“Seja um homem!” Esta frase já foi usada sem rumo por muito tempo. Mesmo quando adolescente, já ouvimos essas palavras dirigidas a meninos e homens inúmeras vezes. Coisas do tipo “meninos não choram”, junto com “isso não é coisa de homem”, são ditados que todos nós já ouvimos e achávamos normal. Mas o que eles querem dizer de fato? O que “ser um homem” realmente sugere?  

2020 foi um ano em que, felizmente, muitas questões sociais ganharam destaque e foram abordadas. E em especial este ano durante o reality Big Brother Brasil, nos levaram a questionar e rever atos de machismo, masculinidade e “coisas de homem”. Estamos em uma época em que tópicos como assédio sexual, direitos das mulheres e orientação sexual estão sendo mais vocalizados do que no passado. Entre essas questões substanciais está o termo “masculinidade tóxica”. Este termo é usado com frequência hoje, mas muitos interpretam mal o que realmente significa, o que, ao contrário da crença popular, não significa que a masculinidade em si seja tóxica. 

MASCULINIDADE AMPLA OU ÚNICA

Os homens modernos estão cada vez mais propensos a acreditar que suas identidades de gênero – seu senso de ser como um homem e o que masculinidade significa para eles – estão sob ataque. Diante disso, muitos homens encontram formas de compensar, de expressar sua masculinidade com mais força. Esses comportamentos compensatórios assumem todos os tipos de formas, mas a política provou ser uma forma poderosa de os homens afirmarem sua masculinidade.

É claro que existem várias maneiras de ser masculino – não existe uma masculinidade essencial fixa e única. Se você já esteve em paz ou com raiva, se alguma vez amou e odiou, então sabe que pode escolher ser qualquer uma dessas coisas. Somos o resultado de nossos pensamentos e ações. Os homens individuais contêm e expressam múltiplas formas de ser. Mudamos frequentemente durante nossas vidas.

Não existe a ideia de masculinidade sem o seu oposto complementar que é a ideia de feminilidade. A fortaleza simbólica do homem só existe em contraste à difundida fragilidade da mulher e foi a masculinidade que criou a feminilidade para que esse contraponto fosse feito. Completou a jornalista Cila Santos em seu artigo sobre masculinidade.

Todas as pessoas, independentemente do sexo, podem fazer a diferença ao falar e espalhar a consciência. Além disso, modelos masculinos positivos podem ter um impacto sobre como os outros veem a masculinidade. Seja uma celebridade, amigo ou parente, ter alguém que você admira e que luta contra a masculinidade tóxica pode fazer toda a diferença. Com todos esses estereótipos e expectativas pesando sobre meninos e homens, quebrar a norma social é crucial. Lembre-se de que não existe apenas uma maneira de ser homem.

UM OLHAR MAIS PROFUNDO SOBRE A MASCULINIDADE HOJE

Pensando em nos aprofundar mais nestas questões fomos conversar com o psicólogo analítico Kleber Marinho, responsável pela Clínica PPI (Psicologia e Psiquiatria Integradas), mestre pela PUCSP, com mais de 20 anos de experiência em patologias severas e dependência química. Kleber atua em psicologia clínica com atendimentos individuais de pré-adolescentes a adultos, terapia de casal e familiar (presencial e online).

Mesmo com toda a informação e evolução, quem carrega mais travas sobre seu papel na sociedade é o homem ou a mulher hoje em dia? A pergunta deixa lacunas sobre de que travas estamos falando e também o mesmo em relação a qual papel? De qualquer modo, designar papéis para homem e mulher já indica em si equívoco, ao mesmo tempo que ratifica o machismo estrutural e cultural. Não deveríamos pressupor existência de papéis em decorrência de gênero, que significa uma construção social atribuída ao sexo. Portanto, ao discriminar papéis para homem e mulher deixamos implícita a existência do machismo estrutural. Não há papel específico para ambos, o que temos é uma estrutura histórica, cultural e social que designou papéis sociais para cada um dos lados, como se o ser humano tivesse de exercer um papel pré-definido, conforme seu órgão genital. Há uma grande confusão em atribuir amamentação, gestação e outras questões biológicas como justificativa para reforçar teses de diferenças de papéis entre gênero, porém essas instâncias definitivamente não são papéis, são simplesmente estruturas biológicas que fazem parte da natureza humana. Todo resto onde não há limite verdadeiro imposto pela natureza do sujeito pode e deve ser participado em partes iguais, sendo que hoje em dia seria até mesmo possível gestar e amamentar fora do corpo humano, mas isso é outra história.

Como definiria o machismo do homem atual? E como estão as mulheres diante disso? O machismo é um fenômeno histórico e sociocultural existente desde pelo menos a Roma Antiga (para não voltarmos tanto na história), quando o conceito de família fora consolidado. Tendo como base o predomínio da estrutura patriarcal, a qual assegurava a posição central de líder ao homem, valendo-se de autoridade sobre os demais membros da família, inclusive estendendo poder sobre vassalos e escravos. Portanto, o homem desde sempre, seja o de antes ou atual, bem como a sociedade como um todo ainda está demasiadamente mergulhada em um machismo estrutural sem sequer perceber ou dar conta do quanto isso faz parte da vida e cotidiano de todos. Entretanto, é inegável que houve evoluções ao longo do processo histórico e, na atualidade o movimento feminista tem conseguido abrir mais espaço dando voz as pautas legítimas de igualdade de gênero. A despeito de o movimento feminista vir crescendo cada vez mais, sobretudo pela força do princípio de sororidade, todavia, infelizmente é minoria, pois a sociedade impõe resistência ao processo de mudança. Inclusive boicotado por mulheres que ainda estão imersas e aprisionadas nesse modelo secular e, por assim dizer, elas acabam fazendo força oposta pela luta de igualdade de gênero, prejudicando a si mesmas.

Sobre o falado machismo tóxico, como ela mais aparece e como o próprio homem pode combater isso? Embora haja alguma referência ao uso do termo ‘machismo tóxico’, o termo mais adequado é ‘masculinidade tóxica’. Trata-se de uma construção social histórica e cultural que formou e corporificou um conjunto de estereótipos nocivos e prejudiciais ao redor do conceito de masculinidade. Esse fenômeno aparece de diversas formas e em vários momentos da vida. Em tenra idade, por exemplo quando ainda criança, não é bem aceito um menino chorar, ser emotivo, demonstrar sensibilidade ou apresentar ‘emoções exageradas’. Por essas características serem consideradas um misto de sinal de fraqueza, fragilidade e comportamento feminino, que, por sua vez, sob esse ponto já estaria sendo atribuído caráter de inferioridade ao universo feminino. Sem mencionar a dor de cabeça infernal caso uma criança (menino) escolher maquiagem e/ou uma boneca para brincar. Assim, o homem é pautado pela expectativa de um comportamento padronizado por força, agressividade, brutalidade, superação, etc., enquanto as mulheres por fragilidade, sensibilidade e fraqueza, etc.

O caminho para combater isso começa na percepção da inquestionável existência dos fatos ora expostos. A partir de então, cada qual deveria assumir para si compromisso de mudança. Em seguida, haveria de empreender esforço gigantesco e diário enxergando as próprias ações e pensamentos tóxicos, não permitir aceitar a continuidade de tais comportamentos e, por esse caminho estender aos outros de seu convívio familiar e social. A terapia pode funcionar bem para ajudar na tomada de consciência desses comportamentos, abrindo caminho ao autodesenvolvimento.

Acredita que para o homem se libertar dessa herança machista é muito mais difícil do que muitos pensam? Como conseguir? Sim, requer tomar consciência, ter muita vontade e empreender esforço diário para mudar gradualmente, pois estamos lidando com uma estrutura arraigada e legada em nosso ser. Posto que aceitamos o machismo e agimos em favor disso inconscientemente todos os dias.

Recentemente vimos casos de assédio no meio artístico onde brincadeiras ou cantadas antes inocentes, hoje são vistas como agressão ou machismo e não são mais toleradas. O quanto isso é real e o quanto isso virou exagero? Não conheço a referência do caso em questão, por isso é difícil opinar. Entretanto, essa é a pergunta perfeita para explicar machismo estrutural. Supor que uma ‘brincadeira’ ou ‘cantada’ não aceita hoje tenha sido inocente algum dia demonstra claramente as raízes do machismo em nossa estrutura e sinaliza a tentativa desesperada do resgate do lugar de origem, além de indicar resistência em aceitar o fato da constatação do machismo, deixando indícios claros da negação da transformação que vem acontecendo no presente. Já a parte do ‘exagero’ é a cereja do bolo, pois enfatiza a enorme dificuldade em reconhecer a legitimidade da causa feminista e pretensão da continuidade do machismo na sociedade. Por fim, uma ‘brincadeira’ só é boa quando todos participam da graça, sendo incluídos e compartilhando daquele momento catártico da gargalhada e, mesmo assim há de se atentar para que naquele conjunto não exista parte alienante rindo, sem perceber que zomba de si. E, para não estender muito, sobre a parte da ‘cantada’, melhor deixar para o jogo de bingo ou roda de samba!

Muitos homens hoje em dia estão se questionando qual seu papel na sociedade com a igualdade entre homens e mulheres. Como lidar com isso? Nosso papel na sociedade é ser cidadão. Assegurar o lugar da ética, não permitir injustiças e desigualdades de toda sorte, seja de gênero, identidade, racial, política, religiosa, cultural, etc. Defender igualdade não significa manter homogeneidade; muito pelo contrário, pretende garantir mesma oportunidade para partes diferentes coexistirem lado a lado, mantendo suas distintas representações e lugares de pertencimento identitários para justamente assegurar as diferenças.

Hoje em dia parece que o homem hétero, branco, de classe média virou alvo de desconfiança e críticas por parte da sociedade. Percebe isso? Como evitar esse tipo de tratamento? A cada adjetivo desses se soma uma categoria de lugar privilegiado na nossa sociedade. Então, um homem hétero, branco e de classe média, no sistema capitalista neoliberal seria considerado matematicamente um “homem elevado à terceira potência”, isto é, ele já nasce multiplicado por três bases de si próprio em relação aos demais e, caso sua classe socioeconômica suba de patamar ao longo da vida, poderá ainda aumentar o índice exponencial. Não se trata de críticas ou desconfiança, mas sim de um lugar de poder adquirido na largada, pelo simples fato de ter nascido com tais características, sendo que isso só é permitido porque fazemos parte de uma sociedade desigual e injusta. Nesse sentido, os incautos poderiam dizer apressadamente, em defesa de sua angústia frente ao sentimento de ameaça: “eu não tenho culpa de ter nascido assim”. É verdade. Não somos responsáveis pelas circunstâncias de nosso nascimento, porém quando não reconhecemos o óbvio e tentamos manter o que está posto, sem aceitar e lutar pela mudança e transformação da desigualdade, só restará crítica e desconfiança. Por outro lado, se admitirmos o lugar de privilégio que ocupamos, negando e lutando pelas desigualdades existentes, não haverá o que temer. Não trata de abdicar do nosso lugar ocupado, mas sim colocar o outro ao nosso lado, assim todos ganham.

Cada vez mais comum o homem ter sua opção sexual questionada (no caso dos héteros) por estar solteiro, ser educado ou mesmo por usar determinado tipo de roupa. A sociedade se diz moderna e repudia rótulos e por outro lado está sempre questionando homens que fogem (aos olhos deles) dos padrões tradicionais do machão do passado. Em primeiro lugar, permita-me corrigir o termo ‘opção sexual’, pois está em desuso e deve ser trocado por ‘orientação sexual’, visto que não se trata de uma escolha, tal como se eu acordasse um dia e dissesse: ‘hoje optei por ser gay’, tal como fazemos com uma mercadoria, por exemplo, ao escolher o sabor de chocolate na sorveteria, algo comum em meio de uma sociedade refém da relação de consumo. Aliás, a questão semântica renderia um belo tratado sobre questões essenciais para a compreensão do machismo.

Todos esses questionamentos fazem parte dessa força e pressão que faz parte da vida masculina que tenta nos enquadrar em um padrão de estrutura machista, mantendo todos encaixados na mesma gavetinha. Disso derivam patologias graves que tratamos nos consultórios de psicologia e psiquiatria. Muitas pessoas desenvolvem transtornos mentais graves, de personalidade e comportamento por conta dessa situação vivida em uma sociedade que não só prejudica à mulher, mas também ao homem. O machismo não é bom para ninguém. Um caso que deixa isso claro é sobre a observação da quantidade de câncer de próstata que poderia ser tratada, caso os homens conseguissem se livrar de um tabu cuja origem é o machismo. A expectativa de vida dos homens é 6 vezes menor do que a da mulher por conta da ‘masculinidade tóxica’, que contribui no comportamento em busca de risco. As mulheres procuram cerca de 20% mais atendimento médico do que os homens e há ocorrência de suicídio masculino atrelado ao machismo, sem mencionar que o Brasil é o pais que sempre liderou níveis de homicídio contra pessoas trans.

Em um texto seu sobre os tipos de masculinidade que vimos no BBB, o senhor comenta as alianças e brotheragem de alguns. Esse tipo de relacionamento está cada vez mais comum. Existe algum motivo em especial? O comportamento de brotheragem que mencionei no artigo foi sobre um nível de aliança, cumplicidade e amor que existe entre os homens héteros, algo inexistente em grande parte dos relacionamentos deles com as mulheres. Na verdade, isso sempre existiu e não se trata de uma novidade, basta observar. Essa não é uma tese minha, mas da filósofa e feminista Marilyn Frye que na década de oitenta já falava do tema e, após escrever meu artigo, tive conhecimento de outros poucos escritos que versaram sobre esse debate. Em resumo, a questão posta é que o sexo, em última instância, é praticamente a única coisa que pauta o caráter da definição de heterossexualidade de um homem com uma mulher, pois todas outras características e expressões de amor estão destinadas a um ou outro parceiro hétero, eleito como melhor amigo ou algo similar. Os sentimentos de admiração, respeito, consideração, reverência, reconhecimento, etc. não estão vinculados a sua parceira mulher, mas a um homem, melhor amigo, aquele brother, com quem ele confidencia segredos, compartilha laços profundos de amizade, inclusive de fidelidade, jamais vivenciada no convívio com a mulher.

Muitos homens héteros hoje demonstram carinho por seus amigos mais próximos com beijos e declarações de amor sem a menor intenção homoafetiva. Tendo em vista que há duas ou três gerações passadas muitos pais mal beijavam seus próprios filhos. O quanto isso foi libertador para o homem e ajuda nas suas relações com as mulheres? Seria um sinal de quebra do machismo? Tudo que for amor, carinho e demonstração de afeto deve ser mais do que bem-vindo, seja de homem para homem, homem para mulher, homem para gay, para trans e qualquer configuração que implique um ser humano em convivência com outro ser humano, independente de classe social, econômica, grau de parentesco, identidade de gênero e qualquer outra coisa. Somente por essa via iremos crescer e evoluir enquanto humanidade. Quanto mais uma pessoa teme e evita manifestações e ações afetivas nas inter-relações pessoais, mais adoecerá e irá tender a levar uma vida oprimida. A troca de amor por meio de qualquer expressão pode com certeza ser o início de quebra do paradigma do machismo e um bom caminho para que a pessoa perceba que atrás do medo do amor e do afeto pelo seu semelhante pode residir o núcleo de sua fragilidade, de sua identidade, orientação sexual e outras particularidades.

O que ainda falta o homem aprender com as mulheres de hoje? Basicamente tudo! Na realidade, um dos requisitos basilares da evolução psíquica está no desenvolvimento das forças e energias polares do masculino e feminino. Ou seja, o autodesenvolvimento e equilíbrio psíquico se dá quanto mais uma mulher conseguir trazer à tona e ‘trabalhar’ sua força masculina, tomando consciência de seu universo interno masculino e, assim conseguir fazer uso dele em seu cotidiano. No caso do homem é o mesmo, obviamente em relação inversa. Vale frisar que essas forças não têm nada a ver com orientação sexual, sexo e/ou questões de gênero.

Por fim, qual o maior desafio encontrado pelo homem hoje em dia para poder receber o título de “macho moderno”? Poderíamos começar por recusar esse título, que não parece cair bem para quem quer lutar por igualdade de gênero e transformar a sociedade em um lugar diverso, plural e pleno de mais amor, gentileza e menos ódio e intolerância. Não deveríamos almejar títulos. Muito menos com nomes que remetam ao que pretendemos extinguir da sociedade. Devemos tomar cuidado com eufemismo que camuflam a tentativa da continuidade do mesmo, que tenta trazer uma suposta brincadeira, leveza ou algo parecido sobre à égide da pretensão de falas que dizem que “o mundo está muito chato”, “agora não pode nada”, “patrulhamento ideológico”, agora tudo tem que ser “politicamente correto”, etc.

Se olharmos de perto, profundamente, veremos que no bojo dessa retórica existe preconceito, intolerância e tentativa de manter a perpetuação do poder nas mãos de poucos, na investida da segregação social e homogeneização do padrão daqueles que detém o controle social em suas mãos. O melhor a fazer é o homem tentar se colocar em seu lugar de fala, mas sempre lutando ao lado da mulher, que foi quem lhe deu a vida.    

Ilustrações: Hanna Barczyk (sapatos), Nathalie Lees (braço), André Ducci (menino)

Fotos Fernando Rezende