Desde sua estreia na TV em “Os Imigrantes”, 1981, até hoje já se vão 40 anos de carreira para Marcella Muniz. O tempo passou e Marcela continua com esse jeito de menina de quando surgiu na TV pela primeira vez. Mãe de 3 filhos, dentre eles a linda Thaís Muller que foi nossa capa ano passado, fruto do casamento com o ator Anderson Muller, e mais ativa do que nunca. Filhos criados, carreira consolidada, Marcela segue desbravando novos mercados, como o de alimentação saudável, com sua empresa de comfort food delivery, e se preparando para retomar as gravações da novela “Amor Sem Igual”, na Record, após uma pausa por conta da pandemia. Se a receita de estar plena aos 53 anos é a alimentação saudável não sabemos, mas Marcela ousou nesse ensaio e mostrou que você pode passar pelos anos amiga do tempo. Que venha muito mais pela frente!

Da sua estreia na TV até hoje já se vão 40 anos. Que análise faz da sua trajetória? Acho que fiz bons trabalhos, aproveitei bem o que me deram de oportunidade. Fiz 22 novelas, mas pouco cinema e pouco teatro. Quero fazer mais. Foram 40 anos de carreira cuidando de 3 filhos, então, não dava para abraçar duas funções. Mas, agora, estou mais livre para o meu oficio, já que meus filhos cresceram, estão seguindo suas vidas. Minha vida inteira tive que me dividir entre trabalho e filhos e sempre fiz questão de priorizá-los. Mas não me arrependo em momento algum.

Você é muito crítica com você mesma? Costuma se assistir? Sou muito crítica sim, muito exigente comigo. Tento assistir as novelas que faço para ter noção de um todo do trabalho que estou participando. E muitas vezes fico achando que poderia ter feito minhas cenas de outra forma. Mas faz parte (risos).

Em “Amor Sem Igual” você dá vida a Sônia, uma secretária que é amante. Como tem sido dar vida a esse personagem? Sonia é um personagem diferente de tudo que já fiz no que se trata de estrutura, densidade…Resolvi fazê-la uma mulher leve, mãezona, animada, com um lado cômico, mas ingênua quando se trata da situação de amante que ela vive. Acho que é um contraponto bacana da personagem e o público tem gostado.

O que tem aprendido com ela? Costumo aprendeu muito om meus personagens de forma geral. A gente se envolve, se compromete, vive situações que jamais passaria na nossa vida…. No caso da Sônia, tenho aprendido a feminilidade, a independência, a segurança de uma mulher sem filhos, sem família e que vive para o trabalho. Bem diferente de mim.

O que podemos esperar de Sônia na reta final da novela? Não tenho a menor ideia do que será seu desfecho. Novela é sempre uma caixinha de surpresas, o que torna tudo mais desafiador e interessante.

Como tem sido esse período de quarentena com as gravações interrompidas? Uma loucura! Sinto saudades de gravar, da minha rotina, dos meus colegas de cena …Mas sigo em casa tentando ter uma rotina. E isso tudo tem me feito refletir sobre ser menos exigente comigo mesma, ser menos agitada, menos ansiosa. Estou num processo de aprendizado árduo. E aproveitar esse tempo pra gente se reavaliar é maravilhoso. A quarentena também me fez retomar os trabalhos com a C´est Potage, minha empresa de comfort food delivery que estava praticamente parada por conta do meu tempo dedicado às gravações da novela. Amo cozinhar e isso tem me ajudado também a me sentir produtiva.

Você agora pode ser vista na reprise de “Jesus”. O que pode falar desse trabalho? Tenho a maior carinho por essa novela!! Foi onde dei vida à minha primeira vilã, a Judite, o que me instigou muito como atriz. Também foi meu primeiro trabalho numa novela bíblica. Toda essa novidade me fez crescer como pessoa, como profissional porque precisei buscar novas referências. Também pude ali contracenar com grandes atores, como Eucir de Souza e Barbara Borges.

“Amor Sem Igual” é uma novela contemporânea, ao contrário da novela “Jesus”. Como é pra você se preparar para trabalhos tão diferentes? Sim, são trabalhos totalmente diferentes, desde da fala, aos gestos, ao comportamento, a colocação do texto, o olhar…E isso é o que instiga qualquer ator. Me sinto privilegiada poder trabalhar com essas diferentes possibilidades com mais de 40 anos de carreira. Poder transitar entre diferentes tempos e personalidades exige mais dedicação, mais estudo, mas também dá mais prazer porque, infelizmente, muitas vezes, os atores ficam “presos” aos mesmos tipos de personagens.

Você é formada em gastronomia e tem uma empresa de confort food. Como surgiu o interesse pela área? E como concilia as duas carreiras de atriz e de chef? O interesse por cozinhar surgiu quando tive mus filhos. Preocupada em alimentá-los de forma saudável, aprendi a fazer novas receitas e, com o tempo, fui me apaixonando (e me descobrindo) cada vez mais com as panelas. Então, há alguns anos resolvi fazer faculdade de gastronomia. Conciliar a vide de atriz com a de chef é uma maratona! Se eu fosse mais nova e tivesse descoberto essa paixão pelas panelas mais cedo com certeza teria saído por esse mundão, de mochila, fazendo estágios e mais estágios em restaurantes. Aliás, talvez essa seja uma pequena frustração minha (risos). Não quero ter um restaurante nem um Buffet… A C´est Potage é uma empresa que é quase a extensão da minha cozinha. Faço sopas, granolas.

Você é envolvida em alguma causa social? Acha que artistas têm o dever de usar sua imagem com essas causas? Sou protetora de animais! Tenho um grupo chamado “S.O.S. Pets” de pessoas apaixonadas por pets como eu que tira os bichinhos de qualquer situação de perigo. Não acho que artistas tenham o dever de usar sua imagem para nada. Acho que todo ser humano, independente da profissão e que tem alguma condição, deveria sim abraçar algo. Essas atitudes fazem bem para a alma. E se cada um ajudasse um pouco, tudo seria tão diferente no mundo.

Como é se manter numa carreira por 40 anos? Já pensou em desistir em algum momento? Desistir? Não! Parei apenas para ter meus filhos e cuidar deles pequenos. Por um momento, eles foram minha prioridade. Mas foi uma escolha muito feliz. Hoje, todos estão crescidos, seguindo suas vidas e carreiras. E essa é a melhor resposta que posso ter da vida.

Aliás, como analisa o mercado artístico, em que a cada dia tem mais rostos novos sendo lançados? Essa renovação faz parte de todo tipo de mercado de trabalho. Temos que nos acostumar com isso e procurar, independentemente do tempo de carreira que se tem, estar sempre nos aperfeiçoando, nos reinventando. A vida de ator não é uma vida de glamour como muitos pensam, mas de muito estudo e dedicação. E as trocas entre as gerações nos enriquece muito.

Tem alguma dica para quem quer seguir a carreira de ator? Estude, leia, faça teatro, busque sempre se aperfeiçoar.

Você é mãe de três, sendo um deles a atriz Thais Muller. Temeu algum momento quando ela resolveu seguir a carreira? Vocês trocam ideias? Pensam em trabalhar juntas? A carreia artística é muito instável e, num primeiro momento, a gente não deseja que nossos filhos passem pelas mesmas dificuldades que passamos. Mas eles fazem suas escolhas. E, no caso da Thais, ela não tinha a menor possibilidade de não ser atriz. Ela já nasceu atriz! Ela estuda muito, está sempre envolvida numa produção, sempre se reinventando. Já trabalhamos juntas numa peça e no próximo ano poderemos ser vistas num filme, onde não contracenamos mas estamos juntas nessa produção onde ela também faz o figurino. Thais é dana e eu tenho o maior orgulho da profissional que ela é!

E como é chegar aos 53 anos? Estou adorando! Não fico pensando na idade, no número, no “peso” que ela pode representar… Aproveitei muito minha vida. Acho que agora tenho uma vida mais calma, com mais sabedoria, já não perco tempo com quem não me diz nada…(risos) Com meus filhos criados estou podendo olhar mais pra mim, estou cheia de planos, quero estudar, montar projetos, viajar…E sigo cheia de disposição para cuidar do meu neto Gael.

Existe um segredo para se envelhecer bem? Aliás, tem medo de envelhecer? Segredo?! Cuide da cabeça, sorria sempre, namore muito, tome um bom vinho e faça exercícios para não enferrujar (risos). Não tenho medo de envelhecer. Tenho medo de não ter saúde.

Acha que existe uma cobrança para a mulher se manter bonita? Até existe, mas confesso que não presto atenção nisso! Acho que todo mundo tem que se cuidar, ficar de bem consigo mesmo, se sentir bem…

Você é vaidosa? Sou, mas não ao extremo. Gosto de me cuidar porque isso faz parte de se gostar, de se curtir.

Como faz para se cuidar? Minha maior preocupação é (e sempre foi) com a saúde mental. Ainda mais agora em tempos caóticos…A gente precisa estar sempre trabalhando a mente, se interiorizando, buscando a nossa essência, a nossa paz para dar conta do mundo externo com mais sabedoria e tranquilidade. Também faço ginástica porque me faz bem, me dá disposição pra maratona diária que vivo…Mas pele e cabelo, confesso, não tenho uma dedicação diferenciada. (risos). Também acho que estou me cuidando quando namoro meu marido quando tomo um vinho pra relaxar…pequenos prazeres são sim o que fazem a nossa pele brilhar.

Qual o segredo para uma relação durar? Estou casada há 4 anos e acho que o importante é você querer de fato estar com aquela pessoa, se sentir bem, querer renovar as emoções. A parceria, o humor, as risadas e a admiração têm que ser diárias.

O que te conquista? O bom humor.

Como é a Marcella mãe? Sou mãe leoa! Sou totalmente apaixonada pelas minhas crias, seu muito presente na vida deles. E ser mãe é, sem dúvida, meu melhor personagem na vida!

Como é a Marcella avó? Ai meu mundo pára! (risos). Sou igual criança quando estou com Gael (de 3 anos). Sou apaixonada por ele, o busco na escola, faço suas vontades. Ele é minha alegria. E tenho a sorte de ele morar perto de mim.

Você volta a gravar dia 10 de agosto. Como foi ficar esse tempo fora do set? Sim voltaremos agora dia 10, mas já começaram as reuniões online. Ficar sem gravar, foi difícil, foi um corte seco de um dia para o outro…Acho que foi difícil para todo mundo. No começo desse isolamento, me cobrava muito a necessidade de estar fazendo algo, criar uma rotina, ser produtiva. Porque já me cobro muito. Tive perdas de pessoas na família por Covid19. O que me ajudou muito a ficar com a mente ocupada foi minha empresa de comfortfood C’est Potage delivery, (sigam; @cestpotage) para a qual me dediquei totalmente. Agora, com a volta das gravações, vou ter que me dividir entre as duas profissões porque decididamente o delivery ganhou muita força.

Qual a expectativa para o retorno ao trabalho? A melhor possível! Estou cheia de saudades de gravar, estudar o texto, dos colegas, doida para ver todo mundo, para entrar num estúdio, fazer uma maquiagem. (risos) Ansiosa para fazer o que amo. Existe um protocolo a seguir, então tudo vai ser diferente. É tenso, causa insegurança, mas quero pensar que vai dar tudo certo. E vai dar tudo certo.

Como acha que será essa retomada das artes, seja na TV, teatro e cinema? Está mais do que provado que artes, entretenimento, salvou (e está salvando) todo mundo nesse período. Uma pena a falta de valor que esse governo nos dá, mas somos guerreiros, estamos e vamos nos reinventar, voltar na garra, na luta. Estão surgindo muitas coisas novas nas redes. Eu, inclusive, estou ensaiando uma peça que já fiz no teatro e estamos voltando virtualmente em breve. É um veículo novo, estamos descobrindo como lidar, como contracenar por uma tela com os colegas… É um grande desafio, mas acho que é uma “novidade” que veio para ficar.

Fotos Vinicius Mochizuki