SAÚDE: O CUSTO DO EMAGRECIMENTO MODERNO

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Por Sávio Cardoso

Nos últimos anos, houve grandes mudanças na forma como lidamos com o peso corporal. Emagrecer, que por décadas foi um processo difícil, frustrante e muitas vezes inconsistente, passou a ser algo mais frequente. Medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida abriram uma nova possibilidade para milhões de pessoas que, até então, não conseguiam resultados significativos. Isso representa, sem dúvida, um avanço importante. Não há como negar.

Mas, toda mudança rápida traz, em conjunto, pontos cegos. E existe um aspecto desse novo modelo de emagrecimento que ainda está sendo pouco discutido — talvez porque os resultados visuais sejam rápidos demais para permitir uma análise mais crítica. A pergunta que quase ninguém faz é simples: o que, exatamente, estamos perdendo quando perdemos peso? Porque nem todo emagrecimento é sinônimo de melhora de saúde. E, em muitos casos, o corpo está pagando um preço silencioso que não aparece no espelho e nem na balança comum. Quando alguém emagrece, especialmente com o uso dessas medicações, uma parte relevante do peso perdido não é gordura. Estimativas mostram que cerca de 20% a 30% pode ser massa muscular. E esse detalhe, que costuma passar despercebido, muda completamente a interpretação do resultado.

Músculo não é apenas estrutura. É função. Ele tem função estrutural, influencia no metabolismo, auxilia na estabilidade da glicose e contribui para níveis adequados de energia ao longo do dia e que protege o corpo contra o envelhecimento precoce. Mais do que isso, já sabemos que existe uma relação direta entre massa muscular e desempenho cognitivo. A perda de músculo, ao longo do tempo, está associada à piora de memória, redução da capacidade de concentração e declínio na velocidade de processamento mental.

Ou seja, o impacto da perda muscular não é apenas físico. Ele é sistêmico. E, ainda assim, esse é um ponto que raramente entra na conversa quando o foco está exclusivamente na perda de medidas e na redução de peso. O problema, é importante deixar claro, não está nos medicamentos. Eles são ferramentas extremamente valiosas quando bem indicadas, acompanhadas e utilizadas dentro de um contexto adequado. O problema está na forma como as pessoas começam a se relacionar com essas ferramentas. Na prática clínica, o que se observa com frequência é um padrão relativamente previsível. A pessoa passa a comer menos, porque a medicação reduz o apetite. Mas não necessariamente melhora a qualidade da alimentação. A ingestão de proteína, essencial para a preservação da massa muscular, muitas vezes fica abaixo do ideal. Paralelamente, há uma redução no estímulo de força, seja por diminuição do treino, seja por queda de energia ou motivação.

EMAGRECER X EM FORMA

O resultado é um emagrecimento que acontece, mas que não constrói um corpo mais forte. Pelo contrário, muitas vezes leva a um corpo mais leve, porém mais frágil e menos longevo. E isso gera uma ilusão perigosa. Porque o reforço visual é imediato. A roupa passa a servir melhor, o espelho responde rapidamente, o peso diminui. Tudo isso cria a sensação de que a saúde está sendo restaurada na mesma proporção.

Nem sempre está. Estamos, aos poucos, entrando em uma lógica em que a responsabilidade pela saúde começa a ser transferida para a tecnologia. Como se o medicamento fosse capaz de resolver, sozinho, aquilo que sempre dependeu de comportamento, disciplina e consistência. E esse movimento tende a se intensificar. Novas drogas estão em desenvolvimento, como a Retatrutida, que atua em mais mecanismos e apresenta resultados ainda mais expressivos na redução de gordura. Além disso, novas moléculas já estão sendo estudadas com 0 propósito de promover a perda de gordura, mas preservando melhor a massa muscular, ou até estimulando o seu ganho.

O futuro do emagrecimento será, sem dúvida, redesenhado com o auxílio desses medicamentos. Mas, isso levanta uma reflexão importante: estamos evoluindo junto com essas ferramentas ou estamos nos tornando dependentes delas? Porque existe uma diferença grande entre usar a tecnologia a seu favor e terceirizar completamente a responsabilidade sobre o próprio corpo. Outro ponto que merece atenção – é a busca por esses medicamentos antes mesmo de estarem aprovados para uso. A Retatrutida, por exemplo, ainda não possui aprovação formal de órgãos reguladores como a FDA ou a Anvisa, pelo fato de estar em fase de análise de segurança, mas mesmo assim já está sendo comercializada em mercados paralelos.

Nesse contexto, não há garantia sobre procedência, qualidade ou segurança. Não se sabe exatamente o que está sendo utilizado, nem em que condições foi produzido. A busca por resultados rápidos, nesse caso, ultrapassa o limite da prudência e entra no território do risco desnecessário. E essa urgência em querer utilizar o que ainda nem está aprovado, traz um sério risco que não combina com quem busca saúde de verdade. Emagrecer é necessário, mas a forma como esse processo acontece é o que define o impacto real sobre a saúde. O uso de medicamentos pode ser um divisor de águas, mas não substitui o básico bem feito. No final, a pergunta que fica não é quanto peso foi perdido. É o que está sendo preservado ou comprometido ao longo do caminho. Porque existe uma diferença silenciosa, mas decisiva, entre um corpo que apenas pesa menos e um corpo que está, de fato, mais preparado para envelhecer com qualidade e autonomia. E essa diferença, cedo ou tarde, deixará de ser invisível.