Talvez Pablo Morais nunca imaginasse que seu maior desafio como ator (até então) seria um personagem que de certa forma diz muito do momento em que estamos vivendo, onde muita gente fala e pouca gente se entende. Seu atual personagem, o Ninrode da novela “Gênesis” é o responsável pela idealização da Torre de Babel, que segundo a Bíblia foi o ponto de partida para o surgimento de várias línguas e mais desentendimento entre a humanidade. Personagem marcante numa época de pandemia e mil discursos. Para Pablo, de 28 anos, os desafios foram além dos diálogos. Mas ele tem tirado de letra e o seu Ninrode tem dado o que falar. Mas sua história como ator não começa aqui, para quem não lembra ele surgiu com trabalhos marcantes em “Subúrbia”, em 2012, e depois uma participação importante na novela “Velho Chico” que trouxe ainda mais destaque para o jovem e promissor ator. O que Pablo colhe hoje é reflexo do seu talento e dedicação. E pelo jeito, ele está pronto para muito mais, como ele diz nessa entrevista: “Venho buscando ficar pronto para meus personagens, meus sonhos. Meu corpo é meu instrumento de trabalho”.

Pablo, depois de muita espera finalmente a estreia em “Gênesis”. Como foi essa retomada e como tem sido para você? Finalmente estreamos. Começamos antes da pandemia, de uma maneira, sem máscaras, sem protocolos, sem testes e depois paramos. Então, a volta foi uma alegria que não existe palavras. Foi uma imensa alegria. Todo mundo estava em um momento estranho pela pandemia, e nós artistas tivemos que voltar a trabalhar, voltar, com o emocional, dentro da pandemia, todo mundo com medo, e com essa atmosfera que ninguém consegue esquecer… Do toque, da máscara, e ao mesmo tempo tendo que voltar e entrar na personagem. Isso tudo foi um “novo normal” muito, mas muito simbólico da força e amor que a gente tem pela arte, e estou muito feliz. Graças a Deus estamos tendo uma repercussão inimaginável. Nunca pensei que Ninrode estaria nos TTs todos os dias. Meu sentimento é de gratidão. Gratidão eterna.

Na trama você interpreta Ninrode, idealizador da Torre de Babel. Já conhecia essa passagem da Bíblia? Fez algum tipo de laboratório? Eu conheci a história da divisão das línguas e da Torre de Babel que vira a Babilônia, mas a história de Ninrode e Semira eu fui conhecer depois. Quando fui me aprofundar na “Torre de Babel”. Eu conheci outras bases dessa história. Mas para mim foi muito simbólico, impactante. Foi o primeiro rei do mundo, idealizador da Torre de Babel, o caçador que virou rei, então foi muito simbólico pra mim, porque eu também vim da periferia, tenho uma história de vida que é muito singular, e ao mesmo tempo muito brasileira. Eu vim da periferia e a arte me salvou. Tenho só mãe, não tenho pai. Então a construção desse personagem vem da força, da determinação. Quando eu comecei a construir vim com referências de guerreiros, de caçador, vikings, outros anti-heróis. Pra mim a construção dele foi de fora pra dentro, de gestos, caçada… Fiz aulas de lanças, fiquei no mato… A construção foi embasada nisso. Na vivência.

Interpretar um personagem tão forte e importante trouxe uma responsabilidade maior? Com certeza trouxe uma responsabilidade maior. É uma preocupação de ancora que a gente tem dentro e fora de cena. Não se faz dramaturgia sozinho. Essa cumplicidade, essa junção, o embarcar, depende muito de quem tá ali em cena com você, de como essa pessoa está se sentindo… Pra mim, interpretar um personagem que tem essa força, essa responsabilidade, também me fez como homem, como ser humano, também enxergar minhas responsabilidades e trazê-las como uma grande força pra vida. Ninrode trouxe isso pra mim no cotidiano, sim.

Esse é seu primeiro personagem bíblico e de época. Que desafios te trouxe? Eu já fiz um personagem de época em “Velho Chico”, o Cícero, mas nada comparado com um tema bíblico, o livro mais livro do mundo. O desafio maior é a gente ser coerente com a história de vida, com esse arquétipo, que esse cara deixou no mundo e ser fiel a isso. Porque isso de fato existiu. Então acho que é manter o equilíbrio com a verdade e a honestidade.

Desde sua estreia na TV com a série “Subúrbia”, em 2012, até você não parou mais e encarou personagens de perfis diversos. O que mais te marcou até aqui? O que mais deseja em matéria de novos personagens? Exato. Comecei minha carreira em “Subúrbia”, com Luiz Fernando Carvalho como diretor, Paulo Lins como ator e Antônio Carnevalli como preparador e nunca vou esquecer. De 2012 pra cá fiz “Subúrbia”, “Sangue Bom”, “Sol Nascente”, “Malhação” e “Segundo Sol”. Pra mim me marcou a experiência com grandes artistas, aprender um pouquinho com cada um em cada projeto. O mais precioso. Cada obra que eu fiz parte, eu levei um pouco pra mim e algo muito especial, mesmo. São encontros com artistas que me marcaram muito. De Rodrigo Santoro a Adriana Esteves, de Bruno Gagliasso a Fabrício Bolivera, a Domingos Montagner, Thalita Carauta, entre muitos outros. Todos me acrescentaram muito. E eu desejo cada vez mais personagens que tenham profundidade e que consigam ter esse espaço de imersão como o Ninrode.

Nesse ensaio você bem à vontade e num estilo latin lover? É esse seu estilo na hora de se vestir? O que faz sua cabeça? O meu estilo de me vestir vem muito mais com meu estado de espírito e do meu dia. Como eu moro no Rio, eu fico muito diurno, já que eu faço trilha… Então é muita bermuda, etc. Mas quando estou em São Paulo gosto de ficar mais fashion, calça jeans… O que faz minha cabeça é a felicidade de eu estar me vestindo bem, feliz e confortável.

Por um bom tempo você trabalhou como modelo. Como foi esse período e o que ficou de bom? Eu tive muita sorte no mundo da moda. Eu fiz grandes e simbólicos trabalhos. Eu fiz capa da Vogue Paris, tive oportunidade de trabalhar com grandes nomes internacionais, não só como fotógrafos, mas com grandes artistas, e sou muito grato por isso. Pra mim, a moda foi muito importante pela minha relação com as câmeras. Pra eu conseguir entrar na atmosfera, representar aquela marca. Isso como ator, criar essa relação com câmera, não tem preço.

Sempre em boa forma. Qual sua rotina de exercícios e dieta? Como eu disse, eu sou muito diurno. Mas, eu comecei com tecido acrobático e ballet clássico, e depois remei no Vasco e no Flamengo. Então, eu carrego o físico comigo, nos esportes, nas trilhas. E, o Luiz Fernando Carvalho me falou uma vez algo que jamais esquecerei: “O ator é uma mistura de filósofo com atleta”. Então, quando eu peguei isso pra mim jamais deixei de estar trabalhando meu corpo. Venho buscando ficar pronto para meus personagens, meus sonhos. Meu corpo é meu instrumento de trabalho.

Nesse período de pandemia como foi manter essa rotina? Aliás, como lidou com isso? A pandemia deu uma travada em tudo, mas eu, Graças a Deus, tenho um lugar na minha casa que eu consigo malhar, correr, meditar, pular corda, como treino. Parei de ir pra academia e procurar outras situações para exercitar meu corpo, e me alimentar bem.

Como lida com vaidade? Do que não abre mão? Meu corpo é meu instrumento de trabalho, então pra mim eu preciso cuidar do meu emocional, do meu diafragma, do meu respirar, da minha emoção, do meu respirar… Da minha disposição. Isso tudo pra mim é o que cuido do meu corpo, é um lugar pra mim que é meu instrumento de trabalho. Esse é meu dia a dia. Vaidade por vaidade não me interessa.

Onde recarrega as baterias e como se distrai nas horas livres? Tenho dois cachorros. Scot Lee e Spike Lee. Então eu passeio com eles, brinco. Eu sou músico, então fico no estúdio dentro da minha casa compondo, produzindo uma música… Eu gosto muito de filmes, sou cinéfilo, então volta e meia estou assistindo algo antes de levantar, e também gosto muito do mato e de praia. Isso virou quase uma diversão. Eu recarrego minhas baterias na natureza, entre os bichos, a natureza… Aí sim eu volto novo.

Indo pra vida virtual, como lida com as redes sociais? Como escolhe o que entra e o que sai na Internet? Eu amo as redes sociais, acho uma invenção maravilhosa por ter o retorno instantâneo do público. Agora nessa fase do Ninrode está sendo muito genial. No twitter, onde o Ninrode fica nos TTs todo dia, no instagram, no facebook, no tiktok. Então, pra mim está sendo muito feliz. Tento e acho que estou conseguindo responder e dar valor ao carinho de todos que estão acompanhando. É uma grande troca.

E para este ano, alguns plano? O que espera que venha por ai? Esse ano eu tenho cinco clipes e cinco músicas pra lançar agora depois da novela, um filme pra rodar, uma marca minha em desenvolvimento. Então, todo mês estaremos com um lançamento. Eu escrevo crônicas também… Então, temos música, moda, mais projetos como ator. Só posso dizer que estou muito feliz.

Fotos Guto costa

Styling Samantha Szczerb

Beleza Vivi Gonzo

Pablo vestiu Amil Confecções, Edu Bogosian, Eduardo Guinle, King & Joe, By Segheto, Hermes Inocencio, art.ricardopinto