Na região equatorial central do Sudão do Sul, sobre uma brisa leve, numa estrada de terra batida entre savanas, vegetação rasteira e árida, de árvores escassas e solo arenoso, onde o sol nasce cedo e a geografia protege pelos seus recortes, ergui-se um povo de feições fortes, aguerridos e combativos com suas destras marcadas por uma profunda escoriação em “V” – os Mundaris.

Sobre a regência do sol alaranjado e escaldante, na cadência dos gados, Ankole-Watusi – um animal distintivo com chifres gigantes e curvados, também conhecido como “o gado dos reis”, os Mundaris seguem a tradição de sua descendência, Nuere (povos antigos) o animismo, divinização e aspectos espirituais a animais, nesse caso, ao gado, tratando-os como parentes e acolhendo-os para suas próprias proteções. Sobre semblantes cobertos de um pó salmão, ou seja, o esterco recolhido desses gados, e colocados em pilhas piramidais e secos ao sol, os Mundaris passam o dia a se cobrirem com esse composto e aos animais, quando também, ficam passando lamas em seus chifres para lubrificar, pastoreando e adorando seus rebanhos. Dessa forma, mantendo-os e as mamatas isentas de mosquitos, e com isso, o controle natural da malária e do sol escaldante tão comum por esses lados. Suas mulheres, nas aldeias, vagam entre plantios nos gardens –  local de hortaliças e a cuidar dos filhos, em seu maior tempo.

Amanhecer nesses campos, é viver numa explosão de beleza ímpar em cores intensas. É deparar-se aos jovens bem trajados em mantos que, de alguma forma, foi a adaptação brusca que os Mundaris tiveram que passar pelo islamismo, pois até os meados dos anos 80 do século passado, eles se mantinham nus o tempo inteiro, com pulseiras de marfim, penteados cones e espartilhos de miçangas, comunicações por sinais e símbolos identitários de suas etnias. Mesmo com o epistemicídio, ainda os vemos como eles viveram tempos atrás, lavantando-se pelo alvorecer com os primeiros jatos de urina bovina em suas cabeças, conduzindo o pó de esterco, ajuntando-se numa mistura lamacenta, dando aos seus cabelos a cor do sol por esse lados – canelos de um tom laranja, enquanto outros sentados, deglutem das tetas das vacas o leite branco e quente, a única fonte que se permitem tomar nesse orgulho tribal, do animal. Pertencer a esse lugar é tornar-se como o próprio nome do estado dessa região em sua etimologia africana, diz – Terekeka, o esquecido.

Num lugar banhado pelo Nilo Branco, de uma terra fértil, pantanosa, onde do solo emana o ouro negro, o petróleo, a escassez está por todos os lados. Séculos de domínio e exploração, brigas por territorialidade, pelas riquezas, pela religiosidade que verte pelos lados entre as imposições muçulmanas, cristãs e o animismo, crença dos donos desse solo que tornaram esse lugar o coito de brigas. O desajuste ambicioso, pela desnaturalização da cultura plural desses povos, pela política lavrada de negociatas com impérios brancos, que armaram uma parte desse povo, os que perderam sua identidade em busca de igualdade com o estrangeiro, trazendo, com isso, todo tipo de miséria, como nas áreas de pesca – a prostituição, os estupros e a fome que assolam seu povo e os maltratam nas necessidades mais básicas. Hoje, essa região tem uma das maiores crises mundiais de refugiados, abaixo apenas da Síria e do Afeganistão.

Tudo isso, num recinto onde a exuberância da natureza grita a qualquer hora, onde ver a volta da mamata de um dia, sendo embalada pela cadência do entardecer, é algo impressionante. A terra aqui verte bananas, amendoins, açúcar, gergelim. Da pesca trazem peixes como, a perca do Nilo, mas devido à guerra civil violenta travada e os bloqueios, essas riquezas de recursos ficaram escassos e a fome é pertinente e descomunal, e com um só objetivo, domínio a todo custo. 

Nesse lugar de origem anglo-egípcia, de alimentos vastos, a fome assola de todos os lados, mas há as tradições mantidas, como alguns hábitos alimentares representados em algumas mesas, como a fasoolinya (um guisado de feijão servido com pão) e a dura (milho ou mijo). Também têm pratos feitos com carne, como o kibda (fígado), o shojea (carne à parrilha), kebabs, kalawi (rins), lahma (sopa de carne) e gammonia (estômago de ovelha guisado). Mas todos esses pratos são raros e alguns impossíveis, em áreas dos Mundaris. Ali, se come o frango, o bode, o sorgo, batatas e pequenas hortaliças. Ali se alimentam do tempo e da resistência de existir. O Mundaris são um povo afável e sabem ser alegres, apesar das agruras. Seu mundo está em uma atemporalidade que o nosso cotidiano não sabe mais dimensionar. Um povo forte, mas que vem sendo exterminador do planeta – são quase lendas de um época, de um mundo paralelo, onde a áurea africana e seus ritos e costumes ficaram encravados nas margens do Nilo, nas fases das secas e farturas, na linha tênue e nebulosa que se enxerga, na miragem de um amanhecer.