
Aos 30 anos, Daniel Rangel vive um momento de amadurecimento artístico e de consolidação de sua trajetória na televisão. Atualmente no ar como Manoel Aragão, em A Nobreza do Amor, o ator encontra no personagem um dos trabalhos mais distantes de sua própria personalidade — e justamente por isso, um dos mais estimulantes de sua carreira. Em sua quarta novela consecutiva, Daniel encara um papel complexo, marcado por medos, conflitos e relações delicadas, construído a partir de uma preparação cuidadosa para uma trama de época.
A experiência também reflete uma nova fase profissional: mais seguro para arriscar, fugir de escolhas óbvias e compreender que a atuação se fortalece na escuta, na troca e na capacidade de se surpreender em cena. Com 14 anos dedicados às artes, desde que deixou sua cidade aos 17 anos para estudar teatro no Rio de Janeiro, Daniel vem ampliando seus territórios entre televisão, cinema, streaming e também o universo digital. Em conversa com a MENSCH, o ator fala sobre a construção de Manoel Aragão, maturidade, escolhas profissionais, moda, redes sociais e o desejo de continuar encontrando personagens capazes de tirá-lo da zona de conforto.
Atualmente você vive Manoel Aragão em “A Nobreza do Amor”. O que mais chamou sua atenção no personagem quando recebeu o convite para a novela? A possibilidade de construir um personagem muito distante de mim. O Manoel é complexo, tem muitas camadas. Gosto muito desses personagens que permitem fugir do óbvio e descobrir novas possibilidades como ator. Mas o que mais me chamou atenção antes mesmo de saber do personagem foi ver a equipe que estava sendo formada. Trabalhar pela segunda vez com o texto primoroso de Duca, Júlio e Elisio, e a condução generosa, cuidadosa e extremamente talentosa de Gustavo Fernandez e toda equipe dele, é um sonho pra qualquer ator.


Como foi o processo de construção de Manoel? Houve alguma pesquisa ou preparação específica para encontrar o tom e a personalidade do personagem? Novela de época sempre exige um trabalho mais minucioso de preparação, principalmente quando envolve uma prosódia, um sotaque que não é o meu. Tivemos uma preparação intensa e muito valiosa em dezembro antes das gravações começarem. Um time incrível, Jeff Miranda, Toni, Rose, Iris… Nessa preparação fui entendendo quem ele era, de onde vinha, quais eram suas relações e o que fazia com que ele enxergasse o mundo daquela maneira. Também trabalhei muito a postura, o jeito de falar e de se movimentar, porque são detalhes que ajudam a criar uma pessoa que não sou eu. A construção acontece muito também durante as gravações, porque você vai descobrindo coisas novas a cada cena.
Ao longo da trama, quais características de Manoel você acredita que mais se aproximam de você e quais estão mais distantes da sua personalidade? Eu e Manoel somos diferentes em praticamente tudo, talvez o meu personagem mais distante de mim até hoje, menos no deboche. É uma defesa que às vezes eu uso na vida e o Manoel também. Mas o Manoel é um personagem que tem muito medo, muito medo da vida, dos próprios sentimentos, de encarar o que tiver pela frente pra lutar pelo que ele ama, de dizer a verdade pras pessoas. Sou completamente o oposto disso, talvez por isso seja tão interessante dar vida e ele, me imaginar vivendo sob essas crenças limitantes e essas circunstâncias terríveis, como a relação tóxica que ele tem com o pai e com o “melhor amigo”.

Essa é sua quarta novela seguida. Sinal de que os autores e o público gostam do seu trabalho. E você sempre pronto para um novo desafio. Como enxerga isso? É uma alegria muito grande, eu sonhei muito em viver a vida que vivo hoje! Ao mesmo tempo, tenho total dimensão da responsabilidade que isso traz. Cada trabalho precisa trazer alguma coisa nova. Não gosto de repetir o que já fiz. Quero continuar aprendendo, sendo desafiado e encontrando personagens que me façam crescer.
Uma novela é uma obra aberta, e os personagens também podem ganhar novos caminhos a partir da repercussão junto ao público. Manoel mudou de alguma forma desde aquilo que você imaginava no início das gravações? Com certeza. Uma das coisas mais bonitas da novela, da obra aberta, é justamente essa possibilidade de descoberta. Você começa com uma ideia do personagem, mas ele vai ganhando se transformando durante o processo, aos olhos do público e muitas vezes pelo retorno ou não retorno do público. As relações com os outros personagens também modificam muito a maneira como ele vai existindo na história. O Manoel, conforme a história foi avançando, foi ganhando cada vez mais novas camadas e nuances, isso é o olhar atento de Duca, Júlio, Elisio e uma equipe incrível de colaboradores que fazem essa mágica acontecer.
“A Nobreza do Amor” marca mais um momento importante da sua trajetória na televisão. O que esse trabalho representa na fase profissional que você vive hoje? É meu primeiro papel sem estar na casa dos 20 e poucos anos. Fiz 30 em Outubro do ano passado e logo depois comecei na novela. Então acho que representa de certa forma, um amadurecimento. Eu olho para os trabalhos que fiz antes e consigo perceber o quanto fui aprendendo em cada um deles. Hoje me sinto mais seguro pra errar, pra arriscar mais em cena, em escolhas não óbvias, me sinto mais inquieto artisticamente. Quero continuar me colocando em situações que não domino completamente. Acho que esse é um dos caminhos pra gente continuar evoluindo.


Você começou a atuar ainda muito jovem e cresceu profissionalmente diante das câmeras. Como percebe sua evolução como ator e o que mudou na sua maneira de encarar um personagem? Nem tão jovem assim… rs Me mudei pro Rio com 17 anos pra estudar teatro e assim comecei minha vida nesse universo das artes. São 14 anos respirando isso dia e noite. Mudou muita coisa. Quando somos mais jovens, existe uma ansiedade maior para acertar, para mostrar que você sabe fazer. Com o tempo, aprendi a ouvir mais, observar mais e confiar no processo. Hoje entendo que atuar é muito saber estar presente e deixar a cena acontecer, ouvir de verdade os outros personagens que estão na cena com você. Ser flexível e poder ir pra qualquer caminho que a direção quiser ir, jogar junto com o todo, sempre! Nosso trabalho é coletivo! Tenho muito mais consciência das minhas escolhas, mas também aprendi a não querer controlar tudo.
Com o amadurecimento, você passou a ser mais criterioso na escolha dos trabalhos? O que um personagem precisa ter hoje para despertar seu interesse? Sim. Acho natural que isso aconteça com o tempo. Hoje, cada vez mais, procuro personagens que tenham alguma coisa para me provocar, que me façam sair da minha zona de conforto. Não precisa necessariamente ser um protagonista ou completamente diferente de tudo que já fiz. O mais importante é existir uma história que tenha algo a dizer e um personagem que me permita investigar algum aspecto novo. E os envolvidos no projeto também importam muito, isso tá no topo da pirâmide na hora de dizer sim ou não pra um trabalho.

Televisão, cinema e streaming apresentam ritmos e linguagens bastante diferentes. Existe algum desses formatos que atualmente mais desafia ou estimula você como ator? Eu gosto justamente da possibilidade de transitar entre eles. Cada formato exige uma preparação e uma entrega diferentes. A televisão tem uma velocidade muito própria, uma sensação constante de criar junto com o público, enquanto o cinema geralmente permite uma construção mais aprofundada, com outro tempo e outra linguagem. O streaming e a internet também trouxeram novas possibilidades de contar histórias. Tenho vontade de experimentar cada vez mais essas diferenças, porque acredito que um formato alimenta o outro.
Além da atuação, moda, comportamento e imagem ganharam cada vez mais espaço na trajetória dos atores de sua geração. Como você define seu estilo e qual é a sua relação com moda e cuidados pessoais? A moda é uma forma de expressão. Gosto de experimentar, de conhecer marcas e estilistas diferentes e entender como determinada roupa pode comunicar alguma coisa sobre quem está usando. Ao mesmo tempo, não gosto de sentir que estou seguindo uma regra. Meu estilo muda de acordo com o momento. E os cuidados pessoais também passaram a fazer parte da minha rotina, principalmente porque entendo que imagem é uma extensão do nosso trabalho, mas sem deixar de ser algo pessoal.

Como é sua atuação nas redes sociais? Já virou um negócio paralelo ao trabalho de ator? Atualmente minha rede social é meu espaço de criação, onde já tenho uma comunidade que me acompanha de outros trabalhos, mas que também gosta do que produzo pra eles ali, tenho me dedicado a criação de projetos e formatos, sendo ponte e juntando outros artistas e criadores. Sonho Meu e Foi Cena são criações que me deixam muito realizado artisticamente.
Depois de Manoel Aragão, que novos territórios você gostaria de explorar? Existe algum tipo de personagem, gênero ou projeto que ainda falta na trajetória de Daniel Rangel? Tenho muita vontade de experimentar coisas diferentes. Quero fazer personagens que me desafiem cada vez mais. Também tenho vontade de aprofundar minha relação com o cinema e explorar diferentes gêneros. Acho que ainda tenho muitos territórios para descobrir. Depois de tantos trabalhos, o que mais me interessa é justamente não saber exatamente qual será o próximo desafio.

Fotos Patrícia Crespo
Styling Isabela Manhães


