Já imaginou um executivo, administrador de empresas de sucesso, palestrante, largar tudo isso e aos 30 anos começar uma carreira nova do zero? Ainda mais no teatro!? Pois quem vê o ator Ricardo Tozzi no teatro ou TV não imagina que ele fez isso. E a razão de tudo isso, ouviu o seu coração e correu atrás do que realmente fazia ele um cara feliz e mais completo. Foi essa segurança e esse autoconhecimento que fizeram também com que Ricardo se mantivesse conectado com o seu eu interior durante esse período de pandemia e a felicidade de fazer o que ama, pra quem não sabe ele gravou 40 episódios do “Vai Que Cola” em três meses. Aos 45 anos, a mesma boa forma de sempre e mais seguro de si do que nunca, Ricardo conversou com a MENSCH diretamente de seu lar nas montanhas ou tem passado a maior parte da sua vida e onde recarrega suas energias. Ao lado de seus cães e com o ar puro do campo, Ricardo segue seu melhor momento, pronto para encarar novos desafios. Não é à toa que tivemos um dos maiores ensaios fotográficos (tanto que rendeu duas belas capas). O resultado você confere logo aqui na sequência. E que venha mais Tozzi em 2021!

Ricardo, o que foi que despertou em você para largar a possível carreira de administrador de empresas pela loucura do teatro? Engraçado a primeira pergunta sobre a minha carreira, realmente foi minha primeira carreira como administrador de empresa, eu fui executivo até os 30 anos. E foi uma transição muito doida mesmo por que ninguém imaginava que um cara com várias faculdades, MBA, trocaria tudo para fazer teatro. Realmente parece meio doido né?! Mas tudo aconteceu pela sorte que eu tive pela minha carreira como executivo a se desenvolver mais rápido que o normal, comecei a ter bastante sucesso muito rápido, e muitas portas abriram. Quando todas essas portas se abriram eu estava lá pelos meus 27, 28 anos, e eu comecei a não ver sentido em nenhuma delas. Por muita sorte, pois eu nessa idade estaria galgando ainda em algum lugar. Eu tive isso mais rápido. Eu comecei a me questionar, “peraí como eu não quero, não consigo enxergar esse próximo passo”. Eu lembro que eu falava, já estava começando a dar palestra, eu tinha muita visibilidade nesse emprego, eu era diretor da Câmara Americana de Comércio, e eu comecei a dar palestra sobre carreira e vocação, e comecei a me indagar justamente sobre estas questões da minha vida. Hoje eu continuo dando palestra sobre isso, que é uma questão da minha vida, o autoconhecimento e a busca pela sua essência. E hoje eu sei que o Ricardo que estava alí com quase 30 anos, era o cara que tinha cumprido tudo que se imaginava que ele tivesse que fazer, o mundo que me foi apresentado, os protocolos que eu teria que passar né, pra deixar todo mundo feliz. Mas a única pergunta que eu não tinha feito era o que meu coração dizia sobre tudo isso. E eu comecei do zero naquele momento a me perguntar quem eu era e um processo de conhecimento bem profundo que me levou a largar toda uma carreira consolidada e me embrenhar no teatro depois, claro, um processo bem mais longo e complicado do que esse, mas muito prazeroso. De lá pra cá nunca mais abandonei a questão do autoconhecimento e acredito que todos nós temos um plano de alma que a gente já vem pro mundo para cumprir e evoluir, cada um com suas questões, e esse é um grande, grande assunto da minha vida. A loucura de trocar minha carreira pelo teatro foi mais ou menos isso.

Dado o start em 2005 com “Bang Bang”, você não parou mais. Nessa trajetória papéis marcantes como o Douglas de “Insensato Coração”, e Inácio e Fabian de “Cheias de Charme”. Esses personagens seriam alguns dos grandes destaques na sua carreira. Ou existe algum que você pense que depois dele muita coisa mudou? Comecei em “Bang Bang” mesmo em 2005, eu tinha 30 anos, e alguns personagens mesmo como Douglas, e depois “Cheias de Charme” fizeram bastante sucesso. Outros também que eu amo, na verdade, quando fiz minha segunda novela, “Pé na Jaca”, eu fiz um caipira que ali me libertou pra fazer as coisas mais doidas, eu sabia que ali eu podia ser tão doido assim na televisão. Também a expectativa de ser mais um galãzinho, aí comecei a fazer coisa engraçada, foi aí que “startou” esse meu lado mais pra comédia que é o que me preenche, por que me deixa criar, o ator na televisão ele é um pouco tolhido. Ser um ator criador isso te dá muito mais prazer e te leva pra um outro patamar de realização com certeza.

Ao longo desse tempo você interpretou alguns personagens de caráter duvidoso. Eles são mais divertidos de fazer? Seriam seus melhores personagens? Eu acho que a gente tem uma coisa muito maniqueísta de ser o bonzinho ou o malzinho, o vilão ou o mocinho. Eu acho que todo mundo é um pouco de tudo né?! Quando a gente consegue encontrar isso através da verdade de um personagem ele fica realmente mais interessante. Por que fazer um cara completamente bonzinho até demais, é uma coisa difícil na televisão quando você faz um mocinho e que todo mundo fala “pô será que ele não está enxergando a realidade, tá completamente de fora”, isso não existe né? Então os melhores personagens são aqueles que são humanos. Todo ser humano tem o lado bom e o lado ruim. Todos nós temos.

No teatro você também tem sua trajetória de ótimos trabalhos como a peça “Hell”, sendo dirigido por Hector Babenco. Diria que foi um belo presente ser dirigido por Babenco? O teatro na verdade foi o que pautou toda essa minha transição. Eu não troquei minha carreira para ser um galã de televisão, troquei minha carreira para fazer teatro, não saberia nem se eu faria televisão. Eu sempre falo que foi um voto de pobreza, eu poderia virar ator ou padre, por que eu não sabia, estava largando uma carreira extremamente lucrativa para seguir um sonho, seguir meu coração, uma coisa completamente… traçando outro caminho. Embora tenha dado muito certo na televisão, mas o teatro ele pauta toda minha carreira por que sempre que eu tenho um tempinho eu volto pra ele. Essa peça com Hector foi muito legal, foi um grande prazer fazer. O Hector era um cara muito interessante. Realmente foi um presente como você citou aqui.

Sua mais recente peça foi “Os Guardas de Taj”, ao lado de Gianecchini, que levou vocês a Portugal. E tratava de temas sérios como amizade, fé e os valores das coisas. Como foi encenar esse texto e participar desse projeto? Depois a minha peça com Gianecchini foi a última. Que é uma peça que eu tinha muito a dizer através dessa peça por que ela conta a história de dois amigos, um deles que cumpriu tudo que a família, que era o personagem de Gianecchini, exigia. Tudo que o pai mandava ele fazer. E o outro personagem que era o meu, que seguia seu coração, eram os melhores amigos na época da construção do Taj Mahal, e na verdade a vida deles foi colocada em uma tragédia e cada um responde da sua forma. O personagem do Giane acaba fazendo uma grande besteira, destruindo a amizade, destruindo a vida do meu personagem. É uma peça forte mais que vem esse questionamento, o que realmente importa é cumprir o que os outro querem, cumprir o que seu pai quer ou seguir teu coração. Então essa é a questão da minha vida, por isso que essa peça diz muito sobre o que eu gosto de falar. Eu gosto muito dessa peça. “Os Guardas de Taj” acho que possivelmente volta ainda, até pra Portugal onde a peça fez um sucesso tremendo. Mas a gente ainda quer voltar por que ainda faltam algumas cidades ainda. Mesmo Lisboa, voltar a São Paulo. A gente sempre tem o que dizer com essa peça por que ela diz o que a gente acredita né!?

Falando nisso, pra você qual o valor da amizade, fé e poder? O que realmente importa? Pra mim o que realmente importa é o que seu coração diz. Seu coração manda.

Esse período de isolamento social te tocou como? Lições e aprendizados de vida nesse período? Eu tenho a impressão que tem sido um processo muito difícil pra muita gente por que a gente, sem conseguir fugir, a gente foi quase que obrigado a se relacionar com a gente mesmo. Quer dizer, a se encontrar, estar consigo mesmo neste isolamento e pra as pessoas que não praticam isso na vida, quer dizer que não buscam esse autoconhecimento, ficam se preenchendo com tudo que o mundo contemporâneo pode te oferecer, seja redes social ou qualquer outra coisa que seja, e não está acostumando em buscar o autoconhecimento ou olhar para suas próprias questões, o isolamento foi (imagino) um processo muito doloroso. Por que é inevitável você estar com você. E você tem que gostar de estar com você. E pra você gostar de estar com você, você tem que se conhecer. Então fugir das suas questões, e se preencher, se ocupar com trabalho, família, com filho…ou será com o que. A tem que preencher nosso vazio, ouvir o que nosso coração quer dizer. E esse é o nosso caminho, o nosso plano. Eu acredito muito nisso.

Falando em projetos, saudades da correria de gravações de novela? Cara eu acabei de fazer a nova temporada do “Vai Que Cola”, foi uma coisa insana porque nós fomos o único programa que entregou a temporada inteira durante a pandemia. 40 episódios gravados. Isso foi um convite ano passado na própria Globo, da qual faço parte (o Multishow também é da Globo). E eu amei o convite, por ter plateia, era um programa de humor diferente dos moldes do que eu vinha fazendo há muito tempo. E aí a pandemia nos surpreendeu, gravamos um programa de humor só que sem a plateia, foi um grande desafio tanto para o elenco antigo quanto pra mim (já é a 8ª temporada), mas foi uma delícia. Principalmente por que produzimos ao longo de três meses o que normalmente seria seis meses durante o ano, num ritmo insano de gravação. Nós produzimos 40 episódios de humor, que as pessoas estão assistindo neste momento, todo dia passam dois episódios inéditos. E muito feliz por estar produzindo uma coisa que faz as pessoas se distraírem ou que faça as pessoas relaxarem ou darem risada numa época tão complicada né!? Com tantas notícias ruins e você preso em casa. Agosto, setembro, outubro, novembro, e agora até dezembro, a gente parou algumas vezes por conta de gente contaminada, foi completamente insano. A gente conseguiu fazer com TODOS os protocolos e todo o respeito produzir a temporada toda, então, ritmo alucinante, mas muito feliz.

Você é um cara mais do litoral ou do campo? Onde recarrega suas energias? Eu estou nesse momento aqui em cima da serra perto de Itaipava, Petrópolis. Sou completamente da montanha, aqui que é minha casa, eu moro aqui completamente do mato e eu acredito que minha força vem do mato, da floresta. E te falo que realmente minha energia está aqui em cima da montanha no meio da floresta.                                       

Sobre os trabalhos, a pandemia atrapalhou algum projeto? Como está sua relação com a TV, algo em vista? Não, não atrapalhou, mudou, minha gravação do “Vai Que Cola” mudou completamente. Porque a gente tirou a plateia, mas foi possível realizar o que deixou toda a equipe, elenco e todo mundo. Estou muito feliz. 

Sua boa forma física chama atenção nas redes sociais. Como se cuida e qual sua rotina de cuidados com o corpo? Eu sou muito esportista, uma vida toda foi fazendo esportes, tenho uma biotipo que me ajuda, tenho várias questões hereditárias também me ajudam muito. Não sou um cara fissurado em boa forma fiquei na pandemia oito meses sem malhar e está mais ou menos ok, não tá maravilhoso, mas tá direitinho (risos) perto do que poderia estar. É o reflexo do meu estilo de vida. Pratico esporte, me alimento bem, mas não sou neurótico com nada não. E como eu disse, isso é reflexo mesmo do meu estilo de vida. Eu ainda tenho sorte, porque como chocolate, tomo vinho, faço coisas que que teoricamente são consideradas erradas, mas no meu estilo de vida combina. Porque eu estou sempre fazendo esporte, sempre fazendo alguma coisa, então uma coisa compensa a outra. Me deixa com essa forma que não é um objetivo, mas é uma consequência.

Por sinal, como lida com redes sociais, likes, haters e o que é público ou privado? Eu na verdade sou bem privado, bem na minha. Acho que quando a gente fica participando dessa guerra de ódio, dessa gritaria toda, enlouquecida, e claro que tem um lado positivo que todo mundo tem que ter voz, isso é hiper democrático, ninguém tem que se calar e eu sou um cara que defende isso, que defende cada um tem que defender o que acha o que é. Cada um tem que defender o que nasceu pra ser. Mas eu acho que está muita bagunça, muita gritaria, muito ódio, sabe? Você levanta o dedinho lá vem as pessoas com uma faca pra arrancar seu dedo fora. Eu não sei lidar com esse ódio todo, eu só sei lidar com amor. Então através das minhas redes sociais eu estou sempre pregando essa busca do autoconhecimento, essa busca de amor mesmo, de amar o que está a sua volta. E no universo da física quântica quando você reverbera amor é isso que recebe em troca. É aquele ditado o que você planta você colhe. É bem simples assim. 

Você é um cara que tem estilo e elegância. Que peça não pode faltar no guarda-roupa e como classificaria seu estilo em vestir? Eu sou o cara da camiseta. Porque foram muito tempo vestindo terno. Foram 10 anos vestindo terno e gravata. Ai agora me sinto bem mesmo de camiseta. Eu acho que uma camiseta básica é um curinga pra mim. Claro que uma calça bem cortada, um paletó bem cortado, poucas peças bem cortadas isso tudo é um segredo de você ter um estilo direitinho.          

Para o próximo ano, o que mais deseja fazer? Algo que ficou pendente de 2020 que pretende colocar em prática em 2021? Ano que vem…ano que vem, continuar trabalhando sou completamente apaixonado pelo meu trabalho. Sou um privilegiado por poder fazer o que eu amo. Além desse privilégio não ter sido de graça porque foi uma busca eu não posso dizer, ah! Tive sorte quando descobri com 18 anos. Não! Eu descobri com 30 anos o que eu gostaria de fazer. Então eu tenho muito amor pelo meu trabalho. E que eu continue assim podendo de alguma forma contribuir para o entretenimento das pessoas, que é mais ou menos o que a arte faz né? E principalmente eu sou um cara otimista, eu espero que a gente consiga sair dessa situação com algum aprendizado e que esse aprendizado seja olhar para suas questões, olhar para o que te desafia, olhar para quem é você? E não ficar tentando suprir para o que as pessoas esperam e não para o que você seja. Foi inevitável entrar em contato consigo mesmo nesse tempo de pandemia, até porque ficamos isolados, apartado de muitas coisas que eram nossos hobbys e assim foi imprescindível olhar pra dentro. Quem olhou pra dentro e não gostou vamos buscar evoluir, porque é assim que evoluímos. 

Fotos Guilherme Lima

Styling Samantha Szczerb

Beleza Elcides Freitas

Agradecimentos: Hotel Hilton Leme, Amil Confecções, By Segheto, Edu Bogosian, Eduardo Guinle, King & Joe, Hugo Boss, Vert, Lilac