CARREIRA: ALEXANDRE TALEB: ELEGÂNCIA MUITO ALÉM DA ROUPA

ALEXANDRE TALEB FEZ SUA TRANSIÇÃO DE CARREIRA AOS 40 ANOS, QUANDO MUITOS PENSAM EM DESACELERAR. ATUALMENTE, É O CONSULTOR DE IMAGEM MASCULINA MAIS REQUISITADO DO BRASIL, E DEFENDE QUE ELEGÂNCIA TEM MUITO MAIS A VER COM EDUCAÇÃO DO QUE COM APARÊNCIA

Por Isabelle Barros / Fotos Anderson Macedo

A história de Alexandre Taleb com moda e estilo remonta ao berço. Pertencente a uma linhagem de comerciantes de tecidos, o consultor de imagem masculina mais prestigiado do país cresceu acompanhando o trabalho do pai na loja da família, localizada na Rua 25 de Março, a mais famosa do comércio popular de São Paulo. Aos poucos, com as experiências atrás do balcão, passou a refinar naturalmente seu olhar. Esses momentos foram valiosos para a sua grande virada profissional, que ocorreu aos 40 anos, quando muitos já pensam em desacelerar. Taleb inverteu a ordem, e a aceleração foi tão intensa que ele mesmo ainda se surpreende ao olhar para trás. Hoje, aos 54 anos, o profissional desfruta de uma carteira de clientes que ultrapassa 600 profissionais, tendo nomes dos maiores empresários do Brasil.

Em uma trajetória pouco convencional para a moda brasileira, Taleb cursou Administração de Empresas, trabalhou na loja da família e, entre outras experiências profissionais, fez parte da equipe de vendas da Emporio Armani. Toda essa trajetória o preparou para um encontro decisivo, com Ilana Berenholc, profissional mundialmente respeitada no universo de desenvolvimento pessoal e imagem, que ministrava cursos com listas de espera de um ano. Taleb chegou até ela por acaso. “Você tem cara de consultor de imagem”, Ilana teria dito.

Naquele momento, Taleb nem pensava em trabalhar no ramo, mas, por uma desistência providencial, conseguiu uma vaga em um raro e concorrido curso de Ilana no Brasil. Nos dez dias seguintes, algo se reorganizou internamente. Fez o segundo curso com ela, depois um terceiro, um quarto, online, transmitido de Israel. Depois disso, sabia que não havia como voltar atrás. O que veio depois foi uma sequência de portas se abrindo em velocidade pouco comum. Chamado para dar aula em uma escola em São Paulo, ao lado de profissionais consagrados do setor, seu nome começou a circular entre faculdades que queriam incluir a consultoria de imagem em seus currículos. Em pouco tempo estava viajando pelo Brasil inteiro, ministrando cursos de sete a dez dias em diferentes cidades e estados. A escola virou trampolim para as faculdades e estas, abriram as portas para a televisão. “A minha ascensão foi muito rápida”, reconhece Taleb. O consultor passou por várias emissoras: Record, Rede TV!, bem como pelos programas de Rodrigo Faro, Otávio Mesquita e Amaury Junior. Cada aparição expandia o alcance, trazia novos clientes e criava agenda para palestras corporativas, no Brasil e fora dele.

IMAGEM E MODA

Uma das distinções que Taleb faz questão de estabelecer, e que define a natureza singular do seu trabalho, é a diferença entre imagem e moda. Para quem o ouve pela primeira vez, pode parecer sutil. Para ele, é fundamental – “Moda é o que está na vitrine. Imagem é o que você passa para os outros, pela sua roupa, pela sua postura”. O livro que escreveu, Imagem Masculina, lançado em 2016 pela Editora Senac, carrega o título como manifesto. Esse não é um guia de tendências sazonais, é uma reflexão sobre como o homem se apresenta ao mundo e o que essa apresentação comunica. Sobre o livro, Taleb não cogita uma edição revista e ampliada, pelo menos não nos moldes do original. O que está desenhando agora é algo novo, com abordagem diferente, mais leve, mais contemporânea – “Não é um livro que vai complementar. É um livro que fala sobre imagem de um jeito diferente”. Os detalhes, por ora, ficam para o momento certo. Quando fala de postura, o conceito se expande para além do aspecto físico – entra em território que ele chama, sem hesitação, de educação. Como ele diz “Não adianta nada você colocar uma roupa muito chique e não dar bom dia pro porteiro”. A simplicidade da frase alimenta boa parte do trabalho de Taleb – a reconexão entre aparência externa e conduta interna.

O terceiro vértice do triângulo é o estilo. Não como um conjunto de regras a seguir, mas uma expressão de identidade que merece respeito, mesmo quando diverge dos padrões convencionais. Ele conta de um amigo que apareceu num evento com calça xadrez colorida e camisa listrada. Uma pessoa à mesa comentou, perplexa, que a combinação era diferente do usual. Taleb completou o raciocínio – “Esta é simplesmente uma questão pessoal de quem está julgando. Não podemos julgar as escolhas alheias”.

COERÊNCIA NO QUE USAR

O guarda-roupa de Alexandre Taleb, por sua vez, é seu cartão de visita. Oitenta por cento das peças são feitas sob medida em alfaiataria. “Quase não tenho roupa pronta. Até minhas calças”, conta. Quando vai para a academia, Taleb troca a alfaiataria por um short liso e uma polo – “Vou fazer esporte, não vou desfilar”. Em outras ocasiões mais informais, como uma ida à padaria ou um fim de semana casual, mantém a elegância como bússola, mas sem rigidez – “Eu sempre vou estar bem posto, mas não de forma excessiva para o ambiente”. A preferência não é esnobismo, é coerência com o que prega. O caimento, a proporção, a adequação ao corpo específico de cada pessoa: esses são os valores que ele defende na consultoria e que pratica na própria pele. Por outro lado, quando emitiu publicamente a opinião de que marca não é o que importa na roupa masculina, recebeu uma ligação de um nome importante do setor que discordou enfaticamente. Taleb manteve a posição.

Na prática da consultoria, o trabalho começa por entender quem é o cliente antes de abrir qualquer guarda-roupa. Há o estilo clássico, o criativo, o esportivo, e cada um tem sua lógica própria. “Um advogado com espírito criativo não precisa abandonar sua essência; precisa calibrá-la para o ambiente profissional. Um arquiteto com tênis coloridos é, frequentemente, uma extensão natural da profissão que escolheu. Geralmente a pessoa que é criativa vai para trabalhos criativos”, observa. “O estilo nasce com a pessoa”, completa. A trajetória de Taleb ganhou dimensão internacional de maneiras que ele não havia planejado. Um curso de consultoria dado em um castelo na França, organizado por um empresário que reuniu um grupo seleto para dez dias na Riviera. Uma palestra em Nova York para participantes de uma mentoria de negócios. Uma viagem ao lado de sua esposa a três cidades europeias a convite do governo da Espanha, para falar sobre a Suíça aos brasileiros. Um jantar com Hugh Jackman — embaixador de uma marca de luxo — que entrou no calendário quase como consequência natural de uma carreira que foi se expandindo sem que ele precisasse forçar os limites.

O universo do perfume entrou nessa equação com a mesma lógica de expansão orgânica. Taleb não é um perfumista, não decodifica pirâmides olfativas nem discorre sobre notas de base com a profundidade de um especialista de nicho, mas entende que o perfume é uma extensão da imagem, algo que permanece depois que a pessoa vai embora, que é sentido antes que os olhos a vejam. “O perfume acaba fazendo o diferencial. É algo que faz a pessoa ser lembrada”, coloca. Hoje, assessorias de imprensa de marcas de perfumaria o convidam regularmente para eventos internacionais, incluindo um recente encontro sobre perfumaria em Cannes.

Em um mundo saturado de referências visuais: Instagram, redes sociais, inteligência artificial gerando looks em segundos, influenciadores transformando tendências em commodities —, qual é o papel do consultor de imagem? Para Taleb, a resposta não mudou muito, mas a necessidade ficou mais urgente. “O homem, em particular, continua avesso a buscar informação por conta própria sobre aparência e estilo. Ele é um pouco mais preguiçoso. Acaba não indo muito atrás de informação, precisa de alguém para ajudar”, avalia. O volume de imagens disponíveis não necessariamente se traduz em mais clareza. Pode  gerar o efeito oposto – de paralisia diante de tantas possibilidades. Um olhar externo, experiente e honesto continua sendo, na visão de Taleb, insubstituível. “E o diferencial do bom consultor não é saber mais do que o cliente sobre moda, é saber enxergar o cliente melhor do que o cliente enxerga a si mesmo”, arremata.