
Celebrando 20 anos de carreira, o ator e diretor carioca Eduardo Muniz vive um momento de destaque internacional. Atualmente, integra o elenco da série britânica Silent Witness, da BBC, interpretando Rodrigo da Silva no arco final da temporada. O artista também já participou da consagrada produção americana Grey’s Anatomy. Radicado nos Estados Unidos desde 2011, Eduardo acumula trabalhos ao redor do mundo. Recentemente, gravou uma campanha no Japão, estrelou uma ação global para a Ford Motor Company e participa, em Nova York, de um projeto de realidade virtual inspirado na jornada de Theodore Roosevelt pela Amazônia. Em breve, retorna à Inglaterra para um novo trabalho baseado em uma obra do dramaturgo Alan Ayckbourn. No Brasil, estreou na TV em Sítio do Picapau Amarelo e também atuou em novelas da Record, como Luz do Sol, Caminhos do Coração e Amor e Intrigas. Além de ator, destaca-se como diretor teatral, com montagens reconhecidas pela crítica.
Eduardo Muniz está nos novos episódios da série britânica Silent Whitness dando vida à um segurança brasileiro. Como foi fazer esse trabalho na Inglaterra? E como surgiu a oportunidade? Foi uma experiência maravilhosa desde o primeiro dia. A série foi filmada na cidade de Birmingham, a segunda maior da Inglaterra e berço da Revolução Industrial. Sempre que trabalho longe de casa, tenho o hábito de chegar 1 ou 2 dias antes e explorar a cidade andando. Então, andei umas seis horas pela cidade, sem rumo, entrando nas ruas, nos canais, etc. Aproveito também para estudar o roteiro! O Luke, que é meu agente na Inglaterra, enviou o teste. Eu estava de férias em Natal, no Brasil, e gravei com a ajuda da minha esposa, Bia Borinn, que também é atriz. Fiz o callback com o Michael Lacey (diretor) e o produtor Sean Gleeson e, duas semanas depois, estava embarcando do Rio de Janeiro para Londres.

Você já havia feito participação em Grey´s Anatomy. Qual a diferença entre fazer um trabalho nos EUA e na Inglaterra? E como fazer essa aclamada série americana impactou na sua carreira? Foram duas experiências bem diferentes. Fiz o teste para Grey’s Anatomy num domingo e, na terça-feira, já estava no set sendo dirigido pela Debbie Allen, que é uma lenda da TV americana. Acho que existe uma pressão maior nos EUA por conta dos altos custos de elenco e equipe, principalmente em Los Angeles. Então, a “temperatura” no set era mais alta, com gente correndo para cima e para baixo para que tudo fluísse bem. Na Inglaterra, o ritmo era muito mais tranquilo. Além disso, tive duas semanas para me preparar! Outra coisa interessante é que todo mundo com quem contracenei na Inglaterra vem do teatro — muitos também dirigem ou escrevem. Então, durante as horas de espera para trocar a luz ou mudar a locação, a gente conversava muito sobre grandes montagens, atores, diretores, etc.
Você também percebe diferenças nos sets estrangeiros para os brasileiros? O que aprendeu fora? Apesar de já ter trabalhado em sets na Record, SBT, Band e Globo, os primeiros dez anos da minha carreira foram no teatro, atuando ou dirigindo, então tive momentos pontuais na TV. Uma coisa muito interessante é a relação com o diretor ou diretora. No Brasil, o diretor tem a palavra final e exerce uma autoridade maior no set. Nos EUA — e também na Inglaterra — não é assim. Quem tem a palavra final na TV é o showrunner. Existe uma relação de poder e uma hierarquia de set bem diferentes entre os países. O que aprendi fora? Aprendi que ninguém está acima ou abaixo de ninguém, do showrunner ao motorista da van.


Você já mora nos EUA desde 2014. Por que optou pela mudança? E qual a maior dificuldade de se adaptar ao novo país? Vim para cá porque tanto eu quanto minha esposa sempre sonhamos em ter uma experiência fora do Brasil. A relação entre carreira e família estava completamente desequilibrada. Eu tinha acabado de ser pai pela primeira vez e praticamente não parava em casa. Vir para cá restabeleceu esse equilíbrio. Me permitiu participar ativamente da vida do meu filho: levar à escola, ir às apresentações, passeios, enfim, estar presente na vida dele. O maior desafio na adaptação foi ficar longe da família e dos amigos. Demorou anos para a gente criar nossa rede de amigos por aqui.
Como conseguiu entrar no mercado artístico mundial? Qual dica dá para quem pensa em fazer o mesmo? Eu confesso que nunca pensei muito nisso, nunca tive esse objetivo. Eu amo contar histórias, só isso. Me apaixonei pelo cinema aos 11 anos e, aos 18, me falaram que para ser ator eu precisava fazer teatro. Aí eu me apaixonei pelo teatro. Encontrei minha turma. Acho que, no final do dia — e desculpe porque lá vem o clichê dos clichês — você tem que fazer o que ama e encontrar sua turma. Aí o mercado encontra você. Agora, eu tenho total consciência da realidade da maioria dos brasileiros. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Então o bom e velho “faça o que ama” cai por terra quando você precisa ficar duas horas num ônibus e trabalhar dez horas por dia para ganhar um salário que mal paga o aluguel. Se você realmente sonha em ser ator, mesmo no meio da ralação da vida, eu faria isso: encontraria uma turma bacana, seja para fazer teatro ou usar o telefone mesmo para contar histórias. Escolas de teatro ou cinema são ótimos espaços para encontrar sua turma.

Estamos num momento em que o mundo tem premiado a arte brasileira – tanto artistas, como produções, diretores de fotografias etc. Isso percebe que isso também tem impactado de alguma forma a sua carreira pelo mundo? Sem dúvida. Acho que o Brasil vive um momento especial com Ainda Estou Aqui e agora O Agente Secreto este ano. Estamos no radar, né? Porém, é um trabalho contínuo, que não pode parar.
O ator Wagner Moura afirmou que não pretende perder o sotaque brasileiro para atuar nos EUA, onde mora atualmente para se dedicar à carreira internacional. E você, como lida com essa questão? Já perdeu trabalhos por isso? Eu sou amigo do Wagner há alguns anos, nossas famílias são próximas. A primeira coisa que disse quando o conheci foi que ele é uma espécie de farol para todos nós, que ilumina e mostra os caminhos. Assim como ele, não tenho nenhum interesse em perder o sotaque. Sou carioca, de mãe carioca e pai baiano, neto de pernambucano e cearense. Sou um ator brasileiro, com sotaque brasileiro. Já perdi dezenas de trabalhos por conta do sotaque, mas prefiro pensar que o que é meu está guardado.
Você chegou a fazer trabalhos na TV e no teatro brasileiros antes de ir para os EUA. Pensa em voltar a morar no Brasil e a trabalhar no mercado nacional? Todo santo dia eu penso em voltar para o Brasil. (risos). Estive com o Wagner dois dias depois que ele voltou das filmagens de O Agente Secreto e conversamos sobre atuar em português. O Wagner é tão bom ator que não me surpreenderia vê-lo atuando bem até em japonês. Mas não tem jeito: quando é a língua-mãe, bate no coração num lugar muito especial. E para atuar, eu acredito que é 99% coração e 1% seja lá o que for o resto. Mas sim, é um sonho atuar em português novamente. Espero ter essa oportunidade em breve.

Além de atuar, você chegou a fazer trabalhos como locutor. Você usa técnicas de atuação nestes momentos? E como é ser reconhecido pela voz de canais de TV, rádios etc? Eu e a atriz e diretora Denise Weinberg traduzimos um livro chamado Como Parar de Atuar, de um coach americano chamado Harold Guskin. Eu amo essa ideia de “não atuar”. Como fazer isso? Até hoje, confesso que não tenho resposta. Eu não uso uma técnica específica — cada projeto pede um tipo de abordagem diferente. A locução não é diferente. O canto lírico ajudou muito a entender os limites e possibilidades da minha voz. Fiz alguns anos com um mestre do canto, Lenine Santos. Fico muito feliz com a carreira que construí como locutor. A locução me possibilitou restabelecer esse equilíbrio de que falamos antes. Porém, meu lugar preferido é num set ou num palco. Não tem jeito.
Quais seus sonhos profissionais? Ah, eu queria um dia trabalhar com o Fernando Meirelles, de quem sou muito fã. E atuar em português, pelo amor de Deus! (risos).

