
Por Ivan Reis
No último sábado (16.05), o Arquivo Histórico Municipal de São Paulo foi palco para o último desfile do estilista João Pimenta. Mais uma vez, espaços historicamente relevantes servem como cenário para um trabalho que reconstrói os códigos tradicionais da roupa masculina. Como em ocasiões anteriores, o estilista – diretor criativo de sua marca homônima – trouxe uma nova visão sobre o universo masculino. Abrindo as gavetas da memória, a coleção ‘Arquivos’ mergulha nas referências do passado para construir o guarda-roupa masculino do presente e do futuro. A MENSCH foi conferir de perto tudo o que aconteceu no desfile, com direito à entrevista exclusiva no backstage com o designer que se dedica à roupa masculina há décadas na moda brasileira.
MEMÓRIA E CONSTRUÇÃO
“Nessa coleção, eu tenho o desejo de realmente me colocar numa coleção de estilística, de pensar que posso criar peças de roupas. Então, ela não tem um tema, uma história, mas tenho o desejo de criar uma forma de uma roupa, de pensar numa roupa como construção da roupa”, afirmou João Pimenta com exclusividade à Mensch minutos antes do desfile. Se os arquivos podem guardar segredos e itens valiosos, as gavetas de João Pimenta foram abertas com bastante liberdade criativa.



A coleção aposta na experimentação de modelagem e styling a partir de elementos clássicos da alfaiataria. Golas, punhos, mangas e ombros aparecem deslocados, em proporções ampliadas que alteram a leitura tradicional da silhueta masculina. As coleções “Quadril”, “Viés” (Casa de Criadores 2009/2010), “Das tripas coração” e “Cortejo Fúnebre” (São Paulo Fashion Week 2022) inspiraram o designer brasileiro.
O estilista reviu as proporções dos looks e aproximou algumas peças do corpo, especialmente na parte superior. Referências do streetwear aparecem em calças amplas, com pregas e que se tornaram as protagonistas no desfile. Os volumes foram deslocados para a parte inferior com recortes que deram novos caimentos. “Sobre as partes de cima da minha coleção, está tudo minimizado, pequeno. Então, o meu paletó está curto, a camisa ficou menor, tudo ficou menor, e as calças ganharam uma amplidão, não mais no quadril, mas sim no tornozelo”, disse o estilista sobre suas apostas. “Estou brincando de criar, de tentar trabalhar uma construção que sai totalmente fora do que tenho feito. Sempre tenho muito volume na parte de cima e na parte de baixo. Dessa vez, estou brincando de tentar deixar isso só mesmo no tornozelo e de tentar criar alguma coisa que eu ainda não tenha feito na questão de modelagem de roupa”, completou João Pimenta.
As novidades também estão no têxtil. O destaque está no uso do algodão 100%, especialmente na gramatura e na textura robusta e estrutural do piquet. As padronagens clássicas expandem volumes, destacam dobras e reforçam códigos tradicionais da alfaiataria masculina. Xadrez, chevron, pied de poule e risca de giz estão nas produções – às vezes, com calça e camisa ou somente no paletó – em uma cartela de cores modesta em comparação à coleção passada, apresentada na última edição da São Paulo Fashion Week.
Para equilibrar as novas proporções, João Pimenta optou por uma cartela de cores sóbria. “Eu tinha essa forma [ampla], que não é muito fácil, que é essa coisa de tentar uma modelagem diferenciada. Eu achei que, para isso, eu deveria ter um têxtil e uma cartela de cor simples. Se eu tivesse, além dessa forma, desse tornozelo aumentado, e que isso também fosse colorido, talvez eu tirasse a importância da minha modelagem”, disse Pimenta sobre sua escolha. Por isso, há uma cartela que transita entre o preto, cinza e bege, pontuados com tons pastéis como o azul e o verde. “Eu tirei de um lado para poder pôr do outro”, esclareceu o estilista.




ALFAIATARIA ENTRE TRADIÇÃO E LIBERDADE
O guarda-roupa masculino vive um momento de transformação, com novas interpretações para códigos tradicionais do vestir. Para além de suas criações, João Pimenta é um designer atento ao futuro da alfaiataria. “Estou muito feliz pelo caminho que ela tem tomado, porque eu tenho trabalhado nesse oversize já há 15 anos. As calças são pantalonas há muito tempo, e a alfaiataria sempre foi junto do corpo. Hoje, a alfaiataria está solta, as calças estão largas”, definiu o designer. “Então, fico muito feliz de saber que essa coisa está se desconstruindo, e eu acredito que o homem tem que descobrir que ele pode misturar, se divertir com essa roupa, que pode usá-la de uma forma muito mais bacana do que só cobrir o corpo, sabe?”, declarou o estilista.
Peças podem ganhar novas formas e combinações de uso, ainda que sigam um dress code em ocasiões onde o rigor de estilo é necessário. “Estou sentindo uma evolução gigante. Acredito que o homem está muito mais liberto. Ele já sabe que ele mesmo pode escolher a roupa dele e que também pode ter desejos”, finalizou o estilista. Mais do que revisitar referências, João Pimenta usa seus arquivos para mostrar que a alfaiataria masculina ainda pode se transformar sem perder sua identidade.

Assista ao desfile:


