Que Fernando Fernandes é um cara de grandes desafios, seja pelos desafios impostos pela vida, seja pelos desafios que ele mesmo vive procurando para superá-los. O que faz dele um belo exemplo de que realmente é possível dar a volta por cima e criar uma nova história. Em seu mais novo desafio, Fernando foi no limite, aliás, o No Limite foi ao encontro dele para propor mais esse vocês sabem, com Fernando é desafio feito, desafio aceito! E lá foi ele, caindo de paraquedas direto para apresentar a mais nova temporada do programa. E cá pra nós, tá tirando de letra. Assim como mais essa empolgante entrevista. Tem como não ser fá?

Fernando, você vive se desafiando no esporte e na aventura. Já chegou no seu limite? Acha que vai existir esse momento? Acho que essa questão limite, a palavra limite, é uma palavra que talvez geograficamente ela tem um sentido, mas quando a gente fala do ser humano, muitas vezes você se depara com situações que você acha que chegou no ponto final. Mas não, você pode recalcular a rota, você pode buscar um novo caminho para chegar onde você deseja, muitas  vezes, é isso não também. Ali é o fim da rota e você tem que aceitar isso, tem que ter sabedoria para entender quando é o fim e quando não é. Eu vou dar um exemplo – 10 anos atrás eu achei que nunca seria possível saltar de paraquedas sozinho, e depois de 10 anos, eu fui e realizei algo porque eu estava mais preparado, porque eu busquei uma nova rota, busquei um novo caminho e consegui chegar onde eu queria. Então, é tudo uma questão de ponto de vista e de entendimento.

É mais fácil administrar seu medo ou seu impulso por algo mais desafiador? O medo é bússola, o medo é o que me direciona, o medo é que me faz tomar as melhores decisões nos piores momentos. Então, eu aprendi a controlar o meu medo. Aprendi a não deixar ele me influenciar negativamente e acho que essa é a grande questão em como lidar com esse tal do medo, e o impulso por algo mais desafiador… O medo faz parte da minha vida e não é só da minha vida como atleta. Quando eu sento em uma cadeira de rodas e vou para a rua, eu estou lidando com esse medo mais desafiador e a gente tem que enfrentar. É aí que você administra esse sentimento que não pode te frear, tem que ser só um direcional, uma bússola.

Que novos desafios o programa No Limite te trouxe? São vários desafios –  desde estar no ar apresentando um programa tão dinâmico e que envolve pessoas, até as condições climáticas que mudam o tempo todo nas gravações – no mesmo dia temos chuva, vento, sol… mas tem sido tudo incrível e eu amo desafios, né? Então tá lindo!

Você é um cara que é exemplo de superação e garra. Você já era assim ou as limitações depois do teu acidente  impulsionaram a isso? Eu sempre fui atleta. O esporte fez parte da minha vida. Então, essa questão de garra e superar adversidades, sim sempre fez parte da minha vida. Mas hoje, eu acho que eu vou além do exemplo de superação e garra. Eu acho que todos nós, quando sentamos numa cadeira de rodas ou nos tornamos ou sendo uma pessoa com deficiência, essa palavra exemplo de superação já vem como um rótulo. Porém, eu acho que não só eu como muita gente vai além, muito além do exemplo de superação, eu já superei aquilo que eu tinha que superar. Hoje, eu procuro ser um cara muito bom naquilo que eu faço e que eu me proponho a fazer. Então, eu deixo esse exemplo de superação lá atrás, há 12 anos quando eu tive que lidar com a perda do movimento das minhas pernas. Hoje, eu procuro ser uma referência de excelência e de capacidade de alguém que conquista tudo aquilo que se propõe a fazer. Então,  acho que esse é o exemplo, exemplo de excelência, capacidade e força. E não mais o de superação.

Aliás, você se vê como exemplo? Se sim, em que momento? Eu me vejo como um cara que tenta estar sempre se movimentando, se cercando de coisas boas, de realizações… o cara que quer abrir caminhos e mostrar que todos somos capazes do que quisermos. Claro que recebo muitas mensagens carinhosas de pessoas que eu, de alguma forma, inspiro, fico feliz de estar nesse lugar… Entendo que esse espaço que eu estou ocupando hoje é muito importante, eu faço as pessoas refletirem sobre capacidade e incapacidade – eu estou representando muita gente. Mas como disse, hoje procuro ser uma referência de capacidade de alguém que conquista tudo aquilo a que se propõe fazer. Então, acho que esse é o exemplo, exemplo de excelência, capacidade e força.

Você é daqueles que quando ouve algo do tipo “isso não é pra você” ou “isso é muito difícil”, aí é que você quer? A gente já vive numa sociedade onde a educação é através do não, a gente não mostra caminhos, a gente só fala que não dá, não pode, não consegue. Então, isso já vem culturalmente, mas com certeza, quando eu me tornei uma pessoa com deficiência, esse não multiplicou. Então, isso foi uma das coisas mais provocativas que me fezeram me tornar quem eu sou hoje em dia. Esse tanto de não que eu recebi, isso era o que me motivava, o que me fazia querer mais, o querer provar para as pessoas que elas estavam erradas. Então, esse não vive na frente da pessoa com deficiência, e agora, a gente tá mostrando para o mundo que todos nós podemos, todos nós temos capacidade, temos condição de ser o que a gente deseja. Dessa forma, não só eu, mas todo mundo está aprendendo a fazer deste não, uma grande motivação.

Que limitações (físicas ou psicológicas) você ainda não conseguiu romper? Acho que a única limitação física é a de encarar que eu não posso voltar a andar, ou que eu ainda não posso voltar a andar, que os estudos sobre a lesão medular avançaram, ou que essa questão vai ser resolvida um dia. Assim, essa é a grande questão que não está ao meu alcance, mas o que está ao meu alcance, eu tento enfrentar e entender, o tempo inteiro.

O desafio de encarar um programa como o No Limite não é pouca coisa. Você já assistiu alguma das edições do programa? Se imaginava participando (fosse como competidor ou apresentador)? Algo te movia a isso? Assisti todas as edições, e, realmente, é um grande desafio com que estou tendo que lidar com raça, com vontade, com amor e com desejo de ser um cara que sempre quis ser participante do No Limite, mas agora estou aqui  de uma forma diferente. Então, o desafio me move aqui o tempo inteiro, e eu tô dando tudo que eu tenho para dar aqui.

Como foi a preparação e o ritmo de gravação? Eu me preparei como se eu estivesse indo para o campeonato mais importante da minha vida. E o ritmo está alucinante, o que vocês veem de intensidade nas provas, é o que a gente tá vivendo aqui o tempo inteiro.

Recentemente você se superou ao sobrevoar as Cataratas do Iguaçu. O que isso significou para você e qual foi o maior desafio nesse feito? Na verdade, acho que a relação da superação sobre o voo das Cataratas do Iguaçu está mais ligado ao medo que todos nós, que estivemos lá como piloto, sentimos do que o fato de sobrevoar as cataratas. Eu acho que sobrevoar as cataratas foi algo que a gente atingiu com êxito, um momento marcante, um sentimento único de estar num lugar tão intenso, tão forte, um dos lugares mais incríveis do planeta com grande risco. Todos os pilotos que estavam lá estavam extremamente preparados e prontos para fazer aquilo, e a gente conseguiu viver aquele momento e viver tudo aquilo.

Você sempre foi um cara boa pinta, ótima forma física e sempre muito bem vestido. Como administra a vaidade? O que te faz sentir bem quando olha no espelho? Eu nunca deixei a minha vaidade ser maior do que a minha felicidade. Por mais que antes eu tivesse as duas pernas funcionando e um corpo dito como perfeito, é da mesma forma, a minha felicidade sempre estava à frente da minha vaidade. Eu sempre gostei de me cuidar, sempre gostei de esporte, gostei de quem eu sou, e quando eu sentei na cadeira, nada disso mudou. Eu, em primeiro lugar, tento ser feliz, tento gostar da vida e de tudo que eu faço, tocar a vida da minha forma. Assim, a partir do momento que você faz isso e você sabe quem você é, e o que você quer da sua vida, a felicidade já está dentro de você. A sua vaidade é isso, é ser feliz. Então, eu me olho do mesmo jeito, a cadeira nunca foi algo limitador, nunca me fez menos homem, menos ser humano, menos pessoa, menos Fernando. Pelo contrário, ela sempre me engrandeceu. Se eu vivo tudo que eu vivo sentado numa cadeira, é porque realmente eu sou um cara que tenho a minha fortaleza e tenho algo dentro de mim muito grande. Dessa forma, quem está numa cadeira de rodas, tem que olhar com orgulho e falar: Eu sou forte! Além de tudo eu sou forte.

Para um cara que vive se desafiando… você tem medo de que? Só não vá dizer barata!! (risos) Meu maior medo está ligado a perder as pessoas que a gente ama e que gostamos de ter ao nosso lado. Então, acho que esse é um grande medo, não ter aquelas pessoas que a gente ama do nosso lado. E barata é complicado, (risos) o problema de ver uma barata é que não dá nem para correr” (risos).

Outra característica sua é a simpatia. Um cara querido por todos. De onde vem isso? O que te inspira a ser assim? Quando a gente tá de bem com a vida, a gente se torna uma pessoa simpática, a gente quer o bem dos outros, a gente recebe as pessoas, a gente troca. Então, essa questão da simpatia é o bem-estar, estar bem comigo mesmo!

Chega a hora de parar em casa… O que mais curte? Como recarrega essas baterias (que são atômicas pelo jeito (risos)? Vou falar bem a verdade, quando chego em casa, hora de descansar e pernas pro ar, o que eu mais curto é uma massagem da Laís. Isso aí não tem preço! (risos)

Qual a maior lição de vida até agora aos 41 anos? É tanta lição que eu aprendi! Estar com meu radar e meu coração abertos e ligados para receber tanta coisa, que tá nos nossos olhos, ao nosso redor e que a gente não vê. Então, eu continuo aprendendo muita coisa e vivendo muita coisa… Quando a gente tá com o coração aberto e o radar ligado, é uma lição atrás da outra, e a gente vê que não sabe nada da nossa vida.

E quais os desejos para os próximos anos? Vários desejos – casar, ter filhos, rodar o mundo inteiro, conhecer o mundo inteiro, ir a muitos lugares que eu não fui, tentar estar rodeado de pessoas boas, tentar fazer com que a gente tenha um mundo mais justo. Ver as pessoas mais felizes, ver as pessoas julgando menos e vivendo mais, querendo mais o bem do próximo. Tudo isso que eu desejo, desejo vida para todo mundo.

Fotos Carlos Sales

Beleza Vinicius Garcia

Styling GAJU – GabrielFernandes & JuliaMoraes

Locação Canopy Hotel SP