HORIZONTE: ARRUAR… À RECIFE

Por Andrea Hunka

Co-Produção Sofia Hunka

Fotos Léo Caldas

Ainda em tempos quinhentistas, às terras ao norte da capitania de Duarte Coelho, a futura Olinda era invadida em vigoroso processo de ambição colonizadora oriunda do antigo mundo. A Península Ibérica ardia numa briga feroz sobre conquistas e poses territoriais. E os reinos de Porto Callis e Espanha dividiam  o mundo com seus tratados sobre régio poder do Santo Ofício. Um pedaço de solo, ao sul, o istmo de Olinda e Recife, a antiga freguesia de S. Frei Pedro Gonçalves, espremida entre o mar e os rios Capibaribe e Beberibe, o Arrecifes dos Navios, surge incerta, discreta com suas ilhas e apicuns, seus transeutes, gentios, negros de açoites e um tráfego intenso, numa predominante cadeia alimentar –  a pesca.

A alta temperatura dos trópicos, as águas mornas, a salinidade acentuada, a alimentação aquática abundante, os corais formadores naturais de repouso e ancoradouros, os mangues extensos e berço da vida marinha, estavam em todos os lados dessa formação geológica nova, trazendo uma variedade infinita de vida subaquática, que resultou em alimento de subexistência. As lutas aqui travadas, as batalhas sangrentas sobre as conquistas de terra, os trabalhos braçais dos marinheiros, escravos, povos nativos, estivas desse grande porto, Recife, foram entre outros os motivos de muitos aqui fixarem repouso.

Franceses, portugueses, espanhóis, holandeses, judeus, homens de muita fé ou de pouca, instalaram-se aqui e sob a proteção dos seus santos padroeiros firmaram nesse solo. Santo Antônio, São José, Santo Amaro, assim foram marcadas as localidades, ao norte, as residências familiares abastardas, os judeus, comerciantes, ao sul, o mercado público, as trocas, os blocos de carnaval, os terreiros, o povo, todos cercados por fortes e grandes muralhas. O centro da cidade efervescente. Desse eixo distinto, de maneiras, partidos e vidas ambíguas, surgem a nossa maior identidade, a MISCIGENAÇÃO natural e motivada.  Conduzida pelas pescas  artesanais, a biodiversidade dos mangues, as trocas dos frutos locais, o doce mais doce da cana, o vai e vem do porto e do mercado, que desponta-se no ritmo culinário legítimo dessa gente, embainhada pelo ciclo marinho de suas praias e mangues.

Recife (Árraçif – vocábulo árabe que significa – CAIS) de suas ruas estreitas, adornadas por árvores, mocambos e casarios protegidos pelas palhas e telhas canais, foi durante anos o porto de escoamento mais movimentado das capitanias. Daqui,  saiam produtos de diversas áreas, recorrentes dos engenhos, das matas desse Nordeste: açúcar, pau Brasil, animais silvestres… as nossas riquezas seguiam conforme as ambições estrangeiras e o porto ditava o ritmo da vida e continua de alguma forma ditando.

ENTRE RUAS E RIOS

Ilustres e anônimos chegavam e se íam nos navios. Negócios eram travados e tramados. Procissões a Nossa Senhora dos Navegantes, da Boa Viagem, do Senhor dos Passos das épocas pascoais que  atraiam multidões pela cultura, pela fé, pela penitência. Recife dos biscoitos doces e bem dosados pelas habilidosas mãos das freiras que nos conventos comandavam os quintais conventuais e ditavam muitas hortas férteis. Dos cortejos de jangadas, barcos e canoas mostrando o nosso eixo e fé, crença, que estava fincado no MAR, no RIO. Recife dos Ribamares. Recife, cidade das águas.

Dos aruás assanhados, das anchovas, cações, saberéis, camuri e robalo de seu Antônio do pátio de São Pedro, dos espadas, do bar Sargento, garoupa, galo, namorados, peixes sem fim, dos camarões vendidos nos cestos de cipós no centro da cidade. Dos pargos, pescados, sardinhas, tainhas, xaréus, mariscos servidos a caldos e ensopados, regados a uma chuva de farinha de mandioca quebrada, ou acompanhado de um pirão – tudo isso era democrático há tempos atrás. Estava nas mesas dos aristocratas, e não obstante, nos guetos, nas casas das moças alegres. A culinária fazia a mistura de culturas e gente.

Recife do tão sonhado movimento regionalistas de Gilberto Freyre e outros ilustres senhores, aos estrangeirismos coquetes do além mar. Recife tu “não podes deixar de ter palmeiras, cajus dourados,  gaiolas de guaianuns e papagaios na sacada da janelas e ao invés de garçons. Mulheres de xale encarnado e chinelo sem meia, servindo água de coco – no coco que é bom. Depois, um pingado de garapa de tamarindo, um refresco de maracujá com um dedo de cachaça, ao som de modinhas de viola e cantigas de xangó. Inclusive, à tarde, tomar um chá com sequilhos nos avarandados das casas de seus quintais largos e cheio de mangueiras, frutas-pão, carambolas e doces laranjeiras. Tomar sorvete de coração de índio, feito pelas sinhás.*

Ver a gente aruando, os mascates vendendo de tudo, com seus cestos e cordas. O peixe do dia, os siris, os meninos com os sabugos de milho e canudo de mamão trocando risadas. Recife que ainda incansavelmente luta contra o passado escravista e seus ditos e frases racistas. Recife que precisa urgentemente mudar. Recife do arroz doce, do cuscuz de coco dos tabuleiros, o cavaquinho e puxa puxa,  dos ambulantes com seus gritos e rimas, chamando atenção e que em outros tempos desconcertava  as senhorinhas que ficavam rubras pelo esforço, pela fome que dar ao sentir esses odores, mas também, pelo sol desses lados, hoje chamado de Hellcife. Recife de hoje, Recife de ontem.

Recife que volta e meia quebra entrecortado pelas águas, pela velocidade de suas ruas, hoje largas, que tem marola, que ainda se movimenta, que dita a velocidade da cidade conforme o ciclo das marés. Recife que entre o corre-corre da vida é fácil ver uma rede sendo arremessada nas pontes e barcos a passar pelo rio Capibaribe o percorrendo majestoso, mesmo que sofrido e poluído. Recife da brisa que briga entre os paredões que se formam, da rua da Aurora que ostenta seu lindo perfilhamento de casarios a restaurar,  dos arranha-céus em tons cinzentos, dos cinemas/igrejas a la Kleber Mendonça, mas que enche os bares, restaurantes e botecos para ainda senti a fina areia e o cheiro de sargaço vindo do mar aberto.

Recife incongruente. Recife que mesmo distante das praias aprecia o sabor das caldeiradas, dos ensopados ante o sol escaldante de hoje, sobre os becos estreitos, as fiações e emaranhados de fios que se enlaçam dando voltas e escondendo os andares mais altos dos sobrados em falência. Recife do peixe frito, das peixadas, dos caranguejos e sururus ao coco. Do jogo de futebol nas várzeas, dos jambos, macaíbas, oitis, ubaias e trapiás. Do café pequeno, do fígado  alemão. Recife que, mesmo descaracterizado, permanece inabalável pelo seu legado de contestação, sua cultural múltipla, sua soberania anarquista, sua cozinha de muitas mãos e gosto, sua impoluta dignidade e controversa existência. Recife, cidade esplêndida.

TRIÂNGULOS E HEXÁGONOS

Arruar por aqui é entre vielas, ruas estreitas, caminhos sombrios e estradas onde o vai e vem não leva a um lugar definido, ou mesmo lugar nenhum e pode o causar certo embaraço. A  cada passo dado  um fato – uma história escondida sobre o escombro de um sobrado abandonado, vedado com um camada de tijolos pichados, paredes que em uma ação de ruptura torna-se solo de um árvore que teimosamente nasce nas alturas, fazendo de sua morada um obra incoerente da natureza. Nesse compasso, janelas ao alto entreabertas nos faz imaginar a vida que um dia assolou ali. Os olhos nesse jornada marejam, seja por salubridade da proximidade marinha, seja por essa áurea investigativa em torno dos prédios art deco, art nouveau, casarões ecléticos, igrejas barrocas e santos que com suas expressões realistas nos assombram ao fitar. Cúpulas prateadas e em cobre das edificações dançam de forma diversas pelos ares e nos possibilitam tantas ideias… Recife da rua das Águas Verdes, da farmácia Sabino Pinho, com sua resistência ao tempo e suas lembranças em frascos com suas marcações de nosso estado, da rua Eng. Ubaldo Gomes de Matos, com a casa Leão e sua fachada recheada de figuras animalescas dando a introdução de seu intuito, negócios agropecuários – mas a outrora já foi um local de venda de animais silvestres e reduto de caçadores.

Dos sebos de livros e discos, da lembrança pueril da Banca O Globo, da Livro Sete com suas diversidades de livros e conversas fiadas, das cafeteiras e lanchonetes da moçada jovem, das bares e mercados que ainda jorram musicalidade, fartura em receitas e bebidas geladas, reduto do povo que ali não tem identidade revelada. Não tem CPF, faixa etária, ou mesmo menção de condição econômica, um coletivo festeiro e em busca de encontros e desencontros.  

Recife do pátio de Santa Cruz, das ruas que cortam a cidade em triângulos, hexágonos e formatos infinitos, dos bueiros expostos, do caos diário, dos fiteiros com suas mercadorias cada dia mais Made in China. Recife dos boêmios da praça do Sebo que já amanhecem ao som e sabor dos Montilla, mate e croquete de ovo.

Recife dos becos, vielas, avenidas, ilhas, córregos e camboas soterradas, da maresia e sargaços, de úmida sensação e lodos que escorrem sobre fachadas imponentes. Recife quente e chuvoso, alagadiço e encharcado. Recife do “calor da gota”. Das praças com seus chafarizes desativados, de suas dezenas de igrejas, das crenças e míticas mágicas, dos assombrados e fantasmas inquietos de sua identidade formada sobre o cais zonas de prostíbulos, mas também, emparedadas nas paredes das mansões de cá. Recife dos arreios de cavalos e ilhós das velas, da multiplicidade de nações e tradições, Recife que só se conhecem adentrando através de uma boa caminhada entre sua mais íntima essência – os arredores das águas que a banham. RECIFE.

*homenagem a Gilberto Freyre.