No meio de um ambiente altamente masculino, eis que surge um DJ que mostrou que o clube do Bolinha não domina as pick-ups mais não. Barbara Labres é fera quando se fala em música eletrônica e grandes festas. De quebra, é uma baita gata! Ok, sabemos que ela não quer ser reconhecida ou ter seu espaço por conta da sua beleza, mas não resistimos. Bárbara é daquelas mulheres que deixam qualquer um tremendo na base não só pela beleza, o seu som, mas também sua personalidade altamente bem definida e segura. Num mundo plural mas ao mesmo tempo cheio de preconceitos e críticas em relação a gênero, número e grau, Bárbara vem para botar moral doa a quem doer. Se o termo do momento é “empoderada”, essa gaúcha de 25 tem o poder nas mãos.

Bárbara, como é ser uma das poucas mulheres DJ nesse mercado majoritariamente masculino? O que fez a diferença para você conquistar seu espaço? Eu entrei pra música aos 17 anos, mas desde os 9, quando comecei a jogar futebol com o sonho de ser jogadora, fui me acostumando a estar num meio que era considerado “masculino”, um meio onde eu quase não tinha companheiras mulheres. Acho que por isso, ter uma profissão onde a maioria dos meus colegas são homens, não me assusta. Acredito que o que fez a diferença pra eu conquistar o meu espaço na música, foi eu não me diferenciar deles e saber que é isso que me move, isso que eu sei fazer e amo fazer. Independente do sexo, o importante é fazermos o que amamos.

Dá para entender a razão de ser um mercado onde os homens dominam? Não dá pra entender bem porque os homens dominam, mas entendo que essa é uma profissão “nova”, para homens e para mulheres. A profissão está crescendo muito, mas quando eu comecei, há 9 anos atrás, ainda era pouco valorizada. Por isso acho que consegui me destacar, porque coloquei muita fé no caminho que eu estava trilhando, acreditei que poderia viver do meu trabalho. E acho que as mulheres se sentem um pouco inseguras de acreditar que essa, hoje, é realmente uma profissão. Recebo muitas mensagens de pessoas que não sabem como começar a ser DJ, é um mercado que ainda não entendem muito bem.

E como a música entrou na sua vida? Como tudo isso começou? Como disse antes, eu amava jogar futebol. Meu pai sempre gostou muito de música e, desde que eu era pequena, me dava CDs de presente e ligava para as rádios pedindo que tocassem músicas que eu gostava. Eu nunca pensei que a música seria algo tão intenso pra mim, nunca me imaginei trabalhando com isso. Eu não gostava de ir pra balada, sempre gostei mesmo do futebol e preferia estar em casa com minha família. Um dia, numa festa com amigos, rolou um sorteio de curso pra DJ e eu ganhei. Na época eu era muito tímida, nem quis subir no palco pra pegar o prêmio e nem pensei em frequentar o curso. Até que o professor me ligou e pediu para eu ir conhecer, falou que eu tinha jeito. Só fui mesmo nas duas últimas aulas, mas gostei e na mesma época aluguei os CDJs e comecei a treinar em casa, com a ajuda de amigos, vendo vídeos no YouTube, e comecei a gostar muito mesmo. No dia da formatura do curso, preparei meu set e fui a única que tocou funk, que pediu microfone para falar com a galera, que abaixou o som pra todo mundo cantar. Esse foi o diferencial. Começaram a me elogiar e chamar para tocar nas festas. Na época, eu trabalhava numa academia e pagava a minha faculdade. Comecei a tocar nas festas, juntar mais dinheiro, e um dia percebi que começou a dar certo, decidi me arriscar, deixar o plano de profissão que eu tinha e viver disso.

Por ser uma mulher bonita num ambiente de festas e bebida, já sofreu algum tipo de assédio ou preconceito? Se sim, como encarou isso? Já passei por situações chatas como escutar piadas ou estar tocando e alguém invadir o meu espaço, tocar em mim achando que tem esse direito. Já passei por isso com homens e com mulheres. E o preconceito rola sim. Muitas vezes acham que beleza e talento não podem estar juntos, ou não acreditam que o meu trabalho pode custar o mesmo que custa o trabalho de um DJ homem.

Quando quer ouvir algo que DJ(s) faz(em) seu estilo e serve de inspiração? Sempre me fazem essa pergunta, se eu tenho alguma inspiração. Mas eu não ouço muito outros DJs. Eu gosto de ouvir música num todo, vários estilos diferentes, não tem nada em específico que eu gosto de ouvir. Eu procuro saber mais o que as pessoas estão ouvindo e usar isso de inspiração pra fazer o meu som.

Recentemente você declarou que não queria ser julgada por uma imagem bonita e sim pelo seu trabalho. Até que ponto isso chega a incomodar? Eu odeio quando vão me divulgar em flyer de festa e colocam “A DJ mais gata”, porque se eu estou lá é por causa do meu trabalho e não da minha aparência. Eu aprendi a lidar com isso com o tempo porque é inevitável, levo como elogio e fico feliz com isso. Mas eu quero que as pessoas me reconheçam e me valorizem pelo meu trabalho.

Já teve que batalhar seu espaço (seja no trabalho ou vida pessoal) para combater machismo? Com certeza, principalmente nessa parte de me valorizar, de valorizar o meu cachê, de mostrar que isso é um trabalho como outro qualquer e não é só homem que pode viver dessa profissão. Quando fui morar no Rio de Janeiro, por exemplo, fui porque eu estava tocando em uma festa em Porto Alegre e um empresário me chamou, foi incrível, falou com a minha mãe, me prometeu várias coisas, e quando eu cheguei no Rio ele começou a dar em cima de mim! Ele o irmão dele tinham um escritório e eles não faziam isso só comigo. Mas eu nunca fui deslumbrada, sempre procurei analisar bem a situação a minha volta, pra ver onde eu estava me metendo. Até que um dia esse empresário me colocou contra a parede e tentou me agarrar. Na hora eu empurrei ele, falei que não, que estava ali pra trabalhar e logo depois a gente tinha uma reunião que era para assinar um contrato com a empresa deles. Foi quando rompi todo o trabalho com eles e falei que não ia assinar nada, porque não concordava com a forma que eles trabalhavam. Lembro que ele me disse que se eu não trabalhasse com eles eu não ia trabalhar com mais ninguém, me ameaçaram, me largaram no Rio de Janeiro sem nada. Essa foi minha maior luta pra conquistar o meu espaço. Tanto na minha vida pessoal, porque não tinha onde morar, o que comer, onde viver e na vida profissional pra mostrar que eu ia trabalhar sim sem eles e conquistar o meu espaço.

Em 2018 você foi a DJ oficial do programa ‘Central da Copa’, da TV Globo, apresentado pelo jornalista Tiago Leifert. Como foi a experiência? O “Central da Copa” foi uma experiência incrível, eu aprendi muito com o Tiago. Todos os dias ele conversava muito comigo, porque eu estava começando a ficar mais conhecida naquela época, e tinha muita coisa que me assustava ainda, que eu não sabia lidar. Ele me apoiava, me dava muita dicas, conselhos. Foi uma experiência maravilhosa! Trabalhei com pessoas que admiro muito, eu era a mais novinha ali e estava ao lado de gente muito experiente. Tentei tirar o máximo de conhecimento que eu podia. Além disso, estar mais de 30 dias ao vivo na televisão, me deu muita visibilidade, muita gente que não me conhecia passou a me conhecer.

A sensualidade e a ousadia estão no seu “DNA” como DJ. Diria que essas características são naturais da sua essência? E que viram boas sedução para o público e seguidores? As pessoas falam isso né, que eu sou sensual e ousada. Mas não foco nem um pouco nisso, tento sempre ser eu mesma, o máximo possível. Nunca tento forçar algo ou fazer algo que eu não sou para ter mais visibilidade ou conquistar o público. Acho que a forma mais fácil de você fazer sucesso é vendendo a sua verdade, é isso que dá certo! Então tudo que eu faço é porque realmente está na minha essência, em quem eu sou verdadeiramente.

Ter se declarado bissexual em algum momento gerou algum tipo de incômodo? Ou só fez deixar sua vida, digamos, mais objetiva? O que isso representou para você? Desde muito nova eu comecei a me descobrir como mulher e ver que eu gostava de pessoas. Nunca senti essa necessidade de me assumir, dizer que sou bissexual, homossexual. Eu gosto de pessoas. A partir do momento que eu me aceitei do jeito que eu sou, e principalmente os meus pais me aceitaram do jeito que eu sou, eu me tornei uma pessoa muito mais feliz. Lá no início, quando eu era muito nova, não sabia lidar muito bem com a minha sexualidade e essas questões. Vivi muito preconceito das pessoas tentando me diminuir, me fazendo acreditar que ninguém ia gostar de mim, que eu não era normal, tinha medo dos meus pais não me aceitarem. Mas logo que tive maturidade pra entender o que estava acontecendo, que nada disso muda o meu caráter, não muda a minha essência, não muda quem eu sou, tudo mudou. Eu não deixo de ser a mulher que eu sou por gostar de homem ou de mulher. Entender isso deixou a minha vida muito mais objetiva e leve, nada do que as pessoas falam hoje me abala.

Pelo que você já declarou, assumir a bissexualidade atraiu mais homens e mulheres. Por que os homens ficam mais intimidados? Acham que você ficou mais “exigente” por não ter certas barreiras? Eu sinto que desde sempre as mulheres demonstram que sentem mais atração por mim do que os homens. Hoje em dia que eu sou muito bem resolvida, não escondo que eu gosto de pessoas, os homens se sentem mais intimidados ou inseguros, não sei. Acho que os homens não estão acostumados com mulheres bem resolvidas, talvez isso deixe eles mais intimidados. Mas eu até fico feliz porque eu não gosto muito dessa parada de ficarem chegando em mim, então tem esse lado bom.

Você parece ser séria e reservada. Concorda? Junte a isso muita personalidade e segurança. Isso faz certos homens ficarem inseguros? Como eu acabei de comentar, ter uma personalidade mais forte, ser uma mulher de mais atitude, faz com que as pessoas fiquem mais inseguras de chegar, mas pelo menos comigo, isso acontece bem mais por parte dos homens mesmo.

Como se definiria como mulher? Eu me defino como uma mulher batalhadora, muito família, que corre muito atrás dos sonhos, e que é independente demais. Desde muito nova eu tive que aprender a me sustentar, a ir atrás dos meus objetivos sozinha.

O que te deixa insegura e o que te dá autoconfiança? O que me deixa insegura é estar longe da minha família, porque eles me trazem muita segurança. O que me dá mais autoconfiança é saber quem eu sou, de onde eu vim e que eu sempre escolhi o caminho certo das coisas, e isso me dá muita confiança.

Você se dá bem com o espelho? Como se cuida e o que mudaria (ou não)? Eu sempre tento me cuidar por questão de saúde e de estética também, o principal é que a gente se sinta bem com a gente mesmo. Mas não sou louca e neurótica com nada. Só gosto de estar bem, sempre com muito equilíbrio. Não me privo de comer o que tenho vontade, gosto muito de jogar futebol, faço academia desde que tenho 13 anos de idade, estou acostumada a rotina de exercícios. Mas tudo sem exageros.

O que alguém precisa ter/ser para chamar sua atenção? Pra chamar a minha atenção a pessoa tem que ser simples, tratar todo mundo bem, eu me apego muito nisso. Gosto de pessoas honestas, trabalhadoras, engraçadas e também sou muito de energia. Às vezes a minha energia bate de um jeito inexplicável. E às vezes também não bate. Gosto de pessoas que falam olhando no olho, que são família e mostram verdade.

Qual seu pecado favorito e por que? Acho que dos pecados o meu favorito é a preguiça, não que eu seja uma pessoa preguiçosa, porque eu trabalho demais. Mas sempre que dá pra eu ficar dormindo um pouquinho mais, já que não tenho muito tempo para dormir, de ficar de preguicinha em casa. Sem fazer nada, é muito bom. Esse é o pecado que mais faz parte da minha vida!

Um final de semana perfeito precisa ter… Com show! O que eu mais gosto de fazer é estar no palco fazendo show. Mas quando não tem show, um final de semana perfeito precisa ter minha família, as pessoas que eu gosto ou estar na minha casa.

Qual o hit do próximo verão? Agora eu vou focar muito no funk, no funk rave. Estou com um lançamento agendado com o Don Juan, também tenho algumas coisas engatilhadas, mas tem muita coisa boa vindo por aí e estou bem empolgada. Tenho bastante música pra soltar, inclusive tenho até que me segurar porque dá vontade de soltar todas de uma vez. Mas acredito que cada uma vai ser lançada no tempo certo e também estou tendo um feeling cada vez maior do que o meu público quer ouvir. Acredito que cada vez eu vou conseguir entregar músicas que explodam e cresçam muito mais, e consequentemente me façam crescer também. Então podem esperar muitos hits aí, de deus quiser.