Forma e conteúdo em uma mulher incrível. Estamos falando, claro, da nossa estrela de capa, a atriz Natallia Rodrigues, que pode ser vista na reprise de Verdades Secretas. Natallia para nós é inesquecível, não só por conta da nossa matéria de capa impressa da edição #08 (de dezembro de 2013), por conta de seus diversos trabalhos na TV, sua forma de pensar e encarar a vida (de atriz e cidadã) e acima por conta desse sorriso cativante. Natallia é puro encantamento e papo bom. O resultado desse papo não poderia ser melhor. Já estávamos com saudades dessa mulher incrível.

Você foi nossa estrela de 2o aniversário em dezembro de 2013. Época em que você interpretava a Natasha em Gabriela e na sequência, você foi para Amor à Vida. Ao longo desses 8 anos, o que destacaria como mais marcante? Todas as etapas da minha vida foram e são marcantes. É um aprendizado e faz parte da minha evolução. Eu dou muito valor a cada passo, mesmo que às vezes eu erre. O erro faz parte do caminho e a maneira com que me relaciono com ele faz toda a diferença, no processo e no alcance de meus objetivos. Não existe apenas um momento especial e nunca vai existir. Esse é o pensamento que tenho do que é evoluir como a artista e ser humano que sou. 

Na época, você comentou que era múltipla. O que mudou em você, ou na sua forma de enxergar certos temas, ao longo desse tempo? Eu continuo múltipla (risos). Sou uma pessoa inquieta, observadora e não costumo me acomodar. Quero cada vez mais ampliar todo tipo de arte. Eu atuo, produzo, dirijo, escrevo e faço um pouco de tudo. Acredito que isso seja essencial para a vida de um artista. É importante ter uma base de figurino, maquiagem, iluminação, trilha sonora… Ainda mais eu fazendo teatro, entendo que me voltei mais para ele do que para os outros tipos de arte, há alguns anos. Tento ter noção de todas as áreas para que eu não fique presa somente numa forma, né? Sempre ampliei minhas capacidades de atuar na profissão. Sim, faço mil coisas ao mesmo tempo. Não consigo ficar parada. A profissão que escolhi é grandiosa e oferece muitos caminhos. 

Depois de diversas experiências e diversos formatos nesses últimos anos, quem é Natallia hoje em dia? Como se definiria como mulher e atriz hoje? A Natallia hoje em dia é um ser humano que trabalhou muito para chegar até aqui, me dediquei muito para me tornar a mulher que sou hoje. São 20 anos de terapia para me entender como uma mulher bem resolvida e esse trabalho de evolução dá liberdade de escolhas para a Natallia atriz. A artista caminha junto com a Natallia ser humano, não tem separação porque é uma evolução diária e automaticamente reflete nas minhas escolhas. Aprendi desde pequena com os meus pais que não iria existir liberdade na minha vida, se eu não aceitasse as minhas imperfeições. Eles me ensinaram isso e me deram muita liberdade para eu ser quem eu quero ser. Sempre me aceitei e fui me tornando muito livre. Ter essa liberdade de fazer o que eu quiser, é o que me move.

Como você enxerga hoje esse formato de não ter mais longos contratos com as TVs e as novas possibilidades de mídia como as redes sociais e os canais de streaming? Enxergo com muita positividade e acredito que a chegada dos streamings e das outras mídias, abriu muitas portas para profissionais incríveis que não tinham a oportunidade de serem contratados. Agora existem mais possibilidades para os profissionais capacitados. Antigamente, só existiam as emissoras. Hoje não só os atores, mas os diretores e profissionais da parte técnica que se envolvem numa série, novela ou filme tem muito mais abertura com as novas mídias. É importante essa chegada e espero que chegue cada vez mais novos formatos para que a gente possa exercer e caminhar por vários lugares, artisticamente.

Falando nisso, você participou de uma série Eu, Ela e Um Milhão de Seguidores. Antigamente, um bom ator precisava ter um bom currículo, com trabalhos diversos e muito talento. Hoje muitos atores são qualificados e julgados pelo número de seguidores nas redes sociais. Como encara isso? A série é uma crítica sobre o que já acontecia e tem crescido cada vez mais, traz essa questão dos números e a forma equivocada de engajamento. Para mim, isso não é válido, pois ninguém contrata um advogado, um médico ou qualquer outro profissional por ele ter milhares, ou milhões de seguidores. Por que então contratam atores pelos números que eles têm? Está tudo ao contrário. O ator para exercer a profissão dele precisa estudar e passar por todas as fases até tirar seu registro profissional, assim como um engenheiro. Hoje em dia, muitos não possuem esse registro, mas oferecem os números das redes sociais. A vezes são robôs, são seguidores comprados. Como podemos medir o talento de alguém dessa maneira? Eu vivo da arte e não me permito ser um número.

Como você lida com as redes sociais, isso de engajamento, cancelamentos…?!  Com relação ao cancelamento, sou uma mulher. E ser mulher é um ato político e revolucionário. A gente vive em uma sociedade injusta e precisamos ter uma coragem gigante. A minha voz é uma voz política, o meu corpo é um corpo político. Eu luto por uma sociedade melhor e muitas vezes, sou cancelada. Cada vez que faço uma publicação com teor político, eu perco seguidores. Mas isso não me importa porque não estou numa rede social para agradar a todos. Aliás, eu não nasci para agradar a todo mundo. Agrado quem compactua com o meu pensamento. Se as pessoas deixam de me seguir porque estão esperando um “look do dia” e veem que eu entrego outra coisa, penso: “Que bom!”. Porque não condiz com quem eu sou e não serei nada além do que acredito. Eu sou um ato de coragem e não posso ficar sentada com medo do cancelamento porque o medo para mim não vale. Não temo ao me expor como atriz, como vou temer o que o outro vai achar de mim?

E a cobrança por posicionamento político e social meio que cobrado dos artistas. Acha que, como pessoa pública, o artista deve expor suas convicções nas redes? Acho que é uma obrigação do artista se posicionar, ainda mais no momento político tão delicado em que estamos inseridos, nós vivemos um desgoverno. Dentro dos meus privilégios, eu não posso pensar de forma individual, preciso pensar no coletivo. Ele grita e eu devo gritar junto porque também faço parte dele. O coletivo está passando por muitas dificuldades e ter privilégios não significa que eu deva ficar parada em casa. Eu não concordo com esse governo. Na verdade, eu o abomino e acho muito importante me expressar sobre isso. E isso não está relacionado a ser de esquerda ou de direita, é uma questão de humanidade. Grito sim e vou às manifestações sempre que posso, sou da luta e continuarei sendo. É preciso lembrar que o atual governo acabou com a cultura de meu país e eu faço parte dela. Em hipótese alguma, posso achar normal e quem tem esse pensamento não entendeu absolutamente nada. É complicado, mas não temo ser cancelada por me posicionar. Eu me importo em ajudar a quem precisa, quero ver as pessoas com comida na mesa e não catando ossos como foi divulgado recentemente nos jornais. Me preocupo com quem ficou desempregado durante a pandemia enquanto o presidente teve a cara de pau de chamar a COVID-19 de “gripezinha” sem fazer nada pela população. Todos pagamos impostos, temos direito à moradia, educação, a uma vida digna, mas está difícil viver o básico atualmente.

Tudo anda muito exagerado, o tal do politicamente correto tem pesado muito em muitos casos, até atrapalhando certas causas. Como encontrar o equilíbrio nisso tudo? Primeiro você tem que ter consciência de qual causa você vai defender. Ter um embasamento para que a defesa seja correta. Apenas uma foto no Instagram não basta. Para eu defender o feminismo, por exemplo, é preciso estudar sobre o assunto. Eu encontro o ponto de equilíbrio nas causas que levanto bandeira estudando, aprendendo e entendo o movimento para que eu seja sempre coerente em meus pensamentos e naquilo que desejo expor sobre o tema. 

Com toda a liberdade conquistada pelas mulheres, diria que falta o que para homens e mulheres caminhem lado a lado sem quebra de braço? Como disse anteriormente, ser mulher é um ato de coragem. É um ato de resistência, um ato revolucionário e político. Na sociedade injusta em que nós vivemos, a única opção que temos é ser forte. De um tempo para cá, nós mulheres resolvemos nos empoderar de algo que já está conosco desde que nascemos. Decidimos nos posicionar e discutir sobre feminicídio, relacionamentos abusivos, piso salarial e sobre tudo aquilo que faziam as nossas ancestrais sofrerem. Elas não tinham voz e ter esse poder agora, é libertador. Os homens devem entender que somos capacitadas tanto quanto eles para tudo e nos respeitar porque não existe lugar de homem ou de mulher. O meu lugar é onde eu quero estar. O machismo precisa acabar e os homens precisam tomar consciência de que o corpo feminino não está a sua disposição e que o abuso é crime. Nós vivemos numa sociedade patriarcal e ainda existe um longo caminho para percorrermos, mas já estamos nele. A luta feminista não é uma disputa, é uma busca por igualdade. 

Em 2012 você posou nua para Playboy num ensaio cheio de fetiches. Foi uma quebra de tabu para você? Ou apenas mais um trabalho? O tabu está na cabeça das pessoas e não na minha. A Playboy foi um trabalho que me trouxe uma independência financeira gigante. Eu tenho muito orgulho disso, foi muito bem feito e gratificante para mim. Eu não tenho questão nenhuma em relação a isso. 

Atualmente, você voltou ao ar com sua personagem Estela com a reprise de “Verdades Secretas. Tem se assistido? Com que olhar você enxerga esse trabalho de seis anos atrás? Infelizmente não estou conseguindo assistir porque faço uma pós-graduação, estou estudando e as minhas aulas são muito cedo. Então não consigo rever esse trabalho, mas ele foi especial. Essa é uma parceria que vinha de muito tempo com o Walcyr Carrasco e o Maurinho Mendonça, onde eu pude estar rodeada de queridos colegas e participar de mais uma grande obra. 

E um de seus trabalhos mais recentes foi a série, Amélio, o Homem de Verdade, no Prime Box Brasil, que faz várias críticas sociais e traz à tona dramas da vida a dois. Como foi participar e o que ficou de lição? A Fabi, minha personagem, é uma menina com comportamentos muito abusivos na relação. Ela maltrata o marido e a série retrata bem isso. Normalmente, vemos os homens sendo abusivos e a série mostra uma mulher nesse papel. Para mim, o que ficou de lição é que ninguém deve se comportar assim, independentemente do gênero. Nós não podemos nos permitir a viver num relacionamento como esse porque ele é autodestrutivo. 

Em se tratando de vida a dois, como você se vê envolvida nesse “contrato de risco” que é o casamento? Porque um contrato de risco? Viver já é um risco. Não se pode fazer um contrato com ninguém. Você faz um acordo com você em ser feliz. Agora, ter essa felicidade vivendo junto, casando de branco, tendo filho ou não, só diz respeito a você. Eu não acredito que viver com alguém seja um “contrato de risco”, estou aqui para me arriscar mesmo. Se eu não fizer isso para viver, a minha máquina para e a última coisa que eu quero na vida é que a minha máquina pare. Temos que ser felizes independente das nossas escolhas ou da forma que pensamos no que seja um casamento. Eu, por exemplo, não creio num casamento de véu e grinalda na igreja porque para mim, viver a dois é mais que isso, é mais que uma festa. Hoje sou casada sem essa formalidade, foi a minha escolha e sou feliz com quem eu vivo. 

E durante esse momento turbulento de isolamento e distanciamento social, como cuidou da cabeça e do corpo? Eu cuidei da cabeça fazendo terapia, e do corpo, comendo o que eu queria, tomando cerveja e sendo feliz. Mas também ocupei a cabeça lendo, estudando, fiz vários cursos nesse tempo porque eu precisava fazer algo ou iria à loucura. Não foi só uma ajuda terapêutica que eu tive, mas também um processo de autoconhecimento. Olhei para dentro, procurei evoluir e busquei ter qualidade na vida e não quantidade. Isso foi essencial para eu me conectar comigo mesma e ter tido tempo para mim sem medo de ansiedade ainda que o momento propiciasse isso. Vi que eu precisava aprender a respirar porque eu e a minha família estávamos bem, e as pessoas próximas a mim também estavam seguras. O meu foco era me cuidar e cuidar dos outros para que pudéssemos passar por esse momento turbulento. Aprendi a cozinhar pratos além do básico… me arrisquei e foi delicioso viver isso também.

Na hora de relaxar o que faz sua cabeça? Como e onde se distrai? Os meus prazeres são muito simples. Se estou com a minha família, estou muito feliz, fico relaxada quando me reúno com eles. Gosto de ter um tempo com meu marido e fazermos coisas que nos dão prazer, como ver filme, ir pro meio do mato, respirar, ouvir e manter uma conexão com a natureza. Eu relaxo assim, estando perto das pessoas que eu amo. 

O que podemos esperar de Natallia Rodrigues nos próximos meses? O que vem por ai? Temos bastante novidades para os próximos meses. Serei uma das protagonistas do filme Virando a Mesa, com direção de Caio Cobra, que estreará em breve, e participo do documentário Vozes Sobre o Universo Feminino, dirigido por Paula Sachetta, que logo será exibido também. Nos palcos, já estou me preparando para o espetáculo Aquário em Peixes, uma história maravilhosa dirigida por Marcela Lordy. 

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