Da resistência e luta contra um episódio triste e lastimável de nossa história – a escravidão, os quilombos foram e são, ainda, fontes e reduto de combate a favor da preservação histórica material e imaterial da humanidade, contra a opressão, a ignorância premente e lascível do ser, pelo ser. Mais de quinhentos anos se passaram, entre conquistas e batalhas, enfraquecimentos de um lado ou do outro (donos de engenho, a onipresença branca, supremacia X o negro opresso) e a floresta Catucá, reduto perto da cidade de Recife. O subúrbio ao lado, na Zona da Mata, ao Norte, floresceu o quilombo homônimo, abrigo de tantos e lugar de malungos, ou seja, negros que se reconheciam por virem para o Brasil nas mesmas caravelas. Assim, foi e são as terras que ora vejo, de um tom de barro avermelhado, com um verde entrecortado entre cana de açúcar e resquícios de uma Mata Atlântica remanescente. Lugar que persiste, seja por sua braveza em renascer através das queimadas ateadas para o colheita da cana, seja pelas tantas lutas que fizeram muitos subsistir pela hierarquia dos maluquinhos, homens que lideraram os quilombos dessa região, e que com o tempo, ganharam a força da mulher, sua importância e combate em reconhecidas conquistas, tendo em vistas as Heroínas de Tejucupapo, mulheres que lutaram para a expulsão dos holandeses da Capitania de Itamaracá, no século XVII.

Nesse entrecorte da história, com o céu azul, situado nas mesmas terras da floresta Catucá, do remanescente sítio das Mangueirinhas, no engenho Megaó, encontra-se o povoado de São Lourenço, com sua rua de paralelepípedos e sua Igreja Jesuíta, do século XVII, devotado ao santo mencionado, que originou a localidade e a devoção desse povo, devido à imagem que ali foi encontrada, a imagem de São Lourenço. Até hoje, se comemora o santo com queima de madeiras à frente da igreja, num culto ancestral, remontando o martírio do paladino padroeiro e de seu povo quilombola, que foi tombada como Patrimônio Histórico de Pernambuco em 1994.

São Lourenço é aquele lugar em que a vida corre lentamente, e foi seguindo por suas ruas que encontramos, ao lado da ruína da antiga igreja, a vida pacata presente e cheia de leveza que nos abraçou num convite agradável. A vista percorre o vilarejo e de longe, entre mangues, abre-se um sinuoso panorama, o encontro esplendido do mar com o Rio Goiana. O cenário nos embriaga, mas as vozes doces e a recepção calorosa das mulheres quilombolas, nos leva a uma casa cheia de surpresas. Entre afagos, mimos e risos, as oito mulheres da associação – entre elas, Conceição, Iara, Rosa, Lenita, Penha, Severina, tendo como Cecília, sua jovem líder, nos apresentou o trabalho artesanal, que remete à vida pesqueira da população, sua labuta e a catação de marisco.

CHEIROS E SABORES

As peças nos saltam aos olhos, dos coloridos em forma de rede de pesca, gerere, nos remontam à vida e a seus ganhos. Os búzios, as conchas e a vida marinha, as sementes adquiridas das matas que as rodeiam e que são trabalhadas de uma forma poética, tecidas entre as tramas que saem agilmente das mãos delas, entre uma conversa e outra. Mas o que nos deixou esfuziantes foi o cheiro e sabor com que fomos recebidos, em São Lourenço, por suas mulheres. Mulheres que cozinham com cheiro de mar, com biodiversidade do mangue e finalizam com as palhas dos coqueirais que, muitas vezes, as protegem nas infinitas caminhadas, no sobe e desce de suas idas em busca do sustento familiar – atrás dos mariscos, dos gatapus, das ostras, dos siris, dos sururus, dos peixes diversos, dessa região, como: tainhas, carapeba, bagre, entre outros.

A cozinha aqui, tem misturas de raças, dos que estiveram por essas bandas, e uma larga tradição. Os traços da comida tendem para o lado africano, mesmo que elas não saibam explicar o porquê, estão ali preservados. De forma natural, e como, dizem “mãe que ensinou”. O uso de inhame, mandioca, os amendoins que eram plantados outrora, a moqueca de folha de coqueiro (mistura de marisco, temperos e coco ralado, assado na palha, na lenha). O bolo Pixaim, feito à base de coco, assado, também na lenha, que apreciamos com goles generosos de café, e conversas sobre as admiráveis mulheres desse lugar.

São Lourenço nos trouxe, talvez o que ela já tenha ganho em suas muitas histórias travadas, a combate diário das mulheres dentro desse grupo, a força de sua braveza, o instinto simples de cuidar dos seus e tomar as rédeas da vida. Ali, vimos mulheres obstinadas, seguras, imponderadas, donas de si e de seu caminho. Com elas, fomos ao encontro das ladeiras que nos levaram à imensidão da reserva. No caminho flores, nos apresentavam a riqueza das pancs (plantas não convencionais comestíveis) que generosamente de entrelaçavam em nossas pernas com as ramas que se entendiam nas ribanceiras.

À beira do rio, canoas e pequenas taperas de barro dispostas em pilhas de conhas, nos esperavam. O passeio nos trazia a beleza dos mangues, mas o que marcou foi o presença forte de Edjane e sua mãe, Joana, que remavam a canoa em silêncio, ou, as vezes, com poucas palavras, falavam da importância de preservação desse santuário. Travamos duas horas de percurso, e, a parada foi para apreciar o mar límpido e cristalino, com a areia branca. Um agradecer às donas das águas, Odoyá, Yemanjá. E seguimos de volta, arrebatadas com tudo, com a vasta quantidades de ostras que encontramos agarradas nas bases das árvores dos mangues, com o sobrevoo dos pássaros, com as paradas para que dona Joana nos mostrasse quão rica era aquela terra, ao apalpar o solo lamacento e tirar uma mão cheia de mariscos. Estávamos encantadas, éramos mulheres dentro daquela canoa, talvez com vidas bem distintas, mas com o mesmo ideal naquele instante, manter aquele lugar intacto.

Ainda ávidas, nosso regresso aguardava tantas outras inesperadas situações que nos afagariam. Subimos as ladeiras e a disposição, um banquete com delícias em forma de uma riqueza ímpar – mariscos, ostras e o cheiro da comida caseira. A casa de Edjane era o cenário e sua família nos abraçou com um serviço cheio de afetividade. Saímos gracejadas por Dadá, líder, mulher, guerreira que nos contou a história do lugar e sua perseverança pela valorização negra e cultural da região. Fomos nos despedir daquele universo com o maior presente, conhecer tia Orminda Gouveia, matriarca, que com cem anos quase completos, nos recebeu com sua visão e mente lúcida para um até logo à frente de sua máquina de costura, Tia Minda, símbolo das mulheres de São Lourenço. De olhar fito ao dela, sai dali mais fortalecida pelas mulheres que me conduziram naquele dia, pelas que fizeram história desse lugar como Maria Camarão, Maria Quitéria, Maria Clara e Joaquina, heroínas de Tejucupapo, pelas professoras que lutaram pela história e instrução de seu povo, como D. Zilda.

AO SABOR DAS ÁGUAS

São Lourenço, deixou em mim impressões, emotivas, de suavidade e questionamentos de uma habitante errante dos centros urbanos, deixou uma vasta percepção de lacuna no tempo, de espaço atemporal. De fato, acredito, que todos esses sentimentos estão justificados pelas lendas que embalaram seus filhos, como a da Mãe d’Água, a da Gigante Jiboia Branca, a Mãe Vermelha, a da Aranha Misteriosa, que detém segredos, que transforma a maré em um espelho vermelho. É certo que, para mim, essas lendas norteiem a verdade, que suas filhas vivam ao sabor das águas e das luas. E que, assim, como por mistério, suas meninas guerreiras se tornem, heroínas, não por acaso.