Thiago Fragoso é daquele tipo de pessoa que se fica amigo fácil diante da simplicidade e atenção que ele passa. Por isso não se surpreenda se ao final dessa entrevista você se sentir um pouco amigo do cara. Como se fosse um amigo pessoa de um bom tempo. Papo bom e forma simples de se mostrar dá pra entender essa fama que ele tem na TV de bom moço, até mesmo interpretando um vilão. Mas Thiago é um velho amigo nosso, foi nossa capa em 2013, e ficou um gostinho de quero mais. Que veio agora, num momento bem importante para ele que se prepara pra voltar à TV (novela “Salve-se Quem Puder” que estreia em janeiro na Globo), está participando de mais um filme e muito em breve lançará seu single. Ah, e acaba de completar 38 anos agora início do mês. 

Thiago, o tempo voa e já se vão 25 anos de carreira. Como você enxerga isso? O que ainda falta? (risos) Falta tudo! Esse tempo passa muito rápido. A primeira vez que eu subi no palco foi numa peça comemorativa do Dia do Folclore Brasileiro, em 22 de Agosto de 1989, se fôssemos contar daí seriam 30 anos, 2 meses e uns trocados. Uma das vantagens do trabalho do ator é que os personagens se desenvolvem junto contigo. Independente de sucessos e fracassos, ou personagens que marcaram, qualquer papel que eu revisitasse hoje seria diferente porque eu me modifiquei, também. Nessa perspectiva eu tenho todos os meus próximos personagens pra fazer, todos eles serão desafios e todos eles serão inéditos. O segredo é não deixar cair na burocracia. Estar vivo em cena é meu lema.

Teria como citar momentos marcantes para você ao longo dessa trajetória? Essa é sempre difícil de responder. Tive sorte e recebi muita confiança dos meus diretores e autores ao fazer personagens intensos, polêmicos, heroicos. Eu tenho muita gratidão por vários deles, mas destacaria o Niko (Amor à Vida), o Edgar (Lado a Lado) e o Marcio Hayala (O Astro)… Se bem que escolhendo só três já ficariam de lado O Profeta, A Casa das Sete Mulheres, O Clone, O Outro Lado do Paraíso… Acho que essa coisa de trabalhos marcantes ou preferidos funciona mesmo é na boca de quem assiste. Eu fico feliz quando recebo mensagens do público e cada pessoa tem seu personagem mais querido que veio num momento especial da sua vida. Isso é emocionante.

No geral você fez o bom moço. Acha que isso reflete sua personalidade? Talvez. Acho que reflete mais o meu temperamento do que minha essência. As pessoas costumam me dizer que eu pareço ser um cara calmo, por exemplo. Não tem nada a ver com minha essência, eu sou um turbilhão a qualquer hora do dia ou da noite, mas meu temperamento não transparece essa característica. Seja como for, eu não me baseio numa avaliação moral de um personagem quando mergulho nele. Se ele é bom ou mau a trama vai revelar. O importante pra mim é criar um personagem pulsante e tridimensional.

O que é mais desafiador e difícil para você como ator? O processo em si é desafiador. Sempre que começo um novo personagem é hora de respirar fundo e mergulhar no abismo. Encarar as próprias vulnerabilidades, entender por onde esse personagem vai ser mais exigente com você. Tem uma boa dose de angústia nessa parte e quanto mais profundo é o mergulho maior é a turbulência. Depois tudo se acalma, o personagem passa a fazer parte da sua família, praticamente, até que no fim da obra a gente passa por uma espécie de luto. Quando o personagem vai embora é uma despedida de verdade.

Onde habita a insegurança de um ator? E onde é o lugar mais “confortável”? A insegurança habita na vulnerabilidade. O ator se expõe por completo em seu trabalho. Se não aceitarmos e até mesmo, amarmos nossas vulnerabilidades ficaremos sempre fugindo de uma experiência mais visceral. O lugar do conforto é o lugar do domínio. É comum um ator comentar durante um trabalho: “já fiz essa cena mil vezes”. Provavelmente é uma cena ou situação confortável pra ele. O desafio é ver que uma cena é muito familiar, mas ainda assim descobrir uma forma original de passar por ela. A isso eu chamo “estar vivo” em cena.

Para você como é a construção de um novo personagem? O que te instiga nesse processo? O meu processo de ator não segue nenhum método específico. Apesar de já ter estudado várias escolas de interpretação, eu acho que a atuação contemporânea tem um forte elemento instintivo. Tenho algumas diretrizes quando começo o trabalho, mas nada aprisionante. Eu gosto muito de compor colaborativamente. O ator precisa ter a habilidade de ser sensibilizado pelas coisas. O trabalho da figurinista, da produção de arte, da cenografia, do produtor musical, do fotógrafo me dão dicas sobre esse personagem que vai surgindo. O ator pode se beneficiar de muito mais que somente os roteiros e a direção podem proporcionar. Eu também gosto muito de fazer as referências do personagem. Qual a cor favorita, qual a música que ele gosta, qual a música que ele é, se ele gosta de arte, se torce pra algum time, qual seu signo… É um quadro gigantesco que a gente pinta quando constrói um personagem.

Como está sendo esse momento com a aproximação de Nuno Máximo em “Salve-se Quem Puder”? O que podemos esperar desse novo trabalho? Na novela, faço um advogado viúvo com três filhos adotados (ele é estéril). Ele ama demais as crianças, mas, desde que perdeu a mulher, a casa desandou. Ele não consegue dar a atenção que eles merecem e eles não aceitam nenhuma babá porque encaram como uma tentativa de substituir a mãe. Em algum momento ele vai se apaixonar pela nova babá, vivida pela Vitória Estrada. Gostei muito desse personagem porque é uma pessoa profundamente envolvida no universo familiar e da paternidade, coisas que me são muito caras. É um elenco fantástico e estou animado para fazer minha primeira novela das 7! É divertido saber que dá pra fazer algo novo mesmo sendo minha 16ª novela. Sempre há algo a explorar. Além disso, Nuno marca uma transição pra personagens mais maduros, algo que eu já almejo há algum tempo.

A novela só estreia em janeiro, então o que está dando para fazer agora enquanto a rotina de gravação não começa? Na verdade, pouca coisa porque, além da novela, estou mergulhado também no meu projeto musical, que vai ser lançado em breve, estamos finalizando o planejamento. Fora isso, também estou filmando o longa “Medusa”, de Anita da Silveira. O filme é uma metáfora sobre a sociedade de controle que investiga alguns aspectos do movimento carismático evangélico no Brasil.

Onde busca inspiração e onde vai para relaxar a cabeça? Em casa nós adoramos viajar. Curtimos muito. O Benjamin gosta de lugares diferentes, então há sempre possibilidades empolgantes. A inspiração eu busco no dia a dia. A vida em si é algo espetacular. Admiro muito o universo em que vivemos e as pessoas que somos. Há algo de assombroso na existência.

Música e natação continuam sendo uma “válvula de escape”? A música é mais uma realidade profissional hoje, e estou muito feliz com este momento. Como disse, eu vou lançar em breve meu single, e tem sido uma maratona gratificante construir esse trabalho. Por falar em maratona, já estou treinando pra uma nova! A corrida é minha grande arma secreta pra lidar com o stress e as intempéries do dia a dia. Amo nadar, mas nos mudamos e a academia onde eu nadava ficou longe. Gostaria de estar nadando com mais frequência, mas eu não descuido da musculação e comecei a praticar boxe há alguns meses! Tô adorando. Hoje em dia minha rotina de exercícios é das coisas mais importantes pra, como diziam os gregos, manter “mente sã em corpo são”.

Falando em música, como foi participar do Rock in Rio? Eu sempre frequentei o festival e é uma sensação inexplicável estar do outro lado, no palco, cantando. Eu amo cantar, sempre sonhei cantar no Rock in Rio, mas era uma sonho tão distante que eu tentava não pensar muito a respeito. Calhou de nesse Rock in Rio 2019 eu ter feito um show de uma hora e meia no primeiro domingo no Rock District e ainda ter sido convidado pra participar dos shows de Rollando Stones, Deia Cassali, Voice In e do encerramento com a Rock Street Band. Foi muito além do que eu podia sonhar. Só tenho a agradecer.

O que a música te traz? A música é minha própria voz. As minhas composições são o lado mais externo da minha alma e é algo que eu estava sentindo muita falta. O ator, raramente, fala seu próprio texto… Com a música é como se eu dividisse as minhas impressões, sentimentos, dores e alegrias de uma forma muito direta com o público. Nesse sentido acho que a música me traz um sentimento de completude. Quando eu faço um show é como se eu estivesse surfando uma onda invisível de vibrações e energias auspiciosas. A ligação com o público é poderosa.

Como é a vida de paizão? O que quer deixar de herança para seu filho? A vida de paizão é de uma agenda inesgotável pra cuidar da criança! (risos) Eu amo ser pai, acredito ser um pai vocacionado, sempre sonhei e me sinto confortável com esse papel. O Benjamin me emociona muito com a pessoa em que ele está se transformando e através dele é como se eu tivesse vivendo uma vida inteira outra vez.

Pretende ter outro? Pretendemos ter outro, sim.

O que espera para os próximo 25 anos de carreira (se Deus quiser!)? 25 ou 30? (risos) Eu espero contar com muitos personagens complexos que possam através de suas histórias comover o público e proporcionar reflexões, modificações, alegria e conforto. Espero que minhas canções possam alcançar cada vez mais pessoas e que eu possa sempre me reinventar, tanto como cantor ou como ator. Estar em fluxo. Isso define.

Fotos Dessa Pires

Styling Samantha Szczerb

Beleza Déborah Rocha do Ophicina do Cabelo

Agradecimentos: Amil Confecções, Foxton, Osklen, J’Adore Luxe