
De uma pequena loja no interior de Minas Gerais ao comando de um dos maiores conglomerados do varejo brasileiro, a trajetória de Ricardo Nunes não se limita ao sucesso empresarial — ela se consolida como um verdadeiro case de visão, resiliência e inteligência estratégica. Nascido em Divinópolis, ele transformou desafios em combustível para crescer, construiu a Ricardo Eletro e ajudou a dar forma à Máquina de Vendas, redefinindo o varejo nacional. Hoje, com a mesma energia que o impulsionou no início, ele direciona sua experiência para formar líderes e impactar o ecossistema empreendedor por meio do Grupo R1. Nesta entrevista, Ricardo fala sobre decisões, legado, liderança e o Brasil que ele acredita — um país construído por quem faz.
Sua história começa em Divinópolis. Como esse início influenciou sua mentalidade empreendedora e sua forma de enxergar oportunidades? Divinópolis foi minha escola de vida. Eu venho de uma realidade simples, onde nada era garantido e tudo precisava ser conquistado com muito trabalho. Isso forma caráter e, principalmente, desenvolve um olhar aguçado para oportunidade. Quando você cresce sem excesso, aprende a valorizar cada chance e a não desperdiçar esforço. Empreender, para mim, nunca foi uma escolha sofisticada, foi necessidade. E essa necessidade vira força. Até hoje, eu carrego esse olhar prático: oportunidade não é o que aparece pronto, é o que você constrói a partir do que tem na mão. Eu sou muito do que minha mãe me ensinou. Garra, luta e muito trabalho, sempre!

Você iniciou com uma loja de apenas 20 m². Em que momento percebeu que aquele pequeno negócio poderia se transformar em algo muito maior? A verdade é que eu nunca pensei pequeno, mesmo começando pequeno. Aquela loja de 20 metros era o que eu tinha, não o que eu queria construir. O momento de virada não foi um evento específico, foi uma mentalidade: eu comecei a perceber que o cliente respondia, que havia demanda reprimida e que, se eu organizasse melhor operação, preço e atendimento, dava para escalar. Crescimento não acontece por acaso, ele começa quando você entende que o modelo funciona e passa a replicar com consistência.
Ao longo da expansão da Ricardo Eletro, quais foram as decisões mais críticas que definiram o sucesso da empresa? Sem dúvida, a decisão de crescer de forma agressiva, ocupando mercado enquanto muitos ainda estavam cautelosos, foi determinante. Mas crescimento por si só não sustenta nada, o que fez diferença foi disciplina em preço, gestão de caixa e velocidade de decisão. No varejo, quem demora perde. Outra decisão importante foi construir uma comunicação direta com o consumidor, sem intermediários, falando a língua do povo. Isso criou e ainda cria nos dias de hoje: conexão e volume.
A criação da Máquina de Vendas marcou uma nova fase no varejo nacional. O que essa experiência ensinou sobre escala e gestão de grandes operações? A Máquina de Vendas mostrou, na prática, que escalar é muito mais complexo do que crescer. Crescer você controla. Escalar exige governança, alinhamento entre sócios, cultura bem definida e processos sólidos. Quando isso não está perfeitamente estruturado, o tamanho começa a jogar contra você. Foi um aprendizado muito grande sobre limites, sobre integração e, principalmente, sobre a importância de ter clareza estratégica em ambientes de alta complexidade. Agora eu viajo o Brasil inteiro levando a Máquina de Vendas, como uma convocação nacional. Todo empresário tem que estar presente. É escola viva!


Sua trajetória é frequentemente associada à leitura precisa de mercado. Como você desenvolveu essa habilidade e como a aplica hoje em novos projetos? Eu sempre estive muito próximo do cliente. Nunca fui um empresário de ar condicionado. Eu escutava o consumidor, observava comportamento de compra, sentia o mercado na ponta. Isso desenvolve uma intuição que, na verdade, é resultado de repetição e atenção. Hoje, continuo aplicando isso, mas somado a dados. Intuição sem dado é risco. Dado sem leitura prática também não resolve. O equilíbrio entre os dois é o que gera decisão inteligente.
O marketing sempre foi um diferencial no seu negócio. Quais estratégias você considera mais decisivas para conquistar e fidelizar clientes no varejo? Clareza e verdade. O cliente precisa entender rapidamente qual é a sua proposta. Preço competitivo, comunicação direta e consistência na entrega são fundamentais. Eu sempre acreditei em presença forte, repetição e mensagem simples. Não adianta complicar. E fidelização não vem de campanha bonita, vem de cumprir o que promete. No varejo, reputação é construída na prática do dia a dia.
Após deixar o comando das empresas, você direcionou sua energia para a formação de líderes com o Grupo R1. O que motivou essa transição? Veio muito da percepção de que existe uma carência grande de formação prática no Brasil. Muita teoria e pouca vivência real. Muito empresário de palco e muito coaching ensinando o que nunca viveu. Eu passei por tudo. Crescimento, crise, erro, acerto… e entendi que poderia encurtar caminho para muita gente. O Grupo R1 nasce com esse propósito: formar empresários mais preparados, mais conscientes e mais estruturados para crescer com consistência e gerar valor para esse nosso Brasil.

No Grupo R1, você trabalha diretamente com empresários. Qual é o erro mais comum que você observa entre empreendedores em fase de crescimento? O principal erro é crescer sem gestão. O empresário foca em vender mais, expandir, abrir unidades, mas não estrutura processo, não organiza financeiro e não desenvolve equipe. Aí o crescimento vira problema. Outro ponto é centralização excessiva. O empresário quer controlar tudo e não forma lideranças. Isso trava o negócio. Ele não tem que ficar só no estratégico, mas tem que se dividir e ficar no estratégico e na operação. Tem que saber liderar, comandar, fazer e pedir que seja feito.
Você se tornou uma referência como mentor. Como transformar experiência prática em ensinamentos que realmente mudam a mentalidade de outros líderes? Primeiro, sendo verdadeiro. Não sou mentor e nem coaching. Sou um empresário que meteu as caras e fez 12 bilhões de faturamento, teve 45 mil funcionários e 1100 lojas pelo Brasil. Não adianta romantizar a minha história de empreendedorismo. Eu saio pelo mundo afora falando de erros, de dificuldades, de decisões difíceis e de vitórias. Segundo, eu levo aplicação prática. O empresário precisa sair com direção clara, não só inspirado e motivado. Tem que sair dos meus encontros com uma receita clara. E terceiro, eu provoco uma mudança de mentalidade. Porque, no fim, o negócio cresce até onde a cabeça do dono permite. Se ele vai além…. o céu é o limite.

Sua atuação social ganhou destaque com iniciativas como a Fundação Fenômenos e o Instituto Neymar Jr.. Qual o papel do empresário na transformação social? O empresário tem um papel fundamental. Ele gera emprego, renda e oportunidade. Mas pode e deve ir além. Quando você alcança determinado nível, passa a ter responsabilidade sobre o impacto que gera. Apoiar projetos sérios, que transformam vidas de verdade, é uma forma de devolver para a sociedade e contribuir para um país melhor. Sempre fiz isso a minha vida inteira… Mas fui motivado a mostrar para o mercado como se faz, afinal meu Clube R1 tem mais de 600 empresários e eu preciso ser exemplo.
Ao participar de eventos como o leilão ligado a Ronaldo Fenômeno, você se conecta a grandes causas. Como essas experiências impactam sua visão de legado? Isso amplia muito a visão. Você percebe que o legado não está só no que você constrói financeiramente, mas no impacto que deixa nas pessoas. Participar de iniciativas assim reforça que sucesso de verdade é quando você consegue crescer e, ao mesmo tempo, gerar transformação positiva, apoiar o próximo e faze a diferença.

O movimento “Brasil de Quem Faz” reforça sua crença no empreendedorismo real. Que mudanças você acredita que ainda são necessárias para fortalecer o ambiente de negócios no país? O Brasil precisa simplificar. Menos burocracia, mais segurança jurídica e incentivo real para quem produz. O empreendedor brasileiro já enfrenta muita dificuldade. Se o ambiente melhorar, o crescimento vem naturalmente. Além disso, precisamos valorizar mais quem gera emprego e menos quem só critica sem construí nada.
Quais os projetos futuros que pode nos adiantar? Meu foco continua sendo o Grupo R1, expandindo a formação de empresários em todo o Brasil e fortalecendo o ecossistema de negócios. Também estou envolvido em novos projetos ligados a educação empresarial, tecnologia aplicada à gestão e iniciativas que conectem empreendedorismo com impacto social. Sempre com o objetivo de gerar resultado e desenvolvimento real.
Fora da mídia e negócios, quem é o Ricardo Nunes que só a família e amigos mais próximos conhecem? Sou um cara de hábitos simples. Gosto de estar com a minha família, gosto de momentos tranquilos, de conversar e contar casos que vivencio pelo Brasil. Gosto de servir e ser presente. Quem convive de perto comigo sabe que eu valorizo as coisas simples. Valorizo muito a lealdade, a amizade e a verdade. No fim, tudo que a gente constrói só faz sentido se puder compartilhar com quem está ao nosso lado no dia a dia e torce pela gente. Família é tudo!



