos limites. Acho que o segredo está aí. Você valorizar as qualidades que tem, isso te fortalece.

Você e Malvino são de universos bem diferentes. Como administrar isso? Alguma vez isso pesou? De universos diferentes, mas muito parecidos ao mesmo tempo. Somos ligados à família, ao esporte, à alimentação saudável… é um sintonia fora do comum mesmo. E nossas diferenças, poucas (risos), elas nos equilibram.

Já teve vontade de dar umas porradas em algum fã mais afoita? (risos) Não, nunca. O Jiu-Jitsu, o esporte, ele não existe com esse objetivo. Isso é algo que ensino aos meus alunos da Gracie Kore, inclusive. A luta te ensina resiliência, paciência, autoconhecimento e principalmente autocontrole. Muita coisa. Respeito bastante as fãs do Malvino. Tenho esse entendimento do trabalho dele.

Quando sai a atleta e entra a mulher, onde mora sua vaidade? Do que não abre mão? Eu gosto de cuidar de mim, de me sentir bonita. Tenho isso forte. Não existe uma chave que separa uma da outra, sabe?! Tenho meus cremes, vou ao dermatologista, gosta de usar uma roupa mais bonita parta uma ocasião especial. Mas é tudo com muito tranquilo.

Mãe de duas filhas, o que tenta passar para elas? Estimula a luta em casa também? Eu quero que elas saibam se defender. Isso é algo que eu acho muito importante. E que elas saibam que podem falar qualquer coisa com os pais. Diálogo é muito importante. E defender, não estou dizendo fisicamente apenas, mas de palavras e comportamentos. Nós estimulamos o esporte, não a luta por luta. Elas fazem Jiu-Jitsu lá na escola, mas porque gostam e quiseram.

O que homens e mulheres precisam aprender juntos nos dias de hoje? Nossa! Muita coisa, né! Precisamos de mais empatia, de mais respeito ao próximo. Precisamos não ficar tanto na retaguarda também! E os homens precisam respeitar mais as mulheres. Vejo muitas críticas ao feminismo e até uma banalização quando falam, como se fosse a coisa mais absurda do mundo. E não. Não é. É sobre igualdade, direitos iguais. A mulher não quer roubar o lugar do homem. Não é isso. Só queremos equidade. Por que ter um salário menor se fazemos o mesmo trabalho que um homem? Por que o prêmio de uma luta para mulher é dois e para o homem 50? Por que o meu tatame lá atrás era um que ficava no canto do evento? É apenas o que é justo. Feminismo também luta para que homens tenham licença paternidade maior, porque é justo. Mas temos muito o que aprender ainda.

Para conquistar Kyra basta… Ser verdadeiro sempre. A verdade é algo que eu admiro. Eu sou muito transparente.

Fotos Dessa Pires

Styling Samantha Szczerb

Beleza Walter Lobato

Agradecimento Poema Hit, Duloren, J´adore Luxe, Hotel Sheraton Grand Rio Hotel & Resort