a linha do tempo de Márcia Casanova, apenas quatro dias separam seu aniversário de 21 anos e a viagem que mudaria sua vida. Recifense de família paraibana, decidiu que partiria rumo a São Paulo assim que pôs as mãos no diploma de Odontologia, conquistado na Paraíba, aos 20 anos e meio. Esperou seis meses, atendendo às ordens dos pais, para organizar a bagagem e cruzar o país. Foi em São Paulo que, nos anos seguintes, se tornou mestra e doutora em Radiologia, conheceu o marido e descobriu que seria mãe. A autonomia de sua versão adulta, lapidada longe da cidade natal, lhe rendeu os primeiros artigos científicos internacionais e nacionais, a administração das finanças da própria casa e, ainda, a decisão de embarcar para uma especialização nos Estados Unidos. “Eu sou adepta da boa e velha listinha de coisas para fazer. Quando eu concluo e risco tudo que estava previsto, é um prazer virar a página”, ela conta, em entrevista em sua casa no Paiva, Região Metropolitana do Recife, onde vive. Falando sobre seus métodos de organização da rotina, Marcia não percebe, mas constrói a metáfora perfeita para o rumo que deu à própria vida.

“Meu grande sonho era ser professora universitária. Fiz especialização em Ortodontia, mestrado e doutorado em Radiologia, todos na Faculdade de Odontologia de Piracicaba, da Unicamp. Não foi fácil abrir mão de tudo isso, daquele sonho, quando decidimos trabalhar juntos, há quase dez anos”, conta Marcinha, como é conhecida, ao se lembrar do momento em que, tendo tudo concluído, virou a página. E assumiu, após 13 anos de carreira na Odontologia, o controle sobre todas as movimentações financeiras da clínica Memorial Oftalmo, fundada pelo marido, Fábio Casanova, em 2008. Hoje, enquanto o centro médico prospera – com inauguração de uma nova clínica na Zona Sul do Recife prevista para 2020 -, ela colhe os frutos daquela decisão. E, determinada, não para de trabalhar. “A Marcia odontóloga me fez perfeccionista, imediatista. Não são necessariamente qualidades. Mas as minhas experiências anteriores me deram um bom senso de organização, me tornaram metódica, o que faz muita diferença no meu trabalho hoje. E as dificuldades financeiras que atravessamos me fizeram ter muita consciência em relação a dinheiro. Me ensinaram que o valor que entra não é o que podemos gastar. Que é preciso ter um bom planejamento financeiro. Saber viver com pouco e saber viver com muito”, analisa.

Mãe de Julia e Gustavo, ela concilia as funções de sua vida pessoal com as dos bastidores do Memorial Oftalmo. E, vez em quando, as demandas se misturam. “Eu tenho o privilégio de trabalhar em casa, o que requer muita disciplina. Sou dona dos meus horários e não trabalho dentro da clínica. Resolvo as coisas remotamente, inclusive por aplicativos. Gostaria até de usar menos o WhatsApp para isso ou falar menos de trabalho dentro de casa, mas é impossível. Meu dia deveria ter 36 horas, mesmo acordando todos os dias às 5h10 da manhã. O tempo é meu principal desafio para fazer tudo que preciso, principalmente com uma filha entrando na adolescência, que requer mais atenção”, confessa. Para otimizar o recurso inevitavelmente limitado de horas, ela lança mão de rituais: às segundas, lista e ordena demandas e pendências. E se reserva algumas horas por dia afastada dos compromissos e do celular, às terças e quintas, as aulas de ballet, e diariamente, a academia.

Entre boletos, prazos, impostos e planilhas, Marcia Casanova não teve a chance de se preparar antecipadamente para a função de gestora financeira da clínica, atribuída oficialmente a ela em 2010, mas a vida lhe garantiu alguns treinamentos. “Depois que nos casamos e fomos morar juntos, assumi a vida financeira do casal. Sem pretensão de um dia trabalhar com isso. Nunca imaginei”, lembra. “Quando terminei meu mestrado, decidimos morar um tempo nos Estados Unidos, em Boston. Eu fazia fellowship na Boston University e trabalhava numa das principais clínicas de odontologia do Centro de Boston. Eu não podia, legalmente, exercer a profissão. Então, trabalhava como auxiliar de consultório odontológico e também na parte administrativa, dando suporte ao gestor da clínica. Era a funcionária de ouro dele, e dava suporte no setor financeiro, que era administrado por sua irmã. Comecei organizando arquivos, pondo as pastas em ordem alfabética… e, um dia, descobri mais de 500 mil dólares que ele ainda não tinha recebido dos convênios de saúde, enterrados numa gaveta, simplesmente porque a irmã dele não tinha enviado aos convênios. Ele ficou surpreso”, recorda Marcia, que recebeu a proposta de permanecer nos Estados Unidos, naquela clínica, e revalidar sua formação na Odontologia. Mas recusou. Hoje, ela percebe – aquela era um ponte, em vez de um desfecho, para o que estava por vir.

“A vida real é muito diferente do fantástico mundo dos sonhos. Quando concluí meu doutorado e voltamos para Recife, atuar no mercado de trabalho não era mais como eu idealizava. Dentro de uma clínica, chegava a assinar mais de mil laudos nos meses mais movimentados. Quando engravidei de meu segundo filho, já trabalhava com meu marido informalmente, ajudando nas finanças da clínica, que já não era tão pequena. Precisávamos deixar de vê-la apenas como clínica para vê-la também como empresa”, completa Marcinha. Naquela fase, enquanto Fábio Casanova se dividia entre as agendas em quatro estados diferentes, Marcia sabia que uma reviravolta se aproximava. “Foi quando Fabinho me convocou – o momento de decidir é agora. Precisava escolher se continuaria com minha carreira ou passaria a trabalhar com ele. A clínica crescia a olhos vistos e precisava de mim. Logo, logo, eu não conseguiria dar conta de tudo. Então, decidimos”, sintetiza. O marido, dez anos mais tarde, reafirma a decisão “O que eu mais admiro nela é essa organização. Para resumir em uma palavra, a segurança que ela me passa. Eu tenho segurança nela, confiança absoluta. Nunca a questionei”, revela o médico oftalmologista Fábio Casanova. Marcia, que deixou a Paraíba carregando “o sonho de ser uma mulher bem-sucedida”, encontrou o sucesso onde não esperava, como se ele é que estivesse à espera dela. “Foi a decisão mais difícil da minha vida, abrir mão de tudo que eu planejei. Mas faria tudo de novo, exatamente assim”, conclui.

ENTREVISTA: Marcia Casanova, empresária

Qual o segredo para conciliar o trabalho junto ao marido e o casamento? O segredo é não trabalhar dentro da clínica. Trabalhar remotamente. Eu trabalho com ele, mas não estou todos os dias na clínica. Trabalho com ele sem estar com ele. Cada um precisa do seu espaço, de sua individualidade. Além disso, o respeito. Ele respeita muito minhas opiniões, minhas decisões. Me envolvo muito na administração dos funcionários, no bom relacionamento da equipe, nas estratégias de publicidade. O DNA da empresa é familiar. Vamos decidindo juntos, administrando juntos.

Como vê o papel da mulher no meio financeiro e de gestão? Como lida com preconceitos ou resistências nesse sentido? Eu acho que existe espaço para a mulher em qualquer área. A mulher é naturalmente uma administradora. Eu não sou machista, nem feminista. Mas o mundo é machista. Quantas vezes uma observação desnecessária é feita sobre uma mulher estar em determinado lugar, em determinada função? As pessoas acham estranho quando as mulheres ocupam determinadas posições. A mulher é diferente do homem, é um turbilhão de emoções. Mas ela tem qualidades que o homem não tem. Ela consegue fazer mil coisas ao mesmo tempo. O homem faz mil coisas, cada uma no seu tempo. A gente consegue cuidar de tudo ao mesmo tempo, de uma só vez.

Qual a sua maior vaidade? Sou muito vaidosa… Gosto de me cuidar e me cuidar para mim mesma. Eu sofro demais se não estou bem comigo mesma. Eu me cuido muito porque eu preciso estar bem comigo para estar bem com os outros.

E qual a sua terapia? O que faz para relaxar? Para relaxar, eu viajo, vejo redes sociais… E faço ballet, que é minha grande terapia. Eu fiz ballet até os 16 anos, quando entrei na faculdade e descobri que não teria mais tempo. Antes, eu me dedicava ao máximo, praticava de segunda a sexta, saía de casa duas da tarde e praticava até oito da noite. O ballet é minha grande paixão, sempre foi. Eu nunca fui bailarina profissional, mas era o que eu gostava de fazer. Eu adoro dançar. Sempre quis voltar, mas não tinha tempo, não conseguia encaixar na minha rotina. Há dois anos, decidi retomar o ballet. E são as duas horas mais relaxantes da minha semana. Para me sentir bem fisicamente, eu preciso fazer ballet e correr. Mas minha saúde emocional é totalmente dependente da minha família, sou incompleta sem meu marido e sem meus filhos ao meu redor.

AGRADECIMENTO LE LIS BLANC (VESTIDOS E SAPATO)