Um verdadeiro operário da arte, Luciano Quirino é um cara totalmente dedicado ao seu ofício, despido de vaidades e estrelismos. De certa forma, uma referência quando se pensa no destaque que os atores negros tem conquistado na TV, ao longo dos anos. Luciano vive um momento bem especial em sua carreira ao interpretar o personagem Abílio, na novela Além da Ilusão (Globo). Um viúvo que “perde” seu filho na Segunda Guerra, mas segue sua trajetória com força, determinação e coração aberto. “Estou muito feliz com o resultado e muito grato por ter conseguido sensibilizar o publico de uma forma muito positiva com o Abílio”, conclui Luciano ao longo dessa inspiradora entrevista.

Luciano, reta final para Além da Ilusão. Como avalia a trajetória de Abílio ao longo desses meses? Foram meses de muito trabalho e dedicação. Eu criei uma história anterior ao que as pessoas viram no ar. De onde ele veio, quem eram seus pais, seus sonhos desejos, traumas e frustrações. Uma história que muita gente não sabe, nem a própria autora, e que portanto, refletiam em cada fala, cada cena. Cada ação que executei estava preenchida com essa história imaginada por mim. Onde  nasceu, onde cresceu, como aprendeu a ler e a escrever, o porque de querer que seu filho virasse doutor, o amor pela Noemia, as brigas, as desilusões, o luto…até a chegada em Campos dos Goitacazes, quando ficou viúvo. Criei toda uma trajetória emocional. A história do Abílio se inicia em Campos já viúvo e com um filho pequeno para criar. Daí pra frente, vocês já conhecem a trama que está no ar e que deve ter seu desfecho em meados de agosto. Fiquei preenchido do início ao fim da novela com essas vivências criadas nos laboratórios de preparação. Estou muito feliz com o resultado e muito grato por ter conseguido sensibilizar o publico de uma forma muito positiva, com o Abílio. 

Dentre as características do personagem, destacamos a força e a determinação dele. Algo em comum entre vocês? O Abílio tem muita coisa em comum, não só comigo, mas com milhões de brasileiros. Muitos se identificam com a força e garra desse homem que se esforçou para criar o filho sozinho, dando estudo, ensinando o verdadeiro sentido da vida. Sim! Temos características bem próximas, pois sou determinado, busco meus objetivos, não sou de tomar decisões precipitadas, e sempre procuro observar as situações.

Abílio é um viúvo que “perde” o filho para a guerra, mas consegue se reerguer. Como foi para você construir esse personagem? Por incrível que pareça, venho de uma sequência de trabalhos anteriores onde atuei como pai. O primeiro Detetives do prédio azul (sete temporadas), pai de uma criança, que coincidentemente se chama Bento também. No segundo Juntos a Magia Acontece atuei como pai de uma pré-adolescente. E agora, em Além da ilusão, interpreto o pai de um jovem romântico e sonhador. Foram desafios diferentes e que, agora, me permitiram ter maturidade suficiente para interpretar um pai que “perde” o filho pra guerra. O Abílio tem um perfil de resiliência. Além disso, conversei com pais que criaram seus filhos sozinhos. Li muito a respeito. Acho que deu certo. 

Você já comentou que já recusou personagens por não concordar com a forma que o personagem é construído. Qual o principal deslize nesses casos? O que faz você recusar um papel? Costumo escolher personagens que tenham algo interessante pra dizer, e isso não tem nada a ver com seu tamanho. Cada vez mais nós, atores negros, que vivemos dessa profissão, precisamos protagonizar nossas histórias. Estamos prontos para desempenhar qualquer personagem, sem estereótipos. Sou um profissional que vejo que posso desenvolver papéis diversos, sem necessariamente fazer o que a sociedade hegemônica espera do negro. Sempre estudei e busco o meu melhor! Mesmo quando o artista negro tem a oportunidade de um papel de destaque, muitas vezes causa indignação, pois esta “sociedade” não aceita com facilidade. O racismo estrutural tem de ser combatido, e a luta é longa, diária. Precisamos da colaboração de todos que estão em posição de privilégio.

Você acha que o negro está conquistando mais espaço, de fato, na mídia? Existem avanços, mas precisamos de mais autores e diretores negros.

Sinceramente, vejo ainda uma disparidade em uma trama onde negros ganham  projeção. As pessoas ainda agem como se estivessem fazendo um favor. Na verdade, o ideal é que pensem nos atores como capazes de atuar e fazer o seu trabalho. Temos que ter espaço para atuar e não para sermos vistos num papel como prêmio de consolação.

Temos percebido mais papeis de destaque para negros nas novelas e séries. Um bom exemplo disso é a novela Cara e Coragem. Mas ainda falta mais. Como reverter isso? Respondi um pouco sobre isso na pergunta anterior. Precisamos que a nossa história seja estudada e principalmente entendida. É um passo importante. Temos muito a conquistar!

Por que o médico Laerte de Laços de Família foi um divisor de águas para sua carreira?  A que se deve isso? No início dos anos 2000, muito se esperava de possibilidades para atores negros e foi  nesse contexto que o Laerte surgiu como um médico negro em uma novela das 21h. Creio que essa quebra de paradigmas  foi um passo importante para jovens negros, sendo representados por alguém que conseguiu acesso acadêmico e respeito profissional. Foi meu primeiro trabalho na TV. Pude aprender com grandes profissionais da televisão. Sou grato por terem me convidado para o papel. Estrear na TV em uma historia de Manoel Carlos, foi uma honra.

Se considera um “operário da arte”? Passo longe do lado glamouroso da profissão. Sou sim, um operário da arte. Quando estou envolvido em um trabalho me dedico. Acordo às 4h, 5h da manhã para criar, estudar, ler, decupar capítulos… Passo horas em pé em um estúdio esperando minha vez de gravar. Sou um operário e me orgulho muito disso. Este é o meu mote. Sou um operário-artista que se entrega ao seu trabalho como outros operários brasileiros.

O que a arte e a dramaturgia fazem por você? Exercer meu ofício me emociona. É um exercício diário de amor ao que escolhi fazer. A arte é uma coisa imprevisível, é uma descoberta. Ferreira Gullar disse uma frase que é a síntese de tudo “A arte é necessária, porque a vida não basta…” é por aí. Sou um artista por vocação e me dedico ao que me propus ser. Sempre procuro fazer o melhor de mim por onde circulo. Faço teatro, cinema, televisão pra diferentes públicos. Hoje, tenho projetos de também atuar por trás das câmeras, como direção, roteiro e produção, e pra isso fui impulsionado a fazer faculdade de Cinema e Audiovisual. Outro grande desafio. 

Fora da mídia quem é Luciano Quirino? Como se vê? Sou um brasileiro que tem a sorte de trabalhar com o que ama. Tenho uma vida tranquila, moro no Recreio dos Bandeirantes, cuido da minha família e busco o que todo mundo busca – a felicidade, apesar do mundo doente em que estamos vivendo. Para relaxar gosto de cozinhar, caminhar… Amo a natureza e quando tenho tempo ou uma pausa entre trabalhos, gosto de viajar.

Como lida com tempo e idade? O tempo precisa ser nosso aliado. A idade vai chegando e precisamos encarar a velhice como um privilégio. Amadurecer é doloroso, mas te faz ver a vida de uma forma mais pratica e objetiva. Só o tempo traz a maturidade. Aos 56 anos me vejo preparado para argumentações, confrontar ideias, lidar com a realidade sociocultural do nosso país, ou seja, tem suas vantagens.

Onde mora sua vaidade? A vaidade é um mal necessário. Quando bem dosada, serve para muita coisa. Sempre que termino uma cena, por exemplo, onde vejo o resultado de todo um trabalho, me envaideço. Quando chego na minha casa e penso em tudo que conquistei, me envaideço. Quando sou tratado em um set de filmagem com respeito, me envaideço. Quando me olho no espelho e penso que consegui chegar até aqui, me envaideço. Por outro lado, procuro não deixar a vaidade ser fator determinante em minha vida. Vou à academia, estudo, cuido da alimentação e procuro viver bem.

Para relaxar um bom (boa)… Sexo com amor… viagem… vinho. 

Depois de Além da Ilusão o que vem por ai? Isso não conto nem sob tortura. Aguardem! Em breve muitas e deliciosas novidades!

Fotos Márcio Farias / Assis de fotografia Bruno Corrêa