MÚSICA: FILHOS DE JORGE TRAZ UM NOVO CONCEITO E ESTILO PARA A MÚSICA BAIANA

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Com uma carreira construída sobre identidade, originalidade e forte conexão com o público, a Filhos de Jorge se firma, desde o surgimento, como uma das maiores e mais consistentes promessas da música baiana no Brasil atualmente. Ao longo de 16 anos de trajetória, o grupo ultrapassou fronteiras regionais, levando o suingue, a alegria e a autenticidade da Bahia para palcos de todo o país, sempre mantendo a essência que o consagrou. Sob o comando de Arthur Ramos, Dan Vasco e Papito Gomes, a Filhos de Jorge gravou dezenas de faixas, em um repertório cuidadosamente pensado para traduzir sua evolução artística. Em janeiro a banda deu mais um passo importante em sua história ao realizar a gravação do Macaco Sessions, projeto audiovisual da Macaco Gordo sob direção de Chico Kertész, em Salvador. A iniciativa se dedica à criação de registros audiovisuais que constroem uma visão ampla da trajetória dos artistas convidados, com curadoria de repertório e linguagem pensadas para preservar e expandir a memória da música produzida na Bahia e no Brasil.

Como surgiu a Filhos de Jorge e com que diferencial? A banda nasceu do sonho do pai de Papito Gomes em ver os filhos vivendo da música, e da vontade de fazer música celebrando a alegria, a percussão e a identidade da Bahia. A gente sempre esteve muito conectado com o samba-reggae, com os blocos afro, com o pagode baiano e com essa energia percussiva que pulsa nas ruas de Salvador. O nosso diferencial sempre foi misturar tradição e modernidade: manter a raiz forte da música baiana, mas dialogando com o pop, com o eletrônico, com o que está acontecendo no mundo. É a Bahia com linguagem universal.

Vocês poderiam contar um pouco da trajetória da banda…  A nossa trajetória é construída com muito trabalho, estrada e verdade. Desde o início, a gente acreditou na força das nossas composições e no poder da percussão como protagonista. Vieram os primeiros sucessos, os trios elétricos, os grandes palcos, as parcerias importantes e, principalmente, o reconhecimento do público. Cada fase foi fundamental para amadurecer nosso som. Hoje, somos uma banda mais segura, mais consciente da nossa identidade e com ainda mais vontade de inovar.

Uma prova que a Bahia continua um celeiro de grandes e criativos artistas. Vocês bebem de que fontes no universo musical baiano? A Bahia é um universo musical em si. A gente bebe muito nas fontes dos blocos afro como Olodum, Ilê Aiyê, Timbalada; no samba de roda do Recôncavo; no pagode baiano; na MPB produzida aqui. Mas também estamos atentos à nova geração, que vem com uma linguagem muito própria. As nossas referências da música latina como um todo também são muito vivas. A música baiana é plural, e essa pluralidade nos inspira diariamente.

No novo projeto musical de vocês a faixa “Vai Logo, Vida” é a aposta da Filhos de Jorge para este Carnaval. Que “ingredientes” a música possui para cair nas graças dos foliões? “Vai Logo, Vida” tem energia, refrão forte e aquela batida que não deixa ninguém parado. A gente pensou numa música que tivesse identificação imediata, que fosse leve, divertida e que traduzisse o espírito do Carnaval: viver o agora, sem medo de ser feliz. Ela tem groove, tem swing, tem aquele tempero baiano que faz a diferença no trio.

No projeto “macaco sensation” gravado recentemente em Salvador, vocês reuniram grandes clássicos da carreira e trouxeram participações especiais como da Rachel Reis e Nêssa. Como surgiu essa parceria entre vocês? O “Macaco Sessions” nasceu da vontade de revisitar nossa história com uma nova estética. Queríamos algo mais orgânico, mais próximo do público. As participações surgiram de forma muito natural. A gente admira muito o trabalho de Rachel e Nêssa, artistas que representam essa nova força da música baiana. Foi uma troca linda, de respeito e conexão musical.

Qual a importância do projeto Macaco Sessions para vocês nesse momento da banda? É um projeto que marca maturidade. Ele mostra quem somos hoje, reafirma nossa identidade e ao mesmo tempo aponta novos caminhos. É quase um reencontro com a nossa essência, mas com a experiência que acumulamos ao longo dos anos. Foi um momento muito especial pra gente.

Vocês fizeram grandes parcerias musicais com Claudia Leitte, Léo Santana, Rachel Reis, O Kanalha e outros nomes da música baiana. Esse ano vocês receberam no trio no “Furdunço” um artista internacional – Nasri, vocalista da banda Magic! – como foi pra vocês essa experiência e marco inédito na festa e carreira da banda? Pode vir parceria?  Foi surreal. Ter um artista internacional como Nasri vivendo o Carnaval de Salvador com a gente foi histórico. Ele sentiu de perto a energia do nosso povo, do trio, da percussão. Foi uma troca cultural muito rica e, claro, portas ficam abertas. A música não tem fronteiras — e a Bahia conversa com o mundo.

Vocês fazem um curadoria cuidadosa para preservar e expandir a memória da música produzida na Bahia e no Brasil. O que levam em conta para isso? Respeito à história e responsabilidade com o futuro. A gente entende que faz parte de uma tradição muito forte. Então buscamos valorizar os mestres, revisitar clássicos, mas também abrir espaço para novas narrativas e sonoridades. Preservar é manter vivo — e expandir é permitir que a música evolua.

Antigamente se falava muito da música baiana se referindo ao axé music, hoje qual é a real “música baiana”? Hoje a música baiana é plural. É axé, é pagode, é arrocha, é MPB, é trap, é samba-reggae, é eletrônico com percussão. A verdadeira música baiana é a que carrega identidade, ritmo e verdade. Não cabe mais numa única definição — e isso é maravilhoso.

Hoje é mais difícil fazer música para o grande público? Quais os desafios encontrados? O cenário mudou muito. Hoje existe uma velocidade enorme de consumo e uma concorrência global. O desafio é se manter relevante sem perder identidade. Mas ao mesmo tempo é uma época de oportunidades. A internet democratizou o acesso. O segredo é fazer música com verdade — porque o público sente.

O que inspira vocês na hora de compor? A rua inspira. O Carnaval inspira. As histórias que ouvimos, os encontros, os amores, as dores, a fé. A Bahia é uma fonte inesgotável de inspiração. A gente compõe pensando em como aquela música vai ecoar no trio, no show, na vida das pessoas.

Quais as expectativas para esse carnaval? As melhores possíveis! Carnaval é o nosso habitat natural. Estamos preparando um repertório especial, muita energia e surpresas. A expectativa é viver momentos inesquecíveis, fortalecer essa conexão com o público e fazer mais um capítulo lindo da nossa história.

Fotos Thalles Lamari