ESTRELA: NANDA MARQUES É PURO ENCANTO EM HORÁRIO NOBRE

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Com uma trajetória construída entre o teatro, o cinema e a televisão, Nanda Marques vive um momento de amadurecimento e projeção na carreira. Desde sua estreia na TV em A Fórmula, a atriz vem conquistando espaço em produções como Onde Nascem os Fortes, Um Lugar ao Sol e o sucesso Beleza Fatal. Agora, na novela Quem Ama Cuida, ela mergulha nas contradições e complexidades de Bruna, uma personagem que desafia sua capacidade de explorar diferentes emoções e comportamentos.

No cinema, Nanda assume outro importante desafio ao interpretar Graziela Gonçalves na cinebiografia Chorão: Só os Loucos Sabem, ao lado de José Loreto, seu parceiro também na vida pessoal. Um trabalho marcado por intensa preparação, entrega emocional e conexão com a história do vocalista do Charlie Brown Jr. Aos 31 anos, a atriz demonstra inquietação criativa e o desejo de ampliar seus horizontes, inclusive como roteirista e produtora. Nesta entrevista à MENSCH, Nanda fala sobre suas escolhas profissionais, a construção de personagens, os desafios da exposição pública, o relacionamento e os sonhos de uma carreira dedicada à arte e a histórias que realmente importam.

Você começou sua trajetória artística ainda jovem, no teatro antes de se consolidar como atriz de TV. O que essas diferentes experiências trouxeram para a profissional que você é hoje? A experiência no teatro me trouxe e me traz confiança, o estado de brincadeira, do corpo quente, do improviso. Me sinto aquecida sempre que estou fazendo; sinto que ocupo mais espaços em mim e no mundo. É algo que contempla muito como ser humano e como atriz. Estar em comunhão com o público dessa forma tão particular e íntima é muito transformador, tanto no micro quanto no macro. Acho que todas as experiências se somam e acrescentam. Acredito que estou mais confiante depois de passar pelo teatro; estive em cartaz pouco antes da novela e acredito que é uma ótima fórmula. Quando acabar a novela, quero ir para o teatro de novo e vice-versa: explorar e orbitar por todas as áreas — teatro, cinema e TV.

Desde sua estreia na televisão, em “A Fórmula”, você passou por projetos importantes como “Onde Nascem os Fortes” e “Um Lugar ao Sol”. Em que momento sentiu que havia encontrado seu espaço como atriz? Eu acho que foi no primeiro dia que pisei no teatro, na minha primeira aula, aos 12 ou 13 anos… E depois no cinema, quando fiz minha primeira protagonista em “Nas mãos de quem me leva” e, pouco tempo depois, “Colônia”, também como protagonista. Essa responsabilidade me deu o insight de que estava realmente rolando, de que meu sonho estava de fato em andamento. Entendi mais propriamente o trabalho do ator, a importância social, de construção de pensamento, de abordar temas da nossa história — da história do Brasil —, para que eles nunca mais se repitam. Ali da tela, fazer as pessoas sonharem, pensarem, se distraírem… Eu acho que essa sensação de que encontrei meu espaço vem e vai em muitos projetos, já que nossa profissão é essa busca contínua por oportunidades. Mas, quando penso com mais carinho em tudo que já tive o privilégio de estar, sei que de fato já encontrei e vou continuar encontrando.

O que mais mudou na Fernanda atriz ao longo desses anos: a técnica, a confiança ou a maneira de escolher e compreender seus personagens? Acredito que tudo isso. A técnica, com certeza: a gente vai vendo na prática o que funciona, o que deixou de funcionar, o que de novo trazem e você pega para si. A confiança é algo que sempre nos foge, né? Não sei vocês, mas eu vejo isso em muitos amigos da vida. Temos dias — às vezes períodos — confiantes, mas eles nos escapam nessa rotina doida. Então, é sempre uma busca por esse lugar tão potente e transformador. E isso tudo diz respeito a como compreendemos nossos personagens. Acho que, para mim, sempre foi assim: nunca tive certezas absolutas sobre eles, tal qual não tenho nem de mim, (risos). Todo dia estamos de um jeito, pensamos, mudamos de opinião, de humor, e os personagens também. Isso deixa eles vivos, errantes, únicos.

“Beleza Fatal” marcou sua presença em uma produção de grande repercussão no streaming. O que esse trabalho representou para sua carreira? Foi incrível estar num projeto com tanto alcance. Acho que trouxe um público novo e resgatou um público que não via mais tanto novelas; as pessoas ficaram novamente apaixonadas pelo gênero. Foi muito importante para mim quanto atriz; tivemos todos uma projeção ótima, além do privilégio de trabalhar com Rafael Montes, Maria de Medicis e esse elenco de tirar o fôlego, como Camila Pitanga e Giovanna Antonelli. Foi lindo receber o amor do público nas redes sociais, ver as pessoas na rua engajadas com a história. Fiquei muito feliz.

Agora, em “Quem Ama Cuida”, você vive um novo momento na televisão. O que mais despertou seu interesse na personagem e na história? Essa mulher errante por si só. Eu, como atriz, fico muito instigada e curiosa por pessoas complexas. Bruna não é uma coisa só, e tem sido bom arriscar, dar humanidade, entender alguém que age de formas equivocadas a partir de dores internas muito compreensíveis. Eu estou amando a experiência de vivenciar essa pessoa de camadas, que ama tão desesperadamente. Acho que tem sua beleza essa estranheza… Até rimou, (risos). Eu acho que a gente sempre acaba se identificando com todos os personagens de alguma forma. No fundo, todos nós compartilhamos da mesma essência humana: sentimos amor, dor, tristeza, alegria. A gente carrega as mesmas cores dentro de si, só que em tons e intensidades diferentes. Por isso é tão natural ter empatia por eles, porque o sentimento deles é real.

Na vida prática, nas atitudes e nos valores, eu acabo me conectando muito mais com a Graziela. Mas eu não julgo nenhuma personagem. Todas elas carregam uma humanidade profunda — com todas as suas luzes e defeitos. Eu tenho um amor muito parecido por cada uma, porque me entrego de corpo, alma e tempo para construir cada história da melhor forma possível.

Existe algum tipo de personagem ou gênero que você ainda não teve oportunidade de explorar e gostaria especialmente de fazer? Ah sim, eu tenho muitas vontades dentro de mim. Tenho um amigo que me chama de “passarinho quero-quero”, (risos). Eu quero tudo, quero experimentar muitas personagens. Tenho vontade de fazer um grande clássico do teatro, também de fazer uma vilã tipo Pilar, Carminha na TV, e também uma mocinha de época — doce, mas corajosa… Brincar com todas as cores e tintas possíveis desses sentimentos que temos dentro de nós.

No cinema, você interpreta Graziela Gonçalves em “Chorão: Só os Loucos Sabem”. Como foi assumir a responsabilidade de viver uma pessoa real e tão ligada à história de um artista que marcou uma geração? Foi um projeto que eu pedi muito aos céus, ao universo. Me conectei imediatamente com a história, li o livro algumas vezes e me identifiquei muito com ela. Eu já era fã do Chorão, cresci ouvindo. Ele me inspirou a ser a pessoa que sou hoje; suas músicas potentes sobre encontrar seu lugar no mundo, sobre sonhar, buscar, ir atrás e acreditar sempre me mantiveram num lugar de fé em mim mesma. E, lendo o livro, eu vi o quanto ela levou isso para ele: apresentou os livros, as músicas em português e influenciou muito a forma como Chorão via o mundo e a si próprio. Quando passei, me dediquei muito: assisti às entrevistas mil vezes, os documentários, li o livro também várias vezes, além da preparação com a Fátima Toledo, que é superintensa. Me conectei com Grazon, com José experienciando o Chorão, então foi feito com muito amor, responsabilidade e carinho.

Chorão permanece muito presente no imaginário brasileiro. Como foi o processo de pesquisa e preparação para entrar nesse universo sem transformar a personagem apenas em uma reprodução da realidade? O diretor deu essa liberdade e até pediu que trouxéssemos muito de nós; ele não queria uma cópia. Fiz diário da personagem, playlist, ouvi a discografia inteira várias vezes, assisti às entrevistas, documentário também muitas vezes, além de ler o livro ou passagens quase que diariamente. Também tivemos preparação com a Fátima Toledo, que é incrível. Acessamos, durante o processo, muitas camadas particulares nossas de dores profundas, alegrias, sonhos, e isso nos conectou aos personagens gradativamente.

Você contracena no filme com José Loreto, seu parceiro também na vida pessoal. Trabalhar juntos modifica a dinâmica em cena ou, quando começa a gravação, a relação profissional naturalmente se impõe? A gente se conheceu no processo, e foi muito orgânico. Como dividíamos tantas inseguranças, dores e segredos nessa preparação com a Fátima, ficamos quase melhores amigos. Sabemos um do outro mais que nossas psicólogas, talvez, rs. E quase três meses depois foi rolar algo. Foi muito natural e ao seu tempo. Não queria misturar trabalho e relação; talvez isso tenha adiado ainda mais, mas foi bom como foi.

Até que ponto dividir a mesma profissão facilita a compreensão sobre rotina, exposição, viagens e períodos intensos de gravação dentro de um relacionamento? Acho que facilita tudo. Sabemos de dentro o que é a rotina um do outro, etc. A compreensão se dá em conversas saudáveis e uma troca empática.

Você já falou sobre os desafios da exposição da vida pessoal. Como encontrar o equilíbrio entre preservar sua intimidade e compreender o interesse que acompanha uma carreira pública? Eu estou aprendendo ainda, não tenho uma conclusão ou resposta. Mas cada dia tenho me importado menos. Acho que entendi que é importante se dar a devida insignificância — a si e a algumas questões. Quando a gente tira o foco e olha por outra perspectiva, vê que não é algo que merece nossa ansiedade, receio ou tamanho que às vezes a gente dá. Tudo bem a curiosidade, desde que não me faça mal de fato. Continuo postando só o que me cabe, em coerência com o que estou sentindo no momento.

Aos 31 anos, vivendo uma fase de maior projeção profissional, o que você deseja construir daqui para frente — como atriz e também como mulher fora das telas? Tenho desejo de construir uma carreira onde eu possa escolher os projetos, brincar e vestir mil facetas. Essa estabilidade é o sonho de todos atores, com certeza. E também tenho desejo de fazer os meus próprios filmes, peças… Acho que isso me contemplaria como mulher, como ser humano: contar histórias que acredito, que acho que sejam importantes no contexto social, aprofundar temas que me interessam profundamente, como saúde mental e psicologia de modo geral, personagens complexas, relações cheias de camadas. Adoraria roteirizar, produzir, atuar em algo meu, ter minha identidade em todas as etapas. E colher os frutos disso: uma boa vida de arte, cultura, conforto e família.

Fotos Nanda Araujo

Styling Samantha Szczerb

Agradecimentos Nayane e Rabanne