MOTOR: JAGUAR TYPE 01: IMPOSSÍVEL DE IGNORAR

Poucas marcas tradicionais da indústria automobilística teriam coragem de praticamente começar novamente do zero. Foi exatamente esse o caminho escolhido pela Jaguar. Diante da transformação tecnológica, do avanço das fabricantes chinesas e da necessidade de redefinir seu espaço dentro da JLR, a marca britânica decidiu que uma evolução gradual já não seria suficiente. Era preciso romper com o passado para tentar construir um novo futuro.

O primeiro grande resultado dessa estratégia é o Type 01, um imponente GT elétrico de quatro portas que inaugura uma nova era para a Jaguar. Com 5,23 metros de comprimento, apenas 1,40 metro de altura e rodas de 23 polegadas, o modelo foi desenvolvido para reposicionar a empresa em um território de menor volume, preços elevados e maior exclusividade. E, principalmente, recuperar uma característica essencial para qualquer automóvel de luxo: ser comprado pelo desejo.

SEM NOSTALGIA

Embora tenha 90 anos de história à disposição, a Jaguar resistiu à tentação de simplesmente reinterpretar seus grandes clássicos. Nada de criar um novo XJS ou reproduzir deliberadamente os códigos visuais do lendário E-Type. Ainda assim, algumas proporções fazem uma conexão sutil com esse passado. A distância entre o eixo dianteiro e a porta, por exemplo, corresponde a cerca de 17% do comprimento total do Type 01 — praticamente a mesma relação encontrada no E-Type.

O restante olha decididamente para a frente. O modelo de produção permanece surpreendentemente próximo do conceito Type 00, com capô longo, balanço dianteiro curto, traseira extensa e superfícies extremamente limpas. Entre os elementos mais impressionantes está o enorme painel traseiro de alumínio, apelidado internamente de “Painel Impossível”, cuja fabricação exige um complexo processo de prensagem em seis etapas.

A ousadia também cobra seu preço. O Type 01 não possui vidro traseiro e utiliza câmeras para substituir a visão convencional. É uma escolha que reforça seu caráter conceitual e certamente ajudará a dividir opiniões — algo que, aparentemente, não preocupa a Jaguar. Segundo o diretor-geral Rawdon Glover, pesquisas realizadas pela companhia registraram uma quantidade incomum tanto de avaliações muito baixas quanto de notas 9 e 10. Talvez seja justamente esse o objetivo: criar um Jaguar capaz de provocar alguma reação.

UM CONCEITO NAS RUAS

Se o exterior impressiona pelas proporções, a cabine leva ainda mais longe a sensação de estar diante de um carro-conceito. Uma estrutura central atravessa o interior e cria quatro ambientes individuais. Uma tela OLED de 24 polegadas domina o painel, acompanhada por outro display de sete polegadas destinado às funções mais utilizadas e uma terceira tela para os passageiros traseiros. Até o tradicional espelho retrovisor desaparece, substituído por uma tela digital integrada à barra de som panorâmica que percorre toda a largura da cabine. A ausência das tradicionais grelhas de alto-falantes nas portas contribui para uma atmosfera minimalista e futurista.

O desenho extremamente baixo, entretanto, impôs compromissos. Para preservar as proporções do automóvel, a Jaguar precisou criar espaços específicos dentro da bateria para acomodar bancos e pés dos passageiros traseiros. O acesso à cabine, especialmente atrás, não está entre seus maiores atributos.

MAIS DE 1.000 CV

Sob a carroceria escultural existe um conjunto mecânico à altura da aparência. Construído sobre a nova arquitetura elétrica JEA, o Type 01 utiliza três motores — um dianteiro e dois traseiros — capazes de entregar aproximadamente 1.016 cv e 1.365 Nm de torque. A tração integral privilegia o eixo traseiro e trabalha em conjunto com um sofisticado sistema de vetorização de torque. O resultado é uma aceleração de 0 a 100 km/h em 3,2 segundos, enquanto a passagem de 100 a 180 km/h acontece em apenas quatro segundos.

A bateria de 118 kWh úteis trabalha com arquitetura elétrica de 850 volts e promete autonomia de até 720 quilômetros pelo ciclo WLTP. Em um carregador de 350 kW, segundo a Jaguar, cerca de 321 quilômetros de autonomia podem ser recuperados em apenas 13 minutos.

Mas potência não é tudo. A Jaguar afirma ter buscado preservar características historicamente associadas aos seus grandes GTs: refinamento, envolvimento ao volante e uma enorme reserva de desempenho. Para isso, o Type 01 combina distribuição de peso 50:50, predominância da tração traseira, direção nas quatro rodas, suspensão pneumática e amortecedores ativos.

LUXO FORA DO ÓBVIO

Com preço previsto de € 165 mil na Alemanha, o novo Jaguar entra em uma arena ocupada por modelos como Porsche Taycan, Audi e-tron GT e Lotus Emeya. Entretanto, suas dimensões e, principalmente, sua personalidade tornam difícil encontrar um concorrente verdadeiramente direto. Ele também permanece distante financeiramente do território do ultraluxo ocupado por automóveis como o Rolls-Royce Spectre, criando para si uma posição bastante particular no mercado.

Os pedidos estão previstos para começar no início de 2027, enquanto as primeiras entregas devem acontecer no segundo semestre do mesmo ano. Ainda falta responder à pergunta fundamental: ele dirige como um Jaguar? Até agora, o Type 01 foi apresentado de maneira estática, sem uma avaliação dinâmica capaz de revelar se toda essa revolução visual também se traduz ao volante. Uma coisa, entretanto, já está clara. Depois de anos tentando reencontrar seu espaço, a Jaguar decidiu que ser apenas elegante ou competente não seria suficiente.

O Type 01 é enorme, extravagante, tecnológico e deliberadamente controverso. Alguns irão amá-lo. Outros provavelmente irão rejeitá-lo. Mas, para uma marca que precisava desesperadamente voltar a ser relevante, tornar-se impossível de ignorar talvez seja exatamente o melhor começo.