Por VANESSA LINS

Os desafios trazidos pela pandemia do novo Coronavírus são incontáveis. Para o setor de alimentação fora do lar, não tem sido diferente. Sobreviver ao fechamento do comércio por longos meses era apenas o obstáculo óbvio. Inaugurado poucos meses antes de as autoridades pernambucanas determinarem o período de quarentena no Estado, um sopro novidadeiro no, (até então) improvável bairro do Torreão, começava a trilhar uma já notável trajetória – era o Arvo Restaurante, encabeçado pela dupla de sócios Pedro Godoy e Eduardo Freyre. Envergando um amplo quintal, não precisou de muito para um polêmico fenômeno entre os recifenses – a fila de espera – se formar ainda nos seus primeiros finais de semana de funcionamento. Talvez nem Eduardo nem Pedro esperassem o arrebatamento que o novo empreendimento causaria.

Mas verdade seja dita – o Arvo é o nome mais expressivo do último ano no setor de restaurantes da Capital pernambucana. E mesmo com o rolo compressor que foi o fechamento do segmento gastronômico e a mudança radical dos consumidores, retraídos pelo medo de uma contaminação invisível, a casa reabriu com fôlego e com uma entrega ainda melhor. Como isso seria possível, vivendo a complexa equação formada pelo pouco tempo de funcionamento + pandemia + fechamento + reestruturação do negócio? O expertise gerencial de Freyre, sem dúvida alguma, foi decisivo para a retomada o mais saudável possível e possibilitando a nova decolagem da cozinha de Pedro e equipe.

NA ROTA DE GODOY

Do alto de seus poucos 29 anos, Godoy, formado em Gastronomia pelo Senac PE, acumula experiências de gente grande. Passou pelo Tapa de Cuadril, Oficina do Sabor, Beijupirá Olinda e Porto de Galinhas. Foi chef consultor do bar Vaporetto e da hamburgueria Baleleu. Antes de encarar uma temporada de três anos na Austrália, ainda atuou como professor e chef de cozinha da Oficina de Chefs e Casa Rosada. Mas somente do outro lado do mundo pôde se aproximar do conceito de fine dining em casas premiadas, como The Fish House e Maha, em Melbourne. Entre o desembarque no Brasil e a nova empreitada (o Arvo), ainda rolou uma breve participação no Masterchef Profissional, na Band.

Tantas referências se traduzem em um cardápio enxuto e bem resolvido, vibrante, ao mesmo tempo em que é autoral também e é respeitoso com as tradições. O burguinho de carneiro caramelizado e prensado é uma das preciosidades do Arvo. É entrada obrigatória para entender o processo criativo do chef.  Especiarias, curas, texturas que se contrastam, ingredientes orgânicos – alguns extraídos da farta horta cultivada no mesmo terreno do restaurante – nos tiram do lugar comum.

O atum curado é claramente um xodó do cozinheiro. O pescado tipo exportação vem laminado em quadrados e finalizado com passas brancas condimentadas e pétalas de flor comestível. O prato aguça os sentidos, é uma verdadeira festa visual – e contempla paladares mais treinados, digamos assim. Já o croquete de cupim (entrada mais pedida) cumpre o papel de petisco coringa – é unanimidade que versa com cerveja, drinque ou vinho. Uma porção de pão pita inflado, e quentinho, acompanha. Símbolo do litoral brasileiro, a moqueca de lagosta com peixe ganha ares contemporâneos com o pescado envolto por uma crosta empanada. A típica carne de sol surge servida em cortes laminados, semelhantes ao sashimi japonês, com umidade preservada e ponto de maciez respeitado. Vem escoltada por um curioso nhoque frito de batata com queijo, quase como se fossem croquetes. Com um pouco mais de um ano, e uma pandemia na rota, a viagem de Godoy parece que está apenas começando.