
Transitar entre diferentes linguagens nunca foi, para Jeniffer Setti, uma estratégia — mas uma necessidade. Atriz desde a infância, ela encontrou na música, no roteiro e na produção caminhos para expandir sua voz e, sobretudo, conquistar autonomia em um mercado muitas vezes limitado por rótulos. Nesta entrevista, Jennifer reflete sobre sua trajetória multifacetada, revisita personagens que marcaram sua carreira — como em Os Dez Mandamentos — e compartilha os bastidores de uma virada decisiva: um momento em que arte e posicionamento se tornam indissociáveis. Entre experiências na televisão, no cinema e na música, ela revela como transformou desafios em força criativa e por que decidiu assumir o controle de suas próprias narrativas. Com novos projetos no audiovisual e na música, Jey procura ocupar todos os espaços em que se joga de corpo e alma.
Você transita entre atuação, música, roteiro e produção. Em que momento percebeu que sua carreira não caberia em um único formato? Na atuação desde criança, na música sempre tive receio de experimentar, mas em 2020 na pandemia tive a coragem de escrever minhas próprias músicas e lançar! Sobre Roteiro e produção foi a falta de chances no mercado que comecei a estudar e me aprofundar para criar minhas próprias oportunidades.


Sua formação passou por instituições tradicionais. Como escolas como Martins Pena e Tablado moldaram sua visão de atuação hoje? Antigamente essas escolas não ensinavam só atuação, elas também ensinavam educação, moral e ética no trabalho. Acredito ter essa base com bons professores na época, participei do grupo tá na rua com o Amir Haddad que é o mestre do teatro atualmente. Me fizerem enxergar que antes do glamour existe muito trabalho.
Você descreve o ato de interpretar como um “mergulho profundo”. Qual foi o personagem que mais te confrontou internamente até hoje? Sem sombra de dúvidas foi a Safira de Os 10 Mandamentos que interpretei por dois anos e hoje está na Netflix. Mas recentemente interpretei Olívia, uma deficiente visual, e isso mexeu muito comigo. O filme estreia agora dia 1 de maio. Essa personagem me deu uma grande imersão do que precisamos realmente valorizar.
Trabalhos como Os Dez Mandamentos e A Segunda Dama te deram grande visibilidade. Como você equilibra reconhecimento popular com escolhas mais autorais? Eu acredito serem imersões diferentes. Trabalhos onde sou chamada é preciso uma disciplina subordinada, quando eu crio é um mundo a ser explorado, gosto muito mais!
No cinema, você também assumiu o papel de produtora. O que mudou na sua relação com a arte quando passou a construir seus próprios projetos? É exatamente a liberdade de poder mostrar a fundo o meu potencial de artista! Geralmente em outros projetos depois de muito trabalho pra criar a personagem, você acaba sendo ceifada e o trabalho se perde. Já passei por isso muitas vezes, inclusive num filme recente onde eu era a antagonista e por uma loucura da produção ou da direção eu virei participação. Isso é frustrante demais! Agora nos meus projetos eu tenho o domínio da minha arte, com isso fortaleço e valorizo ainda mais os atores que estão comigo.

Você fala muito sobre autonomia criativa. Existe alguma história que você só conseguiu contar porque decidiu produzir por conta própria? Sim, acabei de produzir o filme Os Emergentes, que fala sobre pessoas que ascendem socialmente, uma mulher que foi empregada doméstica e depois empregou a própria patroa! E isso já aconteceu comigo. A frase de venda do filme é “O mundo não gira ele capota”. O longa estreia em julho em todos os cinemas do Brasil.
Sua música nasce de temas sensíveis e sociais. Como você encontra o equilíbrio entre emoção, responsabilidade e impacto ao abordar esses assuntos? Eu costumo dizer que componho exatamente o que vejo e sinto na sociedade, existe sim uma grande responsabilidade porque falar do que machuca o outro incomoda. Mas por outro lado é o papel da arte.
“Decisão” trouxe uma pauta importante sobre vivências femininas. Que tipo de retorno do público mais te marcou após esse lançamento? Eu tive todos os retornos possíveis das mulheres que passaram ou não por situações de assédio físico e moral. Porque na verdade todo mundo conhece uma mulher que já foi agredida. Eu adorei esse trabalho e me orgulho muito dele.



Parcerias com nomes como Angela Ro Ro e Zezé Motta ampliam o alcance do seu trabalho. O que você busca em uma colaboração artística? Eu sempre busco a parte sensível do outro, cada parceria houve uma colaboração sentimental e de vivência mesmo! Zezé e Ângela foram símbolos de Resistência.
Você afirma que não consegue mais separar arte de posicionamento. Já houve algum momento em que isso te fez recusar um projeto? Vários momentos! Não aceito mais convites onde a personagem só mostra um estereótipo físico, por exemplo, Não tenho mais paciência pra esse tipo de convite. Eu sou uma artista muito estudiosa e experiente pra viver só nesse lugar.
Representar Luma de Oliveira no desfile da Unidos do Viradouro foi um marco. Como foi lidar com o peso simbólico dessa responsabilidade? Foi incrível interpreta-la, não houve peso, houve força por tudo que ela representou para o carnaval. Abriu caminhos para todas as outras que estão até hoje na avenida com muita liberdade.
Você menciona estar em um “ponto de virada” em 2026. O que o público pode esperar dessa nova fase mais consciente e autoral da sua carreira? Esse ano será o um ano importantíssimo, principalmente para o meu trabalho independente. Meu segundo filme estreia no cinema de todo o Brasil, feito só pela minha produtora, lançarei mais uma música autoral e já estou pré produzindo outro projeto no cinema. Além de lançar meu primeiro Show chamado Sambajey.


Beleza Eliseu Santana (@eliseusantana)


