
Com uma trajetória marcada por personagens intensas, sensíveis e profundamente humanas, Andreia Horta construiu ao longo de mais de duas décadas uma das carreiras mais consistentes da dramaturgia brasileira. Da estreia marcante na televisão em JK até interpretações memoráveis como Elis Regina e personagens que atravessam diferentes gerações e universos femininos, a atriz transformou autenticidade e entrega em marcas registradas de sua atuação.
Na reta final da sua personagem Zenilda em Três Graças, Andréia celebra uma personagem que ultrapassou a ficção ao provocar identificação imediata no público. Entre recomeços, liberdade emocional e descobertas pessoais, a personagem Zenilda revelou a força de mulheres que decidem reconstruir a própria história — tema que também dialoga com o atual momento da atriz, mais madura artisticamente e conectada ao prazer da cena, ao risco e à escuta.
Nesta entrevista exclusiva para a MENSCH, Andréia Horta fala sobre transformação, maternidade, processos criativos, os desafios enfrentados pelas mulheres na indústria do entretenimento e a potência do audiovisual brasileiro em um momento de reconhecimento internacional. Com sensibilidade e profundidade, ela reflete sobre a arte como experiência humana e revela o que ainda mantém acesa sua paixão pelo ofício: contar histórias que provoquem perguntas, emoção e verdade.


Reta final para Zenilda em Três Graças. O que ficou de positivo? Zenilda mostrou que nunca é tarde pra se reinventar. Ela começou a novela muito desconectada dela mesma, vivendo uma vida construída para agradar os outros, e foi encontrando a própria voz aos poucos. O mais bonito foi acompanhar a identificação do público com essa coragem de mudar. Recebi muitas mensagens de mulheres falando sobre recomeços, autoestima, independência… Isso me tocou profundamente. Tudo foi positivo nesse trabalho. A Zenilda foi a minha primeira personagem pós-maternidade, e fiquei muito feliz com o sucesso dela.
A personagem teve um arco dramático incrível deixando uma vida fútil e um relacionamento falido para uma descoberta profissional e amorosa que pode inspirar muita gente. O que mais te motivou nessa personagem e como ela te desafiou como atriz? O que mais me motivou foi saber que seria uma jornada de autoconhecimento e libertação. Foi muito espantoso e ao mesmo tempo gratificante ver mulheres de todas as idades e classes sociais se vendo refletidas na Zenilda e encorajadas por ela. Essa é a glória maior que uma personagem pode dar a uma atriz!
Você já interpretou personagens muito intensas ao longo da carreira. O que mais te atrai em papéis emocionalmente complexos, como Zenilda, por exemplo? Eu sempre me pergunto: o que a personagem vem dizer, o que ela representa, é um tema que me interessa levantar? Estou interessada nesse momento da minha vida em viver essa experiência? Porque um personagem é uma experiência.


Como você enxerga sua evolução artística, que começou na TV com um papel marcante na série JK, até os projetos mais recentes? Em JK eu tinha 21 anos e era meu primeiro trabalho na televisão. De lá pra cá são 21 anos atuando, aprendendo, estudando… meu ofício é um mar aberto. Eu sinto que fui ganhando mais liberdade ao longo do tempo. No começo, existe muita ansiedade de acertar, de corresponder. Hoje, continuo extremamente dedicada, mas mais conectada com a escuta, com o prazer da cena, com o risco também. Acho que amadureci entendendo que atuar não é mostrar respostas, e sim fazer perguntas.
Existe algum personagem que mudou sua forma de enxergar a vida ou impactou você de maneira mais profunda fora das telas? Quais as personagens inesquecíveis pra você? Cada personagem deixa um aprendizado! Elis me revirou do avesso – por estar muito viva na memória do povo eu tinha que entregar essa semelhança no resultado do trabalho, e não foi nada fácil. Ela ser uma artista com valores inegociáveis me ensinou muito! Dona Araci (a mãe de Chitãozinho e Xororó em “As Aventuras de José e Durval”) também foi uma personagem que mudou minha maneira de trabalhar. Estava em um momento de profunda transformação em minha vida e ela me conectou com minha ancestralidade, com uma força atávica que me deu um novo rumo. Aprendi muito nesse trabalho!


Em um mercado tão competitivo e em constante transformação, o que considera essencial para se manter criativamente relevante? Não me perder de mim. Praticar o silêncio sempre que possível e refletir com critério sobre o que está dado. E a curiosidade. Tento me manter aberta, observando o mundo, estudando, vendo filmes, teatro, ouvindo pessoas diferentes de mim. E também acho importante não perder a conexão com aquilo que é verdadeiro pra mim. A relevância vem muito da autenticidade.
Você costuma mergulhar profundamente na preparação de seus personagens. Como funciona esse processo de construção emocional e psicológica? Vou me aproximando devagar e com respeito de uma personagem. Vou escutando, entendendo se em algum lugar aquilo encosta em mim e começamos a dançar porque nunca é só a personagem e nunca só a atriz que estão ali, somos sempre nós duas pensando o mundo e inventando um jeito de existir.
O audiovisual brasileiro vive um momento de reconhecimento internacional. Como você observa essa nova fase da dramaturgia e do cinema nacional? Sempre que nosso cinema, nossas séries e nossa visão de mundo são olhadas com admiração, penso que esse é o certo porque somos um país complexo, com questões profundas e muitas maravilhas nascem daí. Mas só é possível que vejam nossa arte lá fora se houver políticas públicas aqui dentro incentivando nossa produção, respeitando nossa indústria e esse resultado é fruto disso.



Você já interpretou personagens reais, de época, mocinhas, revolucionárias… Há algum gênero ou tipo de personagem que você ainda sonha em interpretar e que o público talvez não espere de você? A mais difícil de todas: comédia. Adoro quando um personagem desafia completamente a imagem que as pessoas têm de você.
Como você equilibra a exposição pública com a necessidade de preservar sua vida pessoal e sua individualidade? Gosto de andar na rua, fazer mercado, estar entre as pessoas, observar, escutar e para possibilitar isso, sempre me mantive mais ausente de lugares que podem me expor demais. Não sinto a necessidade de estar no centro das atenções quando estou sem personagem. Meu lugar favorito é a cena.
Ao longo da carreira, quais foram os maiores desafios enfrentados como mulher dentro da indústria do entretenimento? O assédio moral, a inveja, o desrespeito, a misoginia, a impunidade…são inúmeras as forças que enfrentamos e infelizmente isso não acontece só na indústria do entretenimento. Por isso mesmo essa luta dos direitos das mulheres é de todas nós.
Depois de tantos trabalhos marcantes, o que ainda move a Andréia Horta artisticamente hoje? Falar de nossa humanidade é assunto sem fim! Minha alma está acesa com o fogo da vida! Agora voltarei ao teatro, casa primeira.


Fotos Catarina Ribeiro
Styling Samantha Szczerb
Beleza Marcela Vieira
Assistente de beleza Ju Scot
Agradecimentos Bianca Gibbon, Nayane, Scala


