Ao horizonte, o Dacar (navio dragão nórdico) percorre na lâmina solene do espelho das águas do Rio Exe, com a permissão de Milusina, o espírito das águas doces. Seu povo Dumnônico, protegido pela deusa Damnu (conhecimento) vive nessas terras profundas, banhadas pelas correntes marítimas quentes do oceano Atlântico, das vegetações xerófitas dos planaltos graníticos, ou das planícies rurais de profusões de matizes verdes, sob um solo de onde emerge um metal prateado e resistente, o estanho. Assim foi, e é, o sudoeste inglês, a região de Devon, onde o tempo é ancestral, com suas cavernas, vielas, bosques, torre, trilhas e embarcações que trazem um enredo lírico para um olhar aguçado pelo resplendor da natureza humana e os mistérios que a rodeia. Devon, não por menos, é a casa materna da romancista que tinha a alcunha de A Dama do Crime, Agatha Christie, e muitas de suas obras foram criadas nesse lugar, nesse paraíso cheio de lendas e mitos, reentrâncias para um excelente suspense.   

Seguindo o percurso das trilhas de casas que adormeceram ao tempo, ao fechar os olhos, podemos sentir o forjar das espadas, das âncoras com o antagonismo da calmaria que vem do vento oeste, o puxar das cordas e das velas que roçam nas mãos, a profusão de aves cortando o ar ao rodopio da observância dos cardumes que são pescados pelas cestas/armadilhas. As avencas nos planos molhados, cogumelos eclodem sob árvores caídas, com os caminhos de folhas se tornando adubos. Sob a vigília de carvalhos gigante, aveleiras, salgueiros e freixos, um forte perfume amadeirado, um petricor (aroma produzido pela chuva, associado aos deuses) inebriante. Dos cavalos soltos que percorrem a extensa campina, com suas crinas brilhantes, dos bosques sagrados, secretam as cobs (casas feitas de uma argamassa resultante de mistura de folhas caídas no solo) ou de palha, vistas de vales, com córregos de águas cristalinas. As cevadas sagradas, sofrem fermentação sob orações dos “homens castos”, os premonstratenses (cônegos) que, sob o domínio do império romano e do catolicismo, invadiram as terras e constroíram mosteiros com a sua eucaristia mista de doses de fé e de amor, e muitas guerras com a espada e o crucifixo em punho, em prol de impérios. 

AROMAS, SABORES E IDENTIDADES

Diante do aroma e da magia dos farinados, painço, cevada, trigo, arroz, ervilha, lentilha, os grãos que são moídos nas pedras que se movem ao ritmo dos moinhos, passando pelas hábeis mãos que misturam água e paciência, a fermentação borbulha. Do descanso ao calor, saem estruturas crocantes em sua capa e fofas ao centro, os meslins (pães medievais feito de trigo e cevada), os trenchers (pães-pratos cortados em fatias grossas e achatadas, usadas para ser o recipiente das carnes), com um perfume extasiante. Assim é o olhar de Aimee Twigger, fotógrafa inglesa, moradora de Torquay, um misto de vila, dessa região descrita.

Aimee, tem sua paixão entre os preparos culinários afetivos e culturais, do berço pátrio que a embala. Sua angular tem a inspiração dos grandes mestres holandeses da Era do Ouro da pintura, Vermeer e Rembrandt.  Suas cenas são escolhidas na delicadeza das áreas internas, com figuras solitárias, ou mesmo parte delas, banhadas pela luz que adentra de uma janela ou fresta qualquer, sempre nos deixando com narrativas vagas. O lugar exala, nessas mostras de alimentos e mãos, pensamentos que ficam perdidos, sempre um mistério, tão próprio dessa região, à la Aghata Christie. Nunca saberemos qual a real emoção que está intencionada nessas cenas, mas ficaremos com as nossas. Há uma ilusão, uma alusão em sua forma de ver e sentir o alimento ao seu redor, como a técnica usada por seu mestre, Vermeer, o da câmera escura, uma sala escura com um orifício que projeta uma imagem fotográfica – para criar sua profundidade de campo. A pintura com métodos fotógrafos de outrora, transformada por Aimee, na fotografia com aspirações de pintura. Nesses retratos fotográficos há várias perspectivas, objetos soltos, “sem intenções”, o uso de sombras e cores esmaecidas, objetos de época, paisagens soltas. A ideia premente é deixar o intuito e a ânsia investigativos, o desejo de suspense, uma emanação que captura o observador para desejar, mais que tudo, fazer parte desse universo. E consegue. 

Ao olhar, somos, totalmente, transpostos pelas leituras das imagens, do exalar das ervas pelas mãos lânguidas apresentadas, pelos tons ocres atraentes, e o cromo adornado dos sons de improviso dos trovadores, com suas gaitas, harpas e bodhrán (instrumento celta), do frescor das verduras e legumes que pulsam com suas composições, numa mesa, aguardando a malícia das crianças cheias de fome. As receitas são escolhidas com teor de lembranças, desejos de voltar ao aconchego, às fantasias vividas ou desejadas, um portal para tempos medievais. As colheitas de alhos com suas florações delicadas, as revoadas das abelhas, e fabrico do hidromel, o aquecer da friagem à lareira fumegante, com suas labaredas zanzando as talhas de madeira do teto, as Camélias caídas pelas tempestades, as abóboras, profusões de flores, beterrabas, maçãs e laranjas suculentas, as estações definidas e as ofertas dadas pelos deuses. O açúcar pulverizado, sobre as tortas que são meticulosamente preparadas, com o charme e mimos de finas fatias de peras, antes preparada sobre uma calda aromática.  As rosas selvagens dos caminhos para o mar, com suas colorações rosa vivida, futura geleia, os milhos, os marmelos e folhas de figo. Tudo nessa janela, brecha temporal é sagrado, secreto, intimista, perturbador, no que tange o nosso desejo maior, alimentar a alma e o corpo. 

Nesse lugar, sob a leis da mãe natureza, sob o amor aos insumos, da vida selvagem, do forte apelo da simplicidade e da valorização do sabor, da terra e da colheita, dos elementos essenciais – ar, terra, fogo e água. O prisma de Aimee remete a sua ancestralidade, a de um povo que tinha crença religiosa, de um outro mundo e sua abertura ao nosso, a certeza do encontro após a morte e a possibilidade de ser parte dos seus por sangue, crença, costumes e hábitos. Não sei se Aimee sabe, sua nacionalidade é inglesa, mas sua alma é celta.