
Por onde passou Vera Fischer deixou sua marca. Abalando as estruturas, até as dela própria, com coragem, determinação e foco. Ela sempre soube usar a beleza à seu favor, fosse para deixar sua cidade natal em busca da cidade maravilhosa aos 18 anos até quando se jogou de cabeça (mais uma vez) ao interpretar a personagem Jocasta na novela Mandala (Globo) quando se apaixonou pelo seu parceiro de cena, Felipe Camargo, com que tempos depois teve um filho. A tragédia grega virou um belo romance pelo tempo que durou. A eterna deusa foi imortalizada em fotos desnudas onde fez Paris pegar fogo, fez história no cinema nacional e ainda sabe como ninguém lotar os palcos, – ela atualmente está em cartaz com a peça O Casal mais sexy da América. Vera soube aproveitar suas oportunidades e sabe como ninguém até hoje tirar proveito delas. Jamais refém do mito que ela se tornou, jamais refém da beleza que abriu portas. “Então, na verdade, eu nunca fui uma prisioneira da beleza. Eu usava isso a meu favor. E quando ficava desagradável, eu ficava sozinha no meu canto, remoendo aquilo até passar. Então, nunca uma prisioneira”, comentou nossa estrela ao longo dessa entrevista.
Vera, desde sua estreia na TV até hoje já se vão quase 50 anos de carreira. Imaginava chegar a tudo isso? Como avalia essa trajetória até aqui? São quase 50 anos de carreira. Se eu imaginava chegar a tudo isso, eu acredito que a partir da hora que eu comecei a me sentir atriz, que foi lá pelos 25 anos de idade, eu achei que eu chegaria assim, que eu chegaria bem longe em todos os meios de comunicação, cinema, teatro, televisão. Eu creio que eu fiz um pouco de tudo. Na verdade, eu comecei pelo contrário da maioria das atrizes. Eu comecei fazendo cinema, depois que eu fiz televisão e depois eu fui fazer teatro. Normalmente, as pessoas fazem o contrário. Eu acho que foi uma trajetória muito rica, muito bonita. No início, nos primeiros cinco anos quando eu fazia filmes e programas de TV, eu não me sentia atriz. Eu não me considerava uma atriz. A partir dos 25 anos quando eu fiz um filme chamado Intimidade, onde eu ganhei o prêmio PCA, ganhei o prêmio Air France, ganhei alguns prêmios com esse filme. É um filme dirigido por um inglês chamado Michael Sarn. Aí, eu realmente vi que eu era uma atriz. E dali pra frente, eu levei isso a sério, não apenas como uma profissão pra você conseguir um dinheiro pra pagar suas contas. Ali, foi uma consciência de que isso era a minha profissão e era isso que eu queria fazer. Então, eu acho que eu tive uma trajetória linda e continuo tendo.
Você fez mulheres emblemáticas e marcantes tanto na TV, no cinema ou no teatro. Avaliando até aqui, acha que faltou algo? Olha, por mais que a gente faça personagens emblemáticos, personagens profundos ou engraçados, sempre falta alguma coisa. Então, não necessariamente um personagem que eu possa definir aqui, mas falta fazer personagens, muitos. E apesar da minha idade, dos meus 73 anos, já quase nos 74, eu acho que eu tenho muita energia ainda para fazer personagens importantes daqui para frente. Coisa que eu espero que aconteça.

E do que mais se orgulha? Qual ou quais personagens faria novamente diante da satisfação pessoal que foi fazê-las? Creio que eu não repetiria nenhuma personagem. Eu acho que elas foram feitas com tanta intensidade. Eu sempre me jogo tanto nas personagens. Por exemplo, a Ana de Assis, de Desejo, da minissérie, foi uma personagem incrível, mas eu não faria novamente. Eu não gosto de repetir nada que eu já fiz. A Eduarda, de Riacho Doce, era uma personagem maravilhosa, mas também não faria de novo, a Helena, de Laço de Família, também não faria de novo. Nenhuma outra personagem. Eu acho que eu aproveitei tanto os momentos em que eu fiz aquilo, que elas foram tão bem registradas dentro de mim e para o público na televisão, que eu acho que deu – a gente quer sempre coisas novas que a gente ainda não fez.
Em algum momento da sua carreira já se sentiu uma “gata em teto de zinco quente”? Eu já me senti uma gata em Teto de Zinco Quente, sim, algumas vezes, mas eu sempre consegui dar um jeitinho de não queimar as minhas patinhas (risos). Eu posso ter sentido um certo machucado, mas eu saí vivinha de tudo isso.
Por muitos anos ser Vera Fischer significava Desejo. Como sentia isso na pele? Pois é, uma coisa engraçada. Eu nunca, nunca fui essa pessoa. Foi um personagem que foi criado. Claro que eu tenho uma beleza que foi herdada da minha família, uma coisa genética. E que também eu sempre ajudei um pouco, porque eu sou uma mulher que gosto de me arrumar, de passar cremes, de cuidar de mim mesma. Sempre fui assim, sempre fiz ginástica, balé… assim, isso ajuda muito. Mas a palavra desejo, ser um objeto de desejo para alguém, era uma coisa que eu não achava que era verdadeiro. Podia ser para eles, para mim não era. Então, me incomodava. Em alguns momentos me incomodava sim, mas eu não parei de trabalhar e nem fiquei, sei lá, deprimida por causa disso. Eu acho que foi uma coisa que existe um pouco até hoje ainda – as pessoas veem isso, né? Mas, na verdade, não. Eles hoje em dia, sabem de toda a minha trajetória, de toda a minha vida. Então, eles já pensam um pouco diferente. Mas eu sempre consegui escapar, não fiquei maluca por causa disso.

Em janeiro de 2000, no auge da beleza, aos 50 anos, você foi eleita pela PLAYBOY a Mulher do Milênio. Você fez Paris pegar fogo em pleno inverno com as belíssimas fotos de Bob Wolfenson. Tem orgulho desse trabalho? O que mais lhe marcou, fora o frio? (risos) Realmente, essa matéria da PLAYBOY do Milênio foi um trabalho audacioso, muito audacioso. E o Bob me dizia algumas coisas, queria algumas coisas, e eu fazia outras também. Então, ele ficava surpreso. Eu acho que foi um trabalho, eu considero, de todos os que eu vi, o mais audacioso possível. Bastante diferente dos outros. Até um pouco agressivo, eu acho – pesar de algumas fotos muito lindas, muito poéticas. Agora, estava um frio de novembro inacreditavelmente gelado, mas teve uma coisa muito engraçada que fizemos, uma foto em cima de uma ponte que eu estava nua e só com casaco de pele. Então, de repente, eu vi a ponte cheia de gente, as pessoas andando para lá e para cá, e eu toda arrumadíssima com o meu casaco de pele, pelada por baixo. Uma hora Bob falou assim, “agora abre o casaco”. Eu abri o casaco com todo o meu orgulho. E foram feitas as fotos. E as pessoas ficavam atônitas. Por que isso está acontecendo aqui? Depois a gente riu muito disso. Riu muito, porque as pessoas paravam, os carros paravam. Foi um momento glorioso, na verdade. Eu tenho muito orgulho de ter feito essa PLAYBOY com tanta abertura, sabe? Com tanto despudor, no bom sentido da palavra.
Acrescentando também que o Bob Wolfenson é um fotógrafo extraordinário. Realmente, talvez, se ele fosse um outro fotógrafo, não teria aceitado fazer fotos tão audaciosas. E ele me acompanhou em tudo. Temos outros fotógrafos maravilhosos, mas ele, realmente, eu acho que ele foi o fotógrafo perfeito para aquela matéria. Eu gosto muito do trabalho dele, eu respeito muito o Bob.

Ser Miss, ser sex symbol, ser a estrela da novela e do cinema, trazia glamour mas também muita responsabilidade e cobrança. Em algum momento já se sentiu aprisionada pela beleza? Bom, o fato de ter sido Miss foi uma vitória da minha força de vontade. Porque, quando me convidaram eu rejeitei porque eu tinha 16 anos, mas depois, eu fiquei pensando nisso. Eu sempre quis sair de Blumenau, porque eu achava uma cidade pequena demais e eu teria que ficar lá, não teria muita chance de fazer grandes coisas, eu me casaria, teria filhos, seria uma mulher que mora no interior. Talvez, não sei, poderia ter sido diferente, mas eu queria sair pro Rio, eu queria vir para o Rio de Janeiro, porque Blumenau é cercada de montanhas, não tem praia, e o Rio de Janeiro tinha aquela coisa maravilhosa das praias, das pessoas andarem de bermuda e chinelo – tinha uma certa abertura, uma certa esculhambação. Eu queria ir para esse mundo, sair de um mundo bastante europeu, alemão, para um lugar bem brasileiro. Então, eu botei na minha cabeça que eu ia conseguir ganhar esses concursos de Miss. E eu aceitei com 17 anos, que também não poderia, que tinha que ter 18, mas eles falsificaram todos os meus documentos.
Eu participei, ganhei o concurso de Miss Blumenau, Miss Santa Catarina e Miss Brasil e isso foi perfeito porque assim que eu cheguei no Rio de Janeiro, depois de ter cumprido o meu mandato, eu recebi convite de fazer júri de programa de Flávio Cavalcante, fazer meu primeiro filme e aí, meu pai me deixou ficar morando no Rio de Janeiro com uma amiga. E isso foi muito importante porque eu fiz uma força mental muito grande e consegui. Então, foi uma vitória para mim essa história de ser Miss. Agora, estrela de novela, de cinema, claro, muito glamuroso. As pessoas adoravam os personagens porque naquela época os personagens eram muito bons, as novelas eram muito bem escritas, existia uma história muito boa. Claro que existia uma responsabilidade nisso tudo. E cobrança também. As pessoas me cobravam muitas coisas. Só que eu sempre fui muito livre. Meus pais alemães me deram liberdade, apesar da disciplina que eu também tinha que ter. Eu aprendi muita coisa, bem jovem. Então, na verdade, eu nunca fui uma prisioneira da beleza. Eu usava isso a meu favor. E quando ficava desagradável, eu ficava sozinha no meu canto, remoendo aquilo até passar. Então, nunca uma prisioneira.
As décadas de 1970 a 1980 foram períodos muito machistas onde muitas vezes uma mulher bonita era vista apenas como objeto de desejo. Você, em algum momento, se sentiu explorada demais? Já tinha consciência do que era um abuso e do que era trabalho? Como você driblava isso? Eu comecei a trabalhar no início dos anos 70, em 1970 mesmo. E claro que era uma época extremamente machista. Hoje em dia ainda é, mas eu realmente fui assediada de várias maneiras, em cinema, em televisão, bastante. Mas eu acho que eu tenho uma fortaleza dentro de mim e, ao mesmo tempo, eu tenho uma criança interior que funciona muito com coisas bem absurdas. Então, assim, essas coisas absurdas que eu dizia ou que eu usava para me defender desses assédios eram coisas que deixavam os homens perplexos. E isso me defendia. Eu conseguia sair sempre dos momentos de apuro, eu sempre conseguia sair com histórias bastante absurdas com os homens. E foi isso que me ajudou. Claro, às vezes você pode achar que você está sendo explorada pela sua beleza, mas eu sempre tive consciência de que o meu trabalho iria suplantar esse tipo de coisa. E realmente suplantou. Eu sempre conseguia escapar de todos os assédios, embora isso me aborrecesse bastante. E, às vezes, me fazia sofrer. Mas eu nunca cedi. Eu falei para mim “eu vou fazer o meu trabalho porque eu tenho talento e é por isso aí que eu vou continuar trabalhando”. E foi assim que foi.

Jocasta e Helena foram duas personagens que marcaram muito sua trajetória na TV e mexeu com o imaginário popular. Ambas eram mulheres no auge da beleza e da força feminina. Como elas mexeram com você na época? A Helena, com certeza, era uma personagem. Eu já tinha 50 anos quando eu fiz a Helena. Era uma personagem muito livre, que passou por muitos problemas. Foi expulsa de casa pelo pai, porque estava grávida do primo. Aí ela veio para o Rio de Janeiro, construiu uma vida, casou com outro homem, teve filhos, construiu uma clínica de beleza, construiu a sua liberdade, viveu a sua liberdade, se apaixonou por um homem mais jovem, depois teve uma filha com leucemia. Era uma mulher muito forte, muito batalhadora e que sacrificava qualquer coisa pelo bem-estar da filha. Eu, como mãe, faria a mesma coisa. Acho que os filhos são muito, muito importantes e qualquer mãe faria isso. E isso foi emblemático porque eu sempre fui chamada de Helena do Leblon, mesmo porque durante milhões de anos eu morei no Leblon e era a Helena do Leblon. E era uma mulher muito corajosa. E eu também sempre fui.
Agora, a Jocasta, ela mexeu com a minha vida realmente. Eu ainda estava casada com meu primeiro marido naquela época e ele inclusive fazia a novela, ele fazia o Laio, que era o pai do Édipo, e na história, na tragédia grega a Jocasta, que é casada com o Laio, têm um filho, que é o Édipo e o Édipo, acidentalmente, mata o pai. Ele mata o pai, ele joga o pai num barranco. E isso é no Sócrates, na tragédia. Na novela obviamente também o Laio morria, mas não dessa maneira porque não se pode fazer uma tragédia grega realmente no horário da novela das nove. Impossível. O Dias Gomes até tentou fazer alguma coisa, mas transformaram a novela numa história de amor e colocaram ali um empecilho que era um bicheiro, que era feito pelo Nuno Leal Maia, e que era a parte engraçada da novela, mas eu, no final da novela, eu e Felipe Camargo nos apaixonamos. E aí, quando acabou a novela, eu me separei do meu marido e fomos morar juntos, eu e Felipe. Então, a tragédia grega não pôde acontecer na novela, mas, na vida real, foi um final feliz, porque a gente ficou juntos e, apesar de todos os problemas que tivemos, não sei se é por causa da diferença de idade – nove anos não era tanta diferença assim, mas tínhamos estilos e pensamentos diferentes. Eu sempre fui muito livre, havia brigas, havia um problema de drogas, havia problema de outras pessoas interferindo no nosso casamento. Houve muitos problemas, mas também devo dizer uma coisa que é surpreendente – depois de sete anos de casada com o Felipe, eu tive um filho. Eu queria ter um filho, homem, chamado Gabriel. Então, essa história toda do casamento de Édipo e Jocasta, Felipe e Vera, foi coroada com o nascimento de um filho lindo chamado Gabriel. E talvez o Sócrates esteja se remoendo na sepultura porque a história dele foi modificada. E isso aconteceu na vida real, não era uma novela. Nós trouxemos toda essa coisa para a vida real. E eu me sinto muito orgulhosa também disso tudo, pela coragem, pela vontade de ter um final feliz.

Fazendo alusão a títulos de seus filmes no cinema… Você já se sentiu uma Superfêmea? Já se sentiu Bonitinha, mas ordinária? Já fez um Amor Estranho Amor? E quando se sentiu Doida Demais? Olha, quando eu faço os personagens, sou sempre eu, Vera – nunca é um personagem que eu crio, vindo lá de não sei de onde. Não, tem sempre um pouco da Vera em cada personagem que eu faço. E isso sem problema nenhum, sem pudor, sem alarde. A história com a qual eu mais me identifico, é com o título Doida Demais, porque eu vivi todas as décadas da minha vida, os anos 1970, 1980, 1990, 2000 e pouco, eu vivi uma vida muito diferente. Era uma vida de muitas festas, de frequentar muitas boates, de andar com muitas pessoas. Era uma vida muito fora de casa, muito festeira e, ao mesmo tempo, trabalhando junto. Então, assim, Doida Demais é uma coisa que combina mais comigo, porque era assim que eu era um pouquinho assim. E eu não sou doida, não, eu sou louca, mas, hoje em dia, minha vida mudou completamente e isso eu vou te responder na pergunta logo a seguir.
Entre altos e baixos, amores e desamores… tudo valeu a pena? Faria algo diferente? E diante disso, o que mudou em Vera para encarar os próximos anos? Tudo valeu a pena, super valeu a pena. Se eu faria algo diferente? Não, não. Eu fiz tudo o que eu fiz, eu não tenho nenhum arrependimento. Claro que se talvez eu tivesse a experiência que eu tenho hoje, com mais de 70, talvez eu mudasse um pouquinho algumas coisas, mas eu não deixaria de fazer. Eu sempre fui muito intuitiva, muito cheia de vontade. Então, eu nunca deixaria de fazer alguma coisa que me desse vontade. Agora, o que mudou na Vera para encarar os próximos anos já está acontecendo. Eu saí do Leblon, saí de um lugar imenso, onde eu recebia milhões de pessoas, em festas, em tudo, mas que também era um lugar cheio de lembranças boas e lembranças não tão boas. Então, depois que meus filhos se mudaram de casa, resolvi me mudar para um apartamento menor, adotei dois gatos e tenho muitas plantas que eu adoro. Eu adoro ficar sozinha, adoro. A minha companhia me faz muito bem. Eu tenho a solitude, sabe, de ficar ouvindo música sozinha, de ler os meus livros em paz, de assistir meus filmes, ver streamings, ficar em paz sozinha, até fazer a minha própria comida. Eu estou adorando fazer. Então, assim, eu tenho um grupo de amigos muito pequeno, mas que são muito, muito, muito, muito queridos e realmente muito fiéis. Isso faz com que eu me sinta muito mais em paz e muito mais feliz e tranquila. Eu não tenho que dar mais satisfação a ninguém, mesmo porque hoje em dia existe a Internet, eu tenho o meu Instagram, eu falo o que eu penso, eu posto coisas sobre filmes, livros, histórias, a minha vida, sobre o que eu vejo, sobre o que eu sinto. Isso tudo faz com que as pessoas me conheçam e saibam que isso é verdade. Então, eu estou muito mais tranquila e, daqui para frente, vai ser sempre assim.

Você é uma mulher que virou referência de beleza. Mas onde mora a real beleza? A real beleza está dentro de nós, não é? Eu gosto da beleza, eu gosto de olhar as coisas que são bonitas. Eu vejo, eu transformo uma coisa em uma coisa bonita quando eu olho – seja nas pessoas, seja nas coisas, seja nos animais, nos objetos, nas plantas, na arquitetura, nos filmes, nas peças, no mundo. Eu acho que a beleza vem de dentro de nós. E isto faz com que você aparente uma pessoa mais jovem, mais cheia de energia e mais bonita. Porque o que nós carregamos dentro de nós é que flui, é o que as pessoas realmente veem. Porque a casca, a casca é só uma casca. A casca envelhece, ela fica feia, as pessoas mexem muito em si mesmas, fazem um físico diferente, elas se transformam em outras pessoas, porque elas acham que a beleza está no externo, E não é. É no interior. Então, vai ser assim para o resto da minha vida.

Falando em presente e futuro… atualmente, você está em cartaz com a peça O Casal Mais Sexy da América. Como está a temporada e pretendem viajar pelo Brasil com o espetáculo? Sim, eu tenho feito peças nos últimos anos e elas ficam em cartaz durante muito tempo. Porque com a pandemia, eu era contratada da Globo durante 45 anos e, obviamente, tudo mudou, né? Não só com a Covid, mudou tudo no mundo e dentro da própria TV Globo também. Então, os atores começaram a resgatar o teatro. Todos os atores, bons atores e também não tão bons, estão fazendo o teatro e os teatros estão lotando. Essa peça que estou fazendo no momento que já está em cartaz, nós já fizemos em 24 cidades O casal mais sexy da América, do Ken Levine, uma peça americana que nunca foi estreada no Brasil e é uma peça que fala muito sobre etarismo, da esperança para as pessoas que podem ser felizes depois dos 60, que elas podem fazer sexo depois dos 60, que elas podem se sentir mais abertas, elas não precisam ficar fechadas dentro de si mesmas, achando que nunca mais vão encontrar a felicidade. Então, eu acho que a peça mostra também que as pessoas devem conversar, devem ter esperança de encontrar uma outra pessoa e de falar de seu passado, de falar das dores que elas têm, dos medos que elas têm, porque isso traz a liberdade. E essa liberdade faz com que as pessoas tenham a chance de encontrarem outras pessoas e viverem uma vida mais feliz. E a peça toca também num assunto muito delicado, que é o assédio sexual. Essa peça fala de dois atores que atualmente tem mais de 60 anos – atores que fizeram sucesso nos anos 1990, sucesso extraordinário, tanto que eles foram chamados de o casal mais sexy da América, porque eles tinham um programa de televisão muito famoso.

Esse casal se encontra 30 anos depois e eles recordam toda a sua vida e também há um pedaço sobre assédio sexual, uma vez que nos anos 1990 não se falava sobre isso. Eu acho que as pessoas começaram a falar sobre isso depois do movimento Me Too, que foi em outubro de 2017. A partir dali, as pessoas – as mulheres, os homens começaram a falar sobre isso, sobre esses assédios. Não foram só sexuais, foram psicológicos, etc. E aí, muita gente foi cancelada, muita gente foi presa. E a peça toca muito nisso. É um momento muito delicado da minha personagem. As pessoas falam que bom, porque isso traz esperança para a gente. A gente, agora pode falar com o outro, se abrir e não ter mais vergonha nem do próprio corpo, porque as pessoas de 60 anos, 70 anos, têm vergonha do próprio corpo na hora de fazer sexo, apagam a luz… não precisa mais. Então, tudo isso é falado nessa peça. Então, é uma peça muito importante para mim como atriz e é importante para o público que se enxerga em muitos momentos da peça. A peça é feita comigo, com Victor Thierry e o Leonardo Franco, direção de Tadeu Aguiar. É uma peça que está dando muito certo e nós ainda vamos rodar com ela pelo Brasil afora, talvez até o ano que vem. Está me dando muita felicidade.
Que deseja para os próximos anos? Quais os planos? Faria novela novamente? Olha, eu só posso desejar coisas boas para mim, né? Eu sei que elas podem vir a me dar trabalho, porque depois de 70 você já tem também alguns problemas físicos. Você sente dores. Eu faço fisioterapia com uma fisioterapeuta maravilhosa numa piscina de água quente, que é maravilhoso para mim. Faço pilates. Eu ando muito no palco, eu uso salto ainda. Então, tudo isso, você tem que cuidar do seu corpo para que ele possa ser útil no seu trabalho. Você precisa do seu corpo para o seu trabalho. O que eu pretendo nos próximos anos é continuar fazendo teatro, porque o palco é a minha casa. O palco é onde eu me sinto a rainha, a princesa, a mulher corajosa, onde eu faria todo tipo de personagem, qualquer tipo de personagem. E vou continuar fazendo. E claro que eu tenho planos, eu adoraria voltar a fazer mais cinema e faria novela novamente, sim, se fosse um papel de importância, se fosse um papel que valesse a pena. Tudo isso eu acho que ainda eu tenho chance de fazer, se me convidarem. Eu estou muito bem nesse exato momento, muito feliz por estar podendo exercer a minha profissão, coisa que é muito importante para mim, me deixa muito feliz. Não importa se vierem os dissabores – a gente atravessa isso com muito talento, com muita paciência e com muita plenitude. Quero continuar trabalhando, ficar tranquila, ser feliz. E quero que as pessoas me queiram também, sempre trabalhando.

Fotos Priscila Nicheli / Beleza Lais Régia / Produção executiva e styling Samantha Szczerb / Assessoria Julyana Caldas – JC Assessoria de Imprensa / Agradecimento Hotel Pestana Rio / Vera usou Nayane e Bianca Gibbon


