HORIZONTE: SHANGAI – A POTÊNCIA QUE IMERGE DAS ÁGUAS

Por Andrea Hunka

Produção Sofia Hunka

Fotografia Aleksandra Bankowicz

Sobre os vagalhões e o chacoalhar da bravura dos oceanos formados pelos tufões, no domínio do líquido primário que banham essas terras, quase escassa, que literalmente são emergidas pelos mares da China Oriental e do rio Huangpu, num solo que outrora era fertilizado pela força do elemento tão pertinente em sua formação – a água – Shangai corre plácida, literalmente plana, entre as histórias travadas pelos Juncos, navios antigos, que fizeram desse lugar um esteio de trocas e escambos com o mundo, mudando os contextos tão pertinente ao universo oriental.

Os velames (velas) fabricados de lâminas rígidas atravessaram o vento sobre o ímpeto das descobertas na necessidade da cabotagem, navegação mesmo que internas. Nessas terras cultuadas pelo olhar e a filosofia de um povo por essência ensimesmado e rodeado de muralhas, a cultura e identidade foram forjada nos alicerces do Confucionismo que tem como base, o moralismo pessoal e governamental, os procedimentos corretos nas relações sociais, a justiça e a sinceridade. O legalismo, o senso de errado e do certo muito estático e sobre uma ótica de bravura, amabilidade e gentileza, respeito, frugalidade, modéstia e discrição. Assim, é o cerne do povo chinês, seus pensamentos sempre estão centrados no processo de correlação, suas referências não estão voltadas como o homem ocidental, ao criador e a criação do universo, mas posiciona-se diante da natureza e se ver como parte menor dela. Para eles, suas estratificações sociais, desde o princípio de suas pequenas vilas, tinha uma visão cósmica voltada para os sinais proféticos.

Esse solo, o da China mais ao oriente foi e é berço de camponeses e pescadores, do Daoísmo, das linhagens e seus vilarejos alicerçados por uma estrutura familiar que fez simbiose com o estado, tendo como centralidade a figura paterna, como detentor das leis e patrono das tradições, onde o ancião tem o domínio ao jovem, e o casamento entre esses sempre foi cultuado. Nessa estrutura, a mulher era posse de seu marido e sua situação ante a sociedade estava imersa no código Yin e Yang, onde a mulher era obscura, fraca e passiva.

Assim, essa fração do mundo, berço das dinastias conhecidas por suas opulências, como Qin, Han e Sui-Tang, entre outras, disseminaram nas veias de seu povo virtudes silenciosas como paciência e pacifismo, honradez, o militarismo e suas diretrizes e condutas, a formação de caráter, autocontrole até dos desejos mais íntimos. Nesse ímpeto, o povo tem como orientação exigir-se na base de treinar até exaurir-se.

Entre o medo de invasões dos povos de outras localidades que sempre foram intitulados de bárbaros, as lutas e suas maiores dificuldades que estavam em manter seus interesses no fluxo das cercanias. A China se debruçou entre sua época áurea e seus declínios, sua própria divisão e entrada de algumas culturas como a do Budismo que, hoje, se entrelaçam em seus princípios. Shangai, que outrora foi chamada de Aldeia de Quilong, tem seus alicerces fincados na cultura do algodão e, devido a esse ouro branco, as circularidades de diversos povos para a compra deste foi inevitável e tem aí o começo de sua história como grande potência. Porcelana, seda e chá foram riquezas cobiçadas e essas trouxeram, entre outras coisas, a avareza do mundo frente às suas limitações.

A força de uma flor singela que produz um látex leitoso, coagulado que seco e vira uma pasta castanha com alto poder anestésico e entorpecente fez de seu povo submisso aos bárbaros de outrora, sendo esses ingleses, franceses, americanos e japoneses, através de sua maior fraqueza, a dependência do substrato, o ópio, que os vitimizou, os encurralou, e os tornou dependentes, causando rachas entre relações internacionais e guerra. Shangai foi dividida, sua cultura miscigenada, sua arquitetura ficou entre os Tings (pavilhões chineses), os Ges (dois pavilhões), os Tas (pagodes chineses) e a Art Décor.

A exploração, o vício, o jogo são até hoje vistos em rodadas em diversos lugares e a prostituição como sua sequela mais devastadora. Shangai tornou-se, assim, esse âmago de descontentamento das classes, da revolta, da formação do Partido Comunista em suas regiões, do Movimento revolucionário pelas tropas de Chang Kai-Shek, do controle dos Japoneses, na II Guerra Mundial, de refúgio dos judeus.

Ela é a idade que se tornou a que mais cresce na China, o milagre econômico. A opulência de seu poder internacional que emana de suas águas que levam fluxos e trazem divisas, a Shangai da cidade tradicional Yuyuan Bazaar construída em formato de zique-zaque para espantar maus espíritos, do jardim Yu, construído na dinastia Ming (1559), um presente do governante Pan Yunduan ao seu pai, a casa de Chá, Huxinting, com seu lago construído há mais de um século e o templo Chenghuangmiao, os protetores da cidade. Shangai que desvela com suas casas coloniais sobre as águas do mar, o seu centro Bund. De seus edifícios futuristas cheios de arquiteturas intrépidas com seus ângulos sinistros, Lujiazui, o centro financeiro em Pudong. Os museus e edifícios históricos como o Templo da Cidade dos Deuses, a Torre Pérola Oriental.

A sua culinária que traça um doce incomum,  sua diversidade cosmopolita, mas entre esse prisma existe uma outra a desvelar, a cidade que se traça nos comidas instantâneas, pela velocidade que a vida tem por esses lados, os quintais nas construções Shikumen, estilo que coaduna os traços europeus com os orientais, arquitetura tradicional de Shangai, onde senhores conversam sobre todos os tipos de assunto, levam sol, cozinham e se higienizam já que não tem banheiros separados nesses lugares. As lavanderias que são um assunto a parte, pois são compartilhado fora de suas residências, no meio da rua com as roupas nos varais, as lingeries compondo um cromo atraente, algo tão cotidiano, simplório, contrastando com os arranha-céus luxuosos, ao longe.

Sim, não poderia deixar escapar as praças que têm vida ativa com diversas práticas que vão de pessoas que dançam, cantam com os seus instrumentos, fazem tai chi e caligrafias com água pincelada no chão. As ruas dessa cidade vibram entre multidões que as usam em busca de diversas atividades prosaicas – um jogo no tabuleiro, um alfaiate em seu ofício, uma suave sensação de tomar chá na calçada, beber algo para aliviar a tensão do dia ou se alimentar com caldos, macarrão e muito bao ou baozi – trouxinhas de pão chinês assado no vapor e recheado com carnes ou vegetais, podendo ou não ser apimentado. A carne de porco e frango por esses lados são mais comuns e são insumos para kung pao, lámen, dim sum, rice noodles. Pato de Pequim, cervejas excelentes e o iogurte quente, sempre no inverno vendido na rua, com um canudinho. Shangai é esse misto curioso, entre culturas diversas, sobre a opulência do rico comércio, a avançada tecnologia, o centro financeiro de uma das maiores potências mundiais – a China, mas como toda cidade com sua tradição, fração cultural, sua história, seus percalços, suas vitórias e fracassos, suas virtudes e problemas incrustada sobre o signo da água, a placidez de seu povo que errante segue com sua filosofia perdida e guardada, sob os olhares majestosos de seus anciões.