CAPA: HUMBERTO MARTINSDE VOLTA À TV E AO CINEMA EM DEIXE ME VIVER EM CANNES

Por Marcia Dornelles 

Com mais de três décadas de carreira e uma galeria de personagens marcantes na televisão e no cinema, Humberto Martins segue como um dos nomes mais respeitados da dramaturgia brasileira. Dono de uma presença cênica poderosa e de uma sensibilidade que atravessa o tempo, o ator fala com exclusividade para a MENSCH sobre sua trajetória, o amadurecimento artístico, os novos projetos e a beleza de viver um novo tempo, agora mais sereno, consciente e conectado com o essencial. Entre memórias de uma era dourada da TV e o entusiasmo com o cinema nacional, Humberto reflete sobre carreira, fé, família e futuro, revelando o mesmo brilho que conquistou o público há décadas. O ator está prestes a estrear o filme Deixe-me Viver, filme de Mônica Carvalho produzido pela Yva Filmes, WN Produções, Marc Films e PRH9, com direção de Walther Neto.

O longa foi selecionado para exibição no Marché du Film, em Cannes, neste mês de maio. No longa, Humberto interpreta o pai de uma jovem com câncer terminal em uma trama sensível e emocionante. Paralelamente, o ator acaba de concluir as gravações do filme 45 Dias, filme o qual atua ao lado de seu filho Humberto Duarte, no mesmo papel e com estreia prevista para o próximo ano, e também retorna à televisão na série bíblica “A Ira do Herdeiro”, que será exibida pela Record TV. Conhecido por personagens marcantes em novelas como Mulheres de Areia, Uga Uga e O Clone, Humberto viverá o rei assírio Senaqueribe, na nova produção bíblica — um soberano imponente, estrategista e símbolo absoluto do poder assírio. Confira nosso bate-papo pé na areia, diretamente das instalações do Hotel Amaia Trancoso, cenário das fotos deste ensaio!

Humberto, você começou na televisão nos anos 80 e logo se tornou um dos grandes galãs da Globo nos anos 90. Como enxerga essa trajetória hoje, olhando em retrospecto? Olha, Márcia, eu enxergo essa trajetória como uma grande viagem, feita de surpresas e de personagens que vieram um após o outro. Era o estilo da época — o tempo dos galãs, algo que hoje nem é tão evidente, mas que, naquela fase, tinha um valor enorme dentro da teledramaturgia. Vejo que tudo foi providencial, de acordo com o estilo de uma geração. Eu estava ali com o “physique du rôle” que, embora não fosse exatamente o meu perfil pessoal, representava o que se esperava de um galã romântico: triângulos amorosos, o mocinho, o anti-herói, o rebelde… E isso marcou uma era. Sinto um certo saudosismo, porque foi uma fase de ouro, com autores e diretores incríveis, histórias existenciais e trilhas sonoras inesquecíveis. O público vivia a emoção junto conosco. Não existiam redes sociais; a mídia era impressa. As pessoas iam às bancas de jornal, compravam revistas, acompanhavam nossas histórias — e havia um encanto muito grande nisso tudo.

Era um tempo intenso e glamouroso. Nós, atores, éramos ovacionados, havia uma idolatria que, de certa forma, até assustava. As viagens, os eventos, as presenças em festas… Era um frenesi. Mas também era um trabalho árduo: um protagonista chega a estudar entre 60 e 90 páginas de texto por semana. Exigia muita dedicação, comprometimento e, claro, deixava pouco tempo para a vida pessoal. Hoje, olhando de longe, vejo que tudo passou muito rápido. Cada personagem era uma grande novidade, uma nova expectativa. Procurei sempre quebrar o estereótipo do galã, trazendo mais realismo e naturalismo aos papéis. Foi um período muito intenso, de muito trabalho, mas também de grandes realizações e aprendizados.

Entre tantos personagens marcantes, especialmente nas novelas de Carlos Lombardi, qual deles você considera que mais deixou sua marca pessoal e profissional? Entre todos, principalmente nas novelas do Carlos Lombardi, dois personagens marcaram muito a minha trajetória: o Bruno, de 4×4, e o Baldochi, de Uga Uga. Todos os papéis têm uma marca pessoal e profissional, mas esses dois me deram grande reconhecimento popular. Eram personagens difíceis, exigiam muito do físico, do emocional e do orgânico. Trabalhar nas novelas das sete era uma loucura, um ritmo acelerado, mas que me deu muito estofo, resiliência e resistência. Por outro lado, os personagens das novelas das nove e das minisséries me deram um prestígio diferente — aquele reconhecimento como ator dramático, intelectual. São marcas distintas, de diferentes intensidades e categorias. Em todos, procurei dar o meu melhor, buscando harmonia entre o tom da obra, o personagem e a direção. Acho que é isso que faz o público se conectar com o trabalho do ator.

Se tivesse a chance de revisitar o passado, faria algo de forma diferente? Ah, sem dúvida. Se eu pudesse revisitar o passado, faria várias coisas diferentes. Com a maturidade de hoje, e a juventude de outrora, tomaria decisões que me trariam mais conforto e sabedoria em muitos momentos da vida. Mas acredito que tudo tem seu propósito — cada escolha nos trouxe até aqui.

O filme Deixa-me Viver,  onde você tem um papel de destaque será lançado em Cannes. O que esse projeto representa para você neste momento da carreira? Esse projeto, que fui convidado pela Mônica Carvalho, autora do texto junto com Michele Muniz e Marcelo Correia, sob direção de Walter Neto, é muito especial. É um filme com alma, uma história familiar, dramática, que fala sobre tempo, escolhas e o que realmente importa na vida. Deixa-me Viver trata de uma família que enfrenta uma situação delicada, e é impossível não se ver refletido nessa narrativa. É um filme bonito, sensível e ao mesmo tempo profundo. Traz essa reflexão sobre o tempo — o que fazemos com ele, o que deixamos de fazer, o que realmente tem valor.

Gravar na Bahia, com toda aquela energia, foi uma experiência linda. A fotografia, as cores, o acolhimento do povo baiano… tudo isso deu ainda mais vida ao filme. É uma obra que toca o coração e nos faz pensar sobre amor, generosidade e fé. É com grande alegria que recebi a notícia da seleção do filme “Deixa-me Viver” para o Festival de Cannes. O projeto, concebido com tanto carinho e dedicação, visava justamente essa importante plataforma, e a sua aceitação é motivo de celebração. Parabenizo a todos os envolvidos, especialmente Mônica, Valter, Cat e toda a equipe, por essa conquista. Reconheço o esforço de cada um na realização deste trabalho. Lamentavelmente, devido a compromissos profissionais no Brasil, não poderei estar presente em Cannes para prestigiar esse momento. Minha torcida, no entanto, é total.

Acredito que o filme terá um impacto significativo no público. A história, inspirada em fatos reais, aborda com coragem e sensibilidade a jornada de uma jovem diante de uma doença terminal, e as decisões tomadas pelos personagens. A narrativa, a produção cuidadosa, a direção e as atuações prometem emocionar e provocar reflexões. Sinto-me honrado e surpreso com essa conquista. É notável alcançar um festival da magnitude de Cannes, que reúne filmes de renome e grandes estrelas do cinema mundial. É gratificante ver o Brasil representado por nosso filme nesse cenário. Desejo sucesso a todos e que o merecido êxito seja alcançado.

Hoje você mora em Orlando. Como é equilibrar a vida em família nos Estados Unidos com os trabalhos no Brasil? É tranquilo e, ao mesmo tempo, saudoso. Tenho família, filhos e netos nos dois lugares. Minha vida sempre foi assim — entre aeroportos, malas e voos. Mas sempre sobra um tempo para relaxar e viver com alegria. Tento estar o mais próximo possível das pessoas que amo, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

Muitos ainda associam sua imagem ao galã, mas você já viveu personagens complexos e distintos. Existe algum papel que ainda sonha interpretar? Existem muitos papéis que rondam a minha cabeça — alguns de Shakespeare, outros que vêm da minha própria imaginação. Sempre haverá algo novo a ser interpretado, e é isso que nos move como atores. Uma vez, brincando com um repórter, ele me perguntou qual era meu personagem favorito, e eu respondi: o próximo. Porque é ele que me desafia e me sustenta — profissionalmente e espiritualmente. Tenho vontade de escrever, talvez criar meus próprios roteiros, dar forma a personagens que representem esse novo momento da vida. Acho que o melhor papel ainda está por vir.

Fora da atuação, quem é Humberto Martins hoje? Quais são suas paixões, interesses e reflexões longe dos holofotes? Hoje sou uma pessoa que valoriza muito mais a saúde — física, mental e emocional. Cuido da alimentação, da hidratação, do descanso e da tranquilidade. Busco equilíbrio, serenidade e tempo de qualidade com a família. Procuro ajudar mais, ser mais generoso, ter paciência e compreender melhor o outro. Sou grato aos autores e diretores que confiaram em mim e me ajudaram a construir essa trajetória. Hoje quero retribuir tudo isso, estar em paz, fazer o bem, viver de forma mais leve e consciente. Sou o Humberto que contabiliza a vida com serenidade, que cuida dos seus e de si mesmo, que ainda sonha com novos projetos, mas sem pressa — com equilíbrio, fé e gratidão.

Para encerrar, deixe uma mensagem para os leitores da MENSCH. A minha mensagem é que aproveitem a leitura, a vida e os seus sonhos. Agradeço imensamente o carinho dos fãs e leitores que me acompanham há tantos anos. Que todos mantenham a esperança, a disciplina e o amor pelo que fazem. Como dizia minha mãe: dá tudo certo. E eu acredito nisso. Façam tudo com alegria, com brilho, com amor, e cuidem da saúde — física, emocional e espiritual. Assim a vida se torna mais leve, próspera e feliz.Um grande abraço e um beijo no coração de todos.

Fotos Daniel França 

Stylist Elias Menezes

Agradecimentos Hotel Amaia Trancoso