O ator Bruno Garcia foi nossa primeira capa impressa, isso em 2011, época em que Bruno participou de trabalhos como “O Bem Amado” e “Aquele Beijo”. Oito anos depois Bruno segue um momento bem especial da sua carreira onde sua veia criativa e seu talento sem limites brilham no teatro, no cinema, na TV, música e um documentário sobre o espetáculo “Paixão de Cristo” no Marco Zero, em Recife, onde interpretará Jesus. Para quem está fora da cidade natal desde 1991, voltar por conta de um convite de trabalho tão especial assim é puro êxtase. No auge dos seus 48 anos, vive um de seus melhores, e mais diversos, momentos. Ao lado da sua companheira, Dominique Magalhães, encontrou o porto perfeito para novas trilhas e descobertas no meio cultura em um momento tão delicado par a cultura brasileira. Bruno segue incansável e firme no seu propósito de ser um artista e suas diversas vertentes. E nós, ficamos novamente agradecidos pelo reencontro e de olho do que vem por aí.

Bruno, depois de tantos anos morando longe da terrinha, volta para fazer Jesus Cristo em uma nova “Paixão de Cristo” no Marco Zero com velhos amigos de teatro e com projeto familiar de um documentário sobre o espetáculo. Conte-nos como recebeu o convite. A possibilidade de voltar a trabalhar com tanta gente que fez parte do início da minha carreira, de cara, me deu uma alegria imensa. Recife é minha cidade de nascimento e o lugar onde o teatro entrou de vez na minha vida. Estar novamente numa produção totalmente pernambucana me dá a sensação de estar voltando pra casa.

Que desafios você espera enfrentar nesse trabalho? Alguma realização pessoal? Sem dúvida, uma grande responsabilidade. Imagine para um ator ser convidado para interpretar o personagem mais importante da história do ocidente. Você pensa: eu vou dar vida ao cara que ao nascer definiu o ano em que nós estamos. Responsabilidade Divina.

E como surgiu a ideia sobre o documentário? Fazer um papel nesse tipo de espetáculo, onde o texto está previamente gravado, traz desafios e peculiaridades. Um trabalho muito diferenciado. Então minha companheira de vida e também de trabalho, Dominique Magalhães, teve a ideia de fazer um registro do processo. Mas também com o intuito de capturar o olhar feminino do fenômeno Cristo.

E o que trouxe do mundo para esta temporada? Muita pesquisa sobre a vida de Jesus e também sobre cultura céltica. E uma loção para passar na barba.

O podemos esperar deste novo Jesus? Jesus carregava um extraordinário peso em suas costas. Uma responsabilidade monumental que deve ter custado um preço emocional inimaginável. Demonstrar esse peso não é fácil. Já me deparei com dezenas de versões de Cristo, gosto de muitas, mas sempre achei que havia algo excessivamente alegórico nelas. Nas versões mais realistas Jesus é demasiadamente sorumbático. Mais na versão de Carlos Carvalho, que tem uma dinâmica brilhante, vi a oportunidade de fazer um Jesus mais solar, com aquela empolgação genuína dos jovens que sabem que tem potencial.

E deste nosso novo, velho e bom Bruno Garcia? Muitos projetos em mente. Estou interessado em encaminhar minha carreira para um lugar cada vez mais autoral.

Personagem e ator voltam mais: Rebeldes? Românticos? Revoltados? Radicais? Realista.

Soubemos que você tem uma banda de rock. Como aconteceu isto? Que inspirações de artistas locais ainda é algo bem vivo em você? Após uma parceria com Rodrigo Canellas e Max Iabrudi no espetáculo “O Livro de Tatiana”, musical de minha autoria, criamos um vínculo criativo. Nós amamos rock e um belo dia os dois me convidaram para formar uma banda. Mergulhei nessa ideia e nesse momento já estamos compondo repertório próprio. Em relação aos artistas locais penso que a musicalidade pernambucana é um manancial precioso do qual tive a sorte de comungar. Há uma quantidade incrível de sonoridades. Falando especificamente em rock, acho o lendário Ave Sangria, muito inspirador.

Hoje em dia como você avalia a produção cultural produzida em Recife em relação ao que você vê no eixo Rio-SP? Até o golpe de 2016 o Brasil vinha paulatinamente aperfeiçoando suas políticas públicas de desenvolvimento da cultura de nosso país e eu via entusiasmado como Pernambuco voltava a se destacar como o importante polo cultural que sempre foi. A força criativa de nossa região é historicamente marcante na produção brasileira. Nosso cinema voltou a ter a pujança que remonta ao início do século XX, quando Pernambuco produzia filmes em escala industrial no mesmo nível dos EUA e da Europa. Mas a elite do dinheiro, inconformada com a incapacidade de voltar ao poder pelas urnas, proporcionou o desastre que nos trouxe ao pior momento da história do país e que começou com o delírio de levar a diante o impedimento da presidente Dilma. Usando a conhecida tática fascista de “combate à corrupção” afastaram uma mulher eleita democraticamente sem nenhum crime e entregaram o poder a corruptos verdadeiros.

Resultado. O país está estagnado pela insegurança política, pela fragilidade judiciária e inoperância executiva. O Ministério da Cultura foi extinto. Só isso já é sintomático pra perceber que o país está entregue a um projeto sem rumo que deseja simplesmente desmontar o Estado e oferecê-lo a preço de banana pra quem quiser comprar. Vai ser preciso resistir muito pra continuar fazendo cultura no Brasil.

Do que sente mais falta ainda da sua terra natal? Da minha mãe. E da comida que ela faz.

O que você levou de Recife que não larga mais? As sandálias de couro que meu pai faz.

Com as redes sociais e internet perdemos as fronteiras. Isso ajuda muito, integra pessoas e culturas. Mas perde-se um pouco a identidade? Como você avalia isso? Inventamos uma ferramenta que ainda não sabemos utilizar.

Ao mesmo tempo que a grande rede oferece de maneira inédita acesso a todo o conhecimento produzido pela humanidade, também fomenta o apreço pelo superficial. Não se chegará a lugar algum se os debates se limitarem a 140 caracteres.

Em que as redes sociais ajudam e atrapalham tanto na área profissional como na de trabalho? Como disse acima, há um paradoxo. O que poderia ajudar a desenvolver maravilhosamente a humanidade parece estar abrindo caminho para a idiotização das pessoas.

Numa época de muita informação as pessoas estão mais intolerantes. Como entender isso? Continuo usando o mesmo raciocínio. A informação sobre o mundo real está disponível. Mas algumas pessoas preferem inventar realidades paralelas. Outras, escolheram acreditar nelas. É mais fácil e mais cômodo do que ir atrás da verdade, que é bem mais complexa.

Que desafios você se impõe como ator e homem nos dias de hoje? Como ator quero criar mais meus próprios projetos. Como homem o desafio é manter a saúde mental e espiritual em meio à essa catástrofe que está acontecendo no Brasil.

Falando em desafios, soubemos que você estreia vários filmes este ano, à começar com o terceiro filme da trilogia do “De Pernas Pro Ar 3”. Qual foi o desafio de fazer filmes no Brasil? No Brasil de hoje se tornou um desafio fazer qualquer coisa ligada à civilização. Seja arte, seja pesquisa científica, etc. Fazer um filme já não era fácil. De agora em diante não sei o que pode vir a acontecer.

O que te tira do sério e o que te coloca em sintonia? Me tira do sério ver um governo eleito pelo povo operar cruelmente contra a maioria da população. Estar em lugares selvagens ou em sítios ancestrais me deixa em sintonia.

Nas horas vagas o que faz sua cabeça? Pensar. Muito.

Agora com esse visual barbudo e cabelos grandes como anda a vaidade?  Quem manda no meu visual são os personagens que interpreto. Não me lembro qual foi a última vez em que cortei o cabelo sem que fosse para a caracterização de um papel. Eu curto barba grande, mas a primeira vez em consegui deixá-la crescer bastante foi justamente pra fazer um personagem (Pedro, da série “Queridos Amigos”). É comum fazer mais de um trabalho ao mesmo tempo e um visual como o que estou agora inviabiliza vários perfis. Jesus me trouxe novamente essa oportunidade.

O que te conquista? Me conquista a solidariedade, a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro. A disposição para construir um lugar melhor para todos.

E o que te assusta? Me assusta ver como o ódio cresceu no Brasil e como ele vem sendo fomentado pelo grupo político que acabou subindo ao poder. Quando o exército de um país fuzila um trabalhador com 80 tiros diante de sua família e não há sequer um pedido de desculpas vindo de nenhuma autoridade responsável, é sinal que o Estado foi conivente. E as inacreditáveis ideias de políticas públicas apresentada pelo atual governo para área demonstram a intenção de institucionalizar o que já acontece longe dos olhos da classe média há anos: o extermínio da população pobre, com os negros representando sua esmagadora maioria.

Quais as novidade vindo por aí sobre seus trabalhos? TV, cinema, internet, livros, série, novela, rádio? “De Pernas Pro Ar 3” foi lançado no último dia 11 com expectativa de corroborar o grande sucesso da franquia. “Divaldo”, longa-metragem sobre a vida do mais importante médium espírita vivo está com seu lançamento previsto para o 2º semestre, bem como “O Amor dá Trabalho” que foi rodado em 2017 e que também estreia em 2019. Além disso, o primeiro episódio da terceira temporada de “Sob Pressão” vai ao ar dia 02 de maio. Estou escrevendo um livro junto com minha companheira, Dominique Magalhães, com a qual venho dividindo vários projetos. Nesse livro estamos criando uma ficção baseada na cultura céltica.

Falando de Dominique, trabalhar juntos atrapalha a rotina como casal? Trabalhar bem junto a quem se ama é uma parceria de sonho.

Conciliar dois projetos aqui em Recife ao mesmo tempo, com filmes e séries com expectativa e dinamismo aos 48 anos. Qual é o segredo? Dormir com a consciência tranquila.