
Poucos nomes no futebol carregam um peso tão simbólico quanto o de Zico (@zico). Ídolo eterno, dono de uma genialidade rara e protagonista de uma das eras mais marcantes da Seleção Brasileira marcantes da Seleção Brasileira de Futebol, o “Galinho de Quintino” transcende o campo para se tornar referência global de talento, disciplina e paixão pelo jogo. Agora, sua trajetória ganha novos contornos com o documentário Zico, o Samurai de Quintino, que mergulha não apenas nos gols, títulos e momentos históricos, mas também na filosofia e na mentalidade de um atleta que fez da técnica uma arte e da dedicação um estilo de vida. Mais do que revisitar a carreira de um dos maiores camisas 10 da história, o filme revela as camadas humanas por trás do ídolo — suas escolhas, desafios e a força silenciosa que o transformou em lenda. Em entrevista exclusiva para a MENSCH, Zico fala de memórias, bastidores e de como foi participar desse documentário. Que além dos depoimentos, a produção reforça aquilo que o tempo só fez consolidar: o legado de Zico não se mede apenas em números, mas na profunda influência que exerceu — e ainda exerce — sobre gerações de jogadores e apaixonados pelo futebol.
O documentário “Zico, o Samurai de Quintino” revisita momentos marcantes da sua carreira. Como foi para você reviver essas memórias através desse projeto? Foi gratificante porque eu não vi algumas imagens ali há muitos anos. A gente acaba esquecendo de digitalizar, de colocar no sistemas atuais… Você acaba esquecendo dessas imagens. Algumas ali eu lembro muito bem, por exemplo, a minha memória da lua de mel lá no morro, com aquela neve porque – é uma coisa rara então a gente nunca esquece. Aquelas imagens do Japão, por exemplo, do Júnior [filho] gravando na casa antiga misturada com a casa nova foi muito bacana de ver, e bate uma saudade imensa. Aquele foi o início da minha chegada lá, então ainda tinha muita coisa para fazer. Mas foi um resgate fantástico, parabéns à direção, ao André, João, Gabriel, aqueles esse cara que trabalhavam bastante e fizeram uma limpa lá em casa [risos]. Eu consegui oferecer para eles um arquivo bacana, não só de vídeos mas também de fotos.

O filme traz imagens raras e bastidores inéditos. Houve algum registro que te emocionou ou surpreendeu ao rever depois de tantos anos? Aquele das crianças em casa, eu dando um puxão de orelha no Tiago [risos]. Mas o Júnior narrando é fantástico. E a Sandra passando a manteiga no pão… aquilo é descontração total. Nossa vida sempre foi assim, bem tranquila. Do futebol, tem um gol que veio de uma história muito engraçada lá do Japão. A imagem é meio de longe e eu fiz um gol de falta no jogo contra o Tokyo Verdy (na época, Yomiuri Verdy). O Pepe, que foi grande jogador daquele Esquadrão dos Santos – jogava com o Pelé e tudo mais –, estava lá nessa época, sendo técnico do Yomiuri Verdy. Ele é muito amigo do meu filho e acabou ficando meu amigo também, então a gente se falava muito. O técnico do time que eu ia jogar contra ligou para o Pepe e falou: “A gente vai jogar contra o Sumitomo, o time do Zico, e comigo ninguém vai fazer gol de falta, não. Se eu tiver que botar um na garupa do outro, eu vou botar.”
Chegou o dia do jogo: gol meu de falta [risos], aquele gol que está no filme. Esse treinador não ligou para o Pepe de novo, e aí o Pepe decidiu ligar para ele de noite, perguntando como foi o jogo. Eles conversaram sobre o jogo, e o treinador falou que perderam de 1 a 0. Quando o Pepe perguntou quem fez o gol, o treinador falou: “Pô, Pepe, o Zico fez o gol… de falta” [risos]. A gente riu muito conversando. Quando eu vejo aquele gol, eu lembro dessa história.

Sua decisão de jogar no Japão foi, na época, vista como ousada. Hoje, olhando para trás, como você avalia o impacto dessa escolha na sua carreira e no futebol japonês? Foi a melhor decisão que eu tomei na vida, porque eu pude dar uma nova vida para a minha família, algo que eu recebi em troca, e recebo até hoje. Foi bom eu não ter escutado ninguém, ouvi o coração e fui. A Sandra aceitou bem, meus filhos puderam aprender bem o inglês que eles usam até hoje. Nós fomos recebidos de uma forma maravilhosa. A coisa fluiu bem, em relação ao no time e ao clube, mas também na seleção e no futebol em si. Os japoneses são muito agradecidos por isso.
O apelido “Samurai de Quintino” carrega uma simbologia forte. O que essa conexão com o Japão representa para você pessoal e profissionalmente? Às vezes eu fico pensando se com certas coisas eu devo consultar alguém… mas com essa aí eu não consultei ninguém, tomei a decisão sozinho, fui enfrentar lá com a cara e coragem e talvez por isso, essa seja uma das razões do título né do Samurai. Porque o Samurai é um cara de muita coragem, um guerreiro que vai à luta. Lógico que eu já tinha conhecimento do lugar, já tinha visitado três vezes, conhecia a cultura Japonesa. Mas, claro, eu pesquisei um pouco, naquelas enciclopédias, sobre a história do Japão, e tudo isso me deu uma confiança de que o povo me apoiaria em relação ao projeto da transformação do futebol amador no profissional.

O documentário reúne depoimentos de grandes nomes como Júnior, Carpegiani, Carlos Alberto Parreira e Ronaldo. O que significa para você ouvir essas gerações falando sobre seu legado? Você sabe a primeira vez que o Carpegiani fala daquela situação do Celmo? Sempre ficou meio no mar aí [risos]. E lógico, o Júnior a gente tem uma convivência maior, desde 13, 14 anos. O Ronaldo, a gente se vê pouco, mas é um cara que eu conheço bem a minha história, eu conheço a história dele. E o Ronaldo, tem uma história comigo de que ele ficou esperando eu sair para pedir um autógrafo e passava os jogadores e ele pedia autógrafo e todo mundo passava batido e eu fui o único que parei para ele para dar o autógrafo. Então, assim, as pessoas não nunca mais esquecem isso, né?
E o Ronaldo teve uma situação parecida com a minha, teve aquele acontecimento de 98, que inclusive eu estava presente. A gente ouviu que ele sofreu naquilo, né? As pessoas até questionaram o problema dele. E aí veio 2002, ele treinou escondido, com um preparador físico francês, se não me engano, lá no meu CT e ninguém sabia que ele estava treinando lá, ele treinou aquela recuperação do joelho. Quando acabou a Copa do Mundo, que ele foi campeão, eu liguei para ele falando: “Cara, você tem que agradecer a Deus por ter te dado uma oportunidade de você se recuperar de um fato que foi ruim para você na Copa anterior. Agradeça a Deus toda vez que você puder”. Então, quer dizer, eles não podiam ficar de fora desse documentário.
Ao longo da sua trajetória, você viveu momentos de glória e também desafios. Qual foi o episódio mais difícil da sua carreira que o público talvez não conheça tão bem? Acho que os momentos de glória eles já devem, porque foi tudo muito noticiado, né? E a cronologia do filme tá muito bem contada nesse ponto. É lógico que o mais marcante para mim foi a conquista de 1982, porque a gente vinha de grandes conquistas e você se torna a bola da vez, então você tem que ser maior ainda do que você foi para poder superar os adversários. Mas, o mais complicado foi o de 1983, porque eu joguei aquela final já vendido para o Udinese e aí não foi mole. Eu tinha que fazer de tudo para ganhar, porque eu queria sair com mais um título e isso aconteceu. É complicado, porque você vê a torcida toda gritando teu nome e sabe que no dia seguinte você não vai estar mais ali.

O filme também mostra sua relação com a família, incluindo sua esposa Sandra e seus filhos. Como esse apoio foi fundamental nos momentos decisivos da sua vida? Tem um momento com a Sandra que eu jamais vou esquecer e eu sou muito grato a ela. Quando eu fui operar lá nos Estados Unidos, eles não tinham o costume de ficar em quarto e ter cama, então não tinha cama para ela dormir e ela ficava no sofá, mas ficou todos os dias do meu lado. Então, cara, uma parceira como essa a gente nunca esquece, né? Era uma situação muito complicada, de incerteza, de insegurança, se eu ia conseguir voltar a jogar futebol ou não. Ela podia muito bem ir para um hotel, mas ela fez questão, ela ficou o tempo todo comigo.
Muitos fãs que participaram do documentário cresceram te admirando e hoje também são referências no esporte. Como você enxerga essa ponte entre gerações que sua carreira construiu? A forma como eu sempre respeitei os adversários, as entidades adversárias, os regulamentos. Pelo número de partidas que eu joguei em toda a minha carreira, eu acho que as besteiras foram muito pequenas. É um 0,005 assim, mas foram muito poucas. Então a questão do comportamento, do meu modo de ser como profissional, como um cara que lida bem com todas as situações… eu acho que é em função disso que as gerações que vieram depois, uma grande maioria, sempre fala de mim, como foi o caso da fala do Ronaldo. Então é um legado bonito que eu consegui deixar e que com certeza ajudou mais do que prejudicou. Eu acho que eu sempre respeitei minha classe [do futebol], sempre lutei muito pela minha classe, sempre fiz o que estava ao meu alcance. As gerações entendem bem isso.

Ao assistir ao documentário, qual mensagem você espera que as novas gerações levem da sua história dentro e fora dos gramados? Eu espero que elas entendam que ali não é só o jogador de futebol, ali é um ser humano como elas, que vive momentos de felicidade, momentos de tristeza, momentos de certeza, momentos de incerteza, de segurança, de dificuldade. O filme fala da questão da ausência dentro de casa, por causa do trabalho. Mas também vai trazer o calor humano, a dificuldade que é construir uma família e conseguir chegar na idade que eu consegui. Então isso aí é é para todos os dias joelhar, agradecer a Deus pelo dom que me foi dado. Eu quero que eles entendam que nada cai do céu. Hoje tem uma coisa muito mais importante que não tinha na nossa época, que é você ter conhecimento total daquilo que você quer fazer. Você tem tudo ali a teu alcance para você pesquisar, traçar seu caminho, em qualquer atividade. Eu tive isso na minha época porque eu tive referências dentro da minha própria casa e isso me ajudou muito.
Agora, o legado que eu quero deixar é que você não abandone os seus sonhos e os seus desejos. Lute para conquistar isso. Mas, se não for possível, existem outras situações que podem vir a ser melhor do que aquilo que você sonhava. Se você pensa: “Ah, eu quero ser jogador de futebol”, mas não deu para ser jogador de futebol, de repente, você sendo um cara que estuda na área tecnologia, você acaba sendo muito mais feliz. Por isso que meu pai sempre falava que o estudo, o anel de tesouro e o diploma, ninguém te tira.
Depois de tantas conquistas e de um legado consolidado, o que ainda motiva o Zico hoje, dentro e fora do futebol? Primeiro que eu gosto de futebol e gosto de ver futebol, não importa se é jogo de série B, série C, eu gosto de ver futebol. Se é masculino, se é feminino. Tem jogo bom, eu tô vendo. Ainda mais por ser uma pessoa muito solicitada, tenho que estar atento com o que está acontecendo tanto no Flamengo como no Catimba, porque no Caxias eu sou conselheiro e no Flamengo eu sou embaixador. E também a questão é de poder estar com a saúde em dia para comparecer em palestras e atender os compromissos que eu consegui, que são os contratos comerciais. Então eu quero continuar a ter uma boa alimentação, dormindo bem para poder aguentar essa rotina que é pesada, mas te deixa sempre com os teus pensamentos e sua cabeça funcionando. Eu sempre digo coisa parada para enferrujar. Ficar em casa de pernas para o ar não é comigo não.

Fotos Catarina Ribeiro @catarinaribeir.o
Assistência Guilhermes Ferraz e Daniel Mastalir
Assessoria @primeiroplanocom
Assista o trailer de “Zico, o samurai de Quintino”:


