Um dos maiores ícones da cultura brasileira, Gilberto Gil, é o homenageado do Los Angeles International Music Video Festival, evento que a MENSCH é parceira na edição deste ano. Dentro da programação que antecede o festival, o artista concedeu uma entrevista ao fundador do LAMV, o músico e ator Manoel Neto, e interagiu com o público online que também pôde conversar com Gil. E o resultado você confere aqui nesse bate-papo que foi desde relembrar os primeiros passos na música, até opiniões firmes sobre a atual situação política do Brasil, o baiano não se esquivou de nenhuma resposta. Gilberto Gil ainda falou sobre a necessidade de termos mais artistas na política e mostrou que é um avô coruja quando se referiu ao talento musical já demonstrado por sua neta, Flor Gil.

Quais foram as grandes inspirações do início da sua carreira, e qual a importância delas para a sua arte? Eu comecei minhas investidas na música ainda pré-adolescente, já muito influenciado por Luiz Gonzaga, que me levou a estudar acordeon, inspirado naquele universo extraordinário que ele revelava da música nordestina. Aquilo tudo já tinha um grau muito forte de impregnação em mim. Depois, aos dez anos de idade, eu vim pra Salvador e comecei a ter contato com Dorival Caymmi e vários outros criadores brasileiros. E mais tarde, já no final da década de 50, eu já adolescente, veio a Bossa Nova, e seus criadores: João Gilberto, Antônio Carlos Jobim, Menescal, e tantos outros que fizeram aquele trabalho magnífico. Ainda tive influências americanas e europeias. Aí eu comecei meu trabalho no final da década de 50, início da década de 60, em Salvador. Formei meus primeiros grupos, meus primeiros coletivos, e ao mesmo tempo estava na Universidade da Bahia, estudando Administração de Empresas. Quando me formei em 1964, fui pra São Paulo e ampliei meu círculo de relacionamentos. São Paulo era, naquele momento, um polo importante de atração de cantores, compositores, músicos. E dali em diante a história é conhecida.

Em 1963, você conhece o Caetano Veloso e começa o movimento Tropicalista. Quando vocês iniciaram esse movimento o contexto histórico à beira de uma ditadura era bem diferente. O que levou vocês a essa atitude? Eu, Caetano, Bethânia, Gal, Tom Zé, já havíamos nos encontrado aqui em Salvador. Mas, já morando em São Paulo, todos nós nos reunimos novamente e veio a ideia de criar um movimento para juntar todos os artistas interessados numa espécie de contemporanização da música brasileira, trazendo elementos variados da cena internacional, coisas que estavam chegando, como o rocknroll americano, inglês, os Beatles, tudo aquilo, juntando com as coisas brasileiras. Uma coisa importantíssima para o impulso que nós tivemos foi uma visita que eu fiz a Pernambuco, em 1966, quando fui lançar meu disco. Foi lá que eu conheci Naná Vasconcelos, Alceu Valença, a banda de Pífanos de Caruaru. Quando eu voltei pra São Paulo, eu falei com meus colegas que a gente devia se dedicar ao trabalho de modernização da música brasileira, juntando todos esses elementos. O impulso, portanto, foi essa tentativa de modernização, utilizando os elementos que já estavam afirmados. E aí vem a chegada da televisão, como um veículo importante para o Brasil, pois a música brasileira teve uma plataforma importantíssima com a televisão e os programas de auditório e toda mobilização em torno disso.

Você teve uma carreira na política também. Foi vereador, foi Ministro da Cultura.  Você acha que precisamos de mais artistas envolvidos na política? Se você levar em consideração uma coisa que é muito óbvia, que é a importância dos artistas no retrato permanente que eles fazem da vida brasileira, social, cultural, econômica. E o fato de que eles têm uma reserva importante de afeto e acolhimento do brasileiro, é natural pensar na possibilidade cada vez maior de que eles contribuam pra vida política, pra o diálogo profundo sobre o Brasil, sobre o mundo, sobre as grandes dificuldades históricas que o Brasil tem, e sobre o papel da política na solução dos grandes problemas brasileiros. Portanto, a participação desses homens e mulheres é cada vez mais bem-vinda, pois eles podem contribuir de forma valiosa.

Na sua trajetória como Ministro da Cultura foi proposta uma reforma estrutural para aperfeiçoar o funcionamento do Ministério, da Funart, da Fundação Palmares e da Biblioteca Nacional. Você também propôs Casa da Cultura em cada município do país. Isso foi em 2003, e suas propostas seguem sendo muito atuais. Você reflete sobre isso? Nós trouxemos a amplitude da vida cultural brasileira para as preocupações do Ministério. Para além de tarefas clássicas, era preciso, naquele momento chegar, a esse Brasil intenso e imenso, todas as regiões, todos os segmentos sociais, e valorizar os talentos mais escondidos nas comunidades urbanas e rurais de vários lugares. Era preciso dar a eles a oportunidade de um protagonismo próprio, e várias ações foram desenvolvidas para isso. Através de filmes, por exemplo, ao criarmos um projeto específico de audiovisual, além dos pontos de cultura. Levamos computadores para muitas comunidades também. Era preciso ser pioneiro e visionário. Nós tivemos uma gestão que trouxe toda essa temática nova, e que continuou com o Juca Ferreira, após a minha gestão, ainda no governo do presidente Lula. Muitas dessas iniciativas vingaram, e estão até hoje exercendo um papel importante nas comunidades brasileiras que podem erguer as suas próprias vozes.

Há uma percepção de muita gente sobre o despreparo de quem está à frente dos órgãos de Cultura atualmente no país. O que você acha sobre isso? Essa percepção de que nós estamos vivendo um momento de retrocesso na vida brasileira, na capacidade de interlocução profunda entre o Estado e a sociedade, é uma coisa percebida por muita gente no Brasil. Mas também há uma esperança de que essa coisa passe, e que a sociedade brasileira seja capaz de compreender o passo em falso que deu, e o passo firme que precisa retomar, no sentido de ter instituições públicas que realmente entendam a grandeza do Brasil e a pluralidade do nosso país em todos os sentidos. Para superarmos é preciso consciência, vontade política, e atuação de cada um dos indivíduos do Brasil. O discernimento eleitoral é necessário para a mudança.

Você participou de eventos muito importantes, em vários países, sobre o mundo digital e a importância da tecnologia para o desenvolvimento das comunidades com menos acesso à informação. Eu gostaria que você comentasse sobre isso. Esse foi um dos assuntos que eu mais me dediquei na época do Ministério, para produzir uma articulação geral de todos os interessados nesse campo no Brasil. Buscamos relacionamento intenso com os grandes pensadores da cultura cibernética, no Valei do Silício, e em outros lugares ao redor do mundo. Produzimos uma série de eventos em que trouxemos grandes nomes ao Brasil, como o fundador da internet, Tim Berners-Lee, que veio interagir com a comunidade brasileira. A atualização da legislação também foi discutida, para que pudesse dar conta de regulações novas exigidas pelos novos meios de comunicação. Canadá, Estados Unidos, Europa, Índia, China, são alguns países que mantivemos contato ao longo desse processo. Hoje você vê a interconexão básica que existe no mundo, mas tudo isso era uma coisa que estava começando aqui no Brasil naquela época, e estava precisando de um primeiro impulso, uma atenção mais dedicada. Foi isso que buscamos fazer naquele momento.

Você já era um visionário desde sempre. Na música “Futurível”, de 1969, você trazia uma visão do futuro. Gostaria que você comentasse sobre isso. Eu tenho muito apreço por essa música. Ela foi feita quando eu estava preso num quartel do Exército Brasileiro no Rio de Janeiro, por conta de toda aquela repressão que tomou o Brasil. Eu tinha participado muito intensamente de toda aquela militância estudantil e juvenil, e fui preso como consequência, devido às atitudes repressoras do regime que se instalou em 1964, que acabou tendo uma replicação ainda mais complicada com o AI5, que prendeu e torturou muita gente, e expulsou muitas pessoas do país. Naquela ocasião fiquei dois meses preso, e lá fiz algumas músicas, como a “Futurível”, que relatava todos aqueles universos temáticos que chegavam para a vida dos jovens e de todos os interessados em cultura e desenvolvimento, em sociedades mais avançadas.

O nosso festival é em Los Angeles, e eu sei que você já morou na cidade, em 1978. Que momento foi esse da sua vida? Foi por conta da minha carreira musical. O Sérgio Mendes, que é um brasileiro muito celebrado internacionalmente na música, e que é residente de Los Angeles, me chamou para produzir um disco meu, o “Nightingale”, que é a versão de uma das músicas que eu já havia feito antes. Então eu mudei com a família pra viver e trabalhar em Los Angeles. Nesse período eu fiz contato com muitos produtores culturais, muitos músicos, e visitei e trabalhei em muitos estúdios de Hollywood. Também tive uma interação muito grande com a cena cultural da cidade. Eu visitava clubes noturnos, acompanhei muitos jazzistas. Aproveitei bastante. E também escapava pra Santa Mônica, pra tomar um banho de mar.

Gil, vídeos em que você aparece com a sua neta, Flor Gil, têm feito muito sucesso na internet. Desde cedo ela tem se mostrado uma artista de uma voz incrível e de presença. Como você tem acompanhado o desenvolvimento artístico dela? Ela tem presença, descontração o suficiente, tem postura, e é interessada na música. Ela está sendo criada em um ambiente musical, e com 12 anos, que ela completou recentemente, já teve oportunidade de fazer apresentações comigo, com os tios, com os primos. Ganhou um piano e está se dedicando. Toca um pouco de violão também, e já está imaginando suas próprias composições, além de ter uma voz muito bonita. Aliás, ela é muito bonita, em todos os sentidos, e tem pais muito atentos ao talento dela. E o avô nem se fala, né? Fico chamando pra cantar uma coisa e outra. É um talento em desenvolvimento e bastante promissor.

Falando em futuro, como você acha que será o pós-pandemia global? Haverá um aprendizado com isso, ou o ser humano esquece tudo que está acontecendo? Já tem um aprendizado. Toda essa questão dos protocolos, cuidados pessoais, a produção de medicamentos, a discussão em torno da vacina, de um lado os que defendem interesses industriais, de outro os que defendem essa socialização, digamos assim. Outra questão que cito é a discussão sobre o cuidado das gerações mais novas com as gerações mais velhas, essa nova visão de como as faixas etárias devem interagir e se comunicar. Tudo isso é aprendizado que já está aí. Questões políticas também. Os líderes que se associaram a uma visão mais aberta, mais universal, mais fraterna, nos cuidados com a pandemia. Tudo isso vai ter um papel já imediato nas próximas eleições ao redor do mundo. São vários exemplos positivos que a pandemia vai deixar. E tem um muito importante também: o fato de que nós não podemos, daqui por diante, descuidarmos dessas grandes ameaças permanentes para o meio ambiente, a saúde, a educação. Veja quantos grupos de jovens ao redor do mundo perderam o ano letivo. Daí já surge também a discussão mais profunda sobre ensino à distância e tantas outras possibilidades. Enfim, já estamos vivendo essas mudanças.

SOBRE O LAMV

O LAMV, que foi fundado dentro do já consagrado Los Angeles Brazilian Film Festival (@LABRFF), será realizado entre dias 21 e 25 de outubro, completamente online, na plataforma Filmocracy. Homenagens ao Gilberto Gil fazem parte da programação do evento.