
Texto Andrea Hunka / Produção Sofia Hunka / Fotografia Vicente Holanda
Depois de cruzar a área urbana e percorrer planícies áridas, dunas pequenas, uma imensidão de areia e pedras calcárias, estamos na estrada em direção ao deserto ocidental (Cairo-Fayoum Round), num misto de pré-deserto, onde o sol reflete-se intenso nas colinas claras do horizonte que risca a vista de uma forma inebriante. São trechos longos de uma região árida plana e silenciosa, seca e cortada por pequenas aldeias e plantações irrigadas. A paisagem é enigmática, do asfalto salta uma penumbra de mormaço e o céu nos abraça num perpétuo azul anil, perturbador, instigante de tirar o fôlego. O calor toma o corpo e as gotas de suor caem sobre as dobras da roupa rota, mas o vento convida a se permitir isso e a estrada desce lentamente em direção à depressão de Faiyum, um oásis natural que nos adentra a tons verdes de campos de palmeiras e oliveiras, numa transição climática, como se o sopro desértico terminasse numa profusão de verdejante com uma imensidão de azul acinzentado, que reflete o sol – o Lago Qarun. Lá adiante está Tunis, logo acima do lago, majestosa, com suas casinhas em tons terrosos, feitas de barro, com telhados planos que contrastam com o azul do céu e o dourado das colinas ao redor.
Chegar aqui tem uma sensação de refúgio e serenidade. Há um ar úmido e fresco, um brinde a essa viagem, o cheiro de barro das cerâmicas sendo queimadas e da vegetação. Os sons que quebram o silêncio do deserto, são pássaros em revoada satisfeitos que tão o ar de suas presenças. São, usualmente, os Commons Bubul e os Hoopoes que vivem nas hortas e canais de irrigação da Vila. Porém, os rumores das oficinas de olaria, também, marcam a sonoridade do local. Tudo isso nos evoca uma experiência sensorial e simbólica – uma tela viva, onde as cores são terrosas e suaves, os verdes têm um degradê vívido e os azuis do céu e do lago nos deixam em êxtase.

ERAS FARAÔNICAS E GRECO-ROMANAS
A região de Faiyum foi, há milênios, berço agrícola do Egito. Sua vasta depressão fértil foi alimentada desde tempos pré-históricos pelo canal natural do Nilo – o Bahr Yussef, que fez surgir vários assentamentos que ficaram muito conhecidos na África, muito antes do Egito faraônico. A cultura Faiyum, em aspectos arqueológicos, denota as primeiras comunidades sedentárias do Egito, e sua organização econômica e agrícola, com usos sistemáticos de cereais e pesca no lago antigo – Meoris eram preponderantes. Ao longo dos tempos, em eras faraônicas e greco-romanas, sobre o comado de Ptolomeus, Faiyum floresceu mais uma vez como um local estratégico alimentar e canais e sistemas de irrigação transformaram a região construindo uma nova paisagem. Nas redondezas os deuses proliferaram, e o culto ao crocodilo Sobek, símbolo da fertilidade do lago e da água, em Arsinoe eram comuns na região.
Em outros pontos, sítios arqueológicos, como o Karanis, onde afloraram restos de casas, estátuas, papiros e cerâmicas que remontam do dia a dia dos camponês e dos soldados, que se expandiram com Augusto, imperador romano. O local, conta com a restauração de diques e canais de outrora o que tem tornardo o local mais um vez produtivo, até mais do que na conquista sassânica do Egito, do século VII e que foi abandonada. Um outro ponto, é o sítio de Hawara, que possui a famosa pirâmide de Amenemhat III que conta com o labirinto misterioso que a rodeia e os retratos de múmias do Faiyum – pinturas realistas em painéis de madeira que eram afixadas às múmias egípcias da elite no período romano, notáveis pela individualidade e realismo ( eram retratados com características individuais, com penteados, joias e roupas semelhantes da sociedade romana), num misto das tradições funerárias egípcias (ou seja, a expressão do rosto da múmia ser semelhante ao indivíduo, para que a alma encontre o corpo, após a morte) e técnicas artísticas romanas em têmpera – pigmento com aglutinante solúvel em água e a encáustica – técnica de pintura que remonta à Antiguidade e consiste do uso de pigmentos e de cera quente emulsionada, o que produz um efeito de translúcido de cores). Histórias e curiosidade científicas típicas dos arredores da vila de Tunis.


Tunis nasce na atualidade regada por todo esse arsenal, herdeira absoluta de práticas e costumes milenares. Essa pequena aldeia de pescadores e agricultores, na margem sul do lago Qarunm, teve mais uma grande transformação, como se a história teimasse em se refazer de tempos em tempos. Então, nos anos 1960 e 1970, por uma história de amor e paixão, a artista suíça Evelyne Porret e seu marido, o poeta egípcio, Hassan E. Sharp mudam-se para a vila e Evelyne funda a Escola de Cerâmica de Tunis, tornando essa manifestação artística em uma cultura local, uma realidade com práticas e estilos próprios, misturada à tradição rural do Egito – modelos simples e pinturas fortes com formas orgânicas e assimétricas, em esmaltes de tons azuis, ocres, verdes e turquesa, com decorações de pássaros, peixes, palmeiras, oásis e camelos, trazendo para cada peça uma expressividade contemporânea em pertencimento, com contextos de identidade e patrimônio cultural. Isso permitiu uma proliferação econômica, fomentando a cidade e impulsionando a abertura de vários ateliês, transformando o local e sua população, trazendo o reconhecimento nacional, com um crescimento orgânico, de pais para filhos, que se alastrou. Contudo, a originalidade do local foi mantida, com a conservação das casas de barro, das tapeçarias que estão em todos os cantos, dos teares nos quais as tecelãs trabalham com maestria, das crianças que nascem aprendendo os ofícios, com o respeito à cultura milenar e à memória, permitindo que o dia a dia prosaico se mantivesse e a arquitetura fosse se expandindo sem “prostituir” o estilo, respeitando o ambiente, dando, assim, continuidade à estética e ao material do passado rural, preservando a memória afetiva, o que torna Tunis, uma vila única no meio do rico solo egípcio.

TERRA DOS DEUSES, DEUSAS E FARAÓS
Virar as ruas, as vielas de Tunis e caminhar por trechos daqui nos faz deparar com o cotidiano lento e sútil, a atmosfera atemporal, logo os sons e os aromas nos envolvem e nos faz piscar de olhos. Ouve-se os grasnidos das aves de rapina, que comumente cobrem o céu e também são vistas nos braços de homens, vendadas e treinadas intensamente, numa espécie esportiva de domesticá-las – a falcoaria – simbiose entre o homem e a selvagem espécie que remetem a milênios. Questões míticas com Hórus, deus do céu, da caça, da realeza e protetor dos faraós que, frequentemente, eram representados por uma cabeça de falcão. Assim, os tunisianos, mesmo sem uma ação concreta de ligar o passado ao presente, trazem junto a esses seres, um religare, um imaginário de salvaguarda e poder. Nesse lugar, tudo que vemos transmite memória, herança com elos ancestrais e tradições que se modernizam – criam outros tratados, mas não quebram os laços com suas identidades.
No oásis de Faiynum, especificamente nessa vila, as tradições estão nas memórias que vêm sendo revividas e que, como mantra, vão sendo rememoradas pela sonoridade dos ventos, pelas cores que há centenas de anos se recriam e pelo DNA dos que aqui vivem. Aqui na terra dos deuses, deusas, faraós e das antigas práticas politeístas, da magia – dos amuletos, da vida após a morte, da ciência na prática e na técnica de outrora. Ainda pairam no ar pueril e quente, os encantos e mistérios dos saberes mais antigos da humanidade, aqui a cada miragem há uma mensagem que traz uma sensação de imenso aprendizado. A vila de Tunis é um recanto onde se amanhece com umfeteer – massa folhada servida com mel e queijo no café da amanhã, almoça-se muito bem com pratos sortidos de pato, frango ou coelho grelhado. Se quer algo diferenciado, permita-se uma molokheya – sopa de folhas de juta. Entretanto, as delícias daqui estão nos chás que são diversos e sempre bem servidos – menta, funcho, canela, hortelã pimenta. Uma profusão que são tomados em abundância e com carinho, hospitalidade e ritualística, sempre sendo servido pelo chefe da família em pequenos copos de vidros e em três etapas – do mais amargo ao doce e suave. Assim é Tunis, a cada momento, em cada diálogo tecido por aqui.



